Dingos envolvidos na morte de jovem na Austrália serão sacrificados; entenda o que está por trás da decisão
Depois da turista canadense Piper James ser encontrada morta na ilha de K’gari, na Austrália, o governo do estado de Queensland anunciou, no último dia 25, que sacrificaria uma matilha de dez dingos. Os animais, que são caninos selvagens parentes dos lobos e dos cães domésticos, rodeavam o corpo da jovem de 19 anos quando ela foi encontrada com marcas de mordidas.
A autópsia apontou que é improvável que as mordidas tenham causado sua morte. Entretanto, seis dingos já foram abatidos, em uma ação que tem sido descrita por especialistas e comunidades locais como “irracional” e “desrespeitosa”.
O anúncio foi feito pelo ministro do Meio Ambiente de Queensland, Andrew Powell. Em comunicado, o ministro afirmou que, após a morte da turista, pelo menos um dos animais da matilha demonstrou comportamento agressivo contra uma pessoa que acampava na ilha.
“Esta é uma decisão difícil, mas acredito que foi uma decisão tomada pelo departamento em prol da segurança pública”, disse Powell.
Recém-formada no ensino médio, Piper James viajou para K’gari, na costa sudeste de Queensland, para trabalhar por seis semanas em um hostel para mochileiros. Durante a estadia, a jovem criou o hábito de, algumas vezes na semana, acordar bem cedo para assistir ao nascer do sol e tomar um banho de mar.
Na manhã do dia 19, o corpo da jovem foi encontrado próximo ao naufrágio do navio Maheno, um dos principais pontos turísticos da ilha. A causa mais provável da morte teria sido afogamento, segundo os achados preliminares da autópsia divulgados no dia 23.
Foram identificadas mordidas, feitas principalmente após a morte. Porém, para os legistas, “é improvável que marcas de mordida de dingo anteriores à morte tenham causado a morte imediata”.
“Após os achados iniciais da autópsia, o envolvimento desta matilha no incidente, e as observações feitas desde então, essa matilha foi considerada um risco inaceitável à segurança pública”, disse um porta-voz do departamento de meio ambiente de Queensland.
A ilha de K’gari
A relação entre os animais, habitantes, gestores e turistas da ilha, contudo, tem sido turbulenta há décadas.
Com mais de 120km de comprimento, K’gari é a maior ilha de areia do mundo, e fica dentro de um parque nacional de conservação. Até 2023, ela recebia o nome oficial de Ilha Fraser – em homenagem ao colonizador britânico James Fraser, que chegou e morreu no local em 1839. Antes dele, porém, quem habitava e continua habitando a ilha há pelo menos 5 mil anos são os povos Butchulla, um povo aborígene que, hoje, é responsável pela co-gestão da ilha junto com o governo do estado.
Os dingos são os principais predadores terrestres da Austrália. E, para o povo Butchulla, que chama os dingos de wongari, eles são sagrados. Hoje, estima-se que existam cerca de 200 desses animais em K’gari.
Na ilha, os wongari são geneticamente distintos daqueles encontrados na Austrália Continental, e, por terem uma população pequena, convivem com um nível grande de endogamia (isto é, quando parentes próximos se reproduzem). Estima-se que apenas 25 desses animais estejam efetivamente passando seus genes adiante.
O número pequeno de indivíduos e a pouca variabilidade genética colocam esses animais sob risco de extinção, e qualquer grande abate pode ter efeitos duradouros numa população tão pequena.
Ao mesmo tempo, K’gari é há décadas um ponto turístico central de Queensland. O departamento de meio ambiente do estado estima que, por ano, cerca de 400 mil pessoas visitam a ilha. Porém, o Comitê Consultivo do Patrimônio Mundial de K’gari aposta em um número bem maior: entre 800 mil e 1 milhão de pessoas.
Relatos de ataques de dingos a turistas tem acontecido com uma certa frequência na ilha – incluindo casos nos quais crianças foram mordidas. Porém, no total, todo ano, apenas algo em torno de 0,12% dos turistas passam por alguma experiência negativa com os dingos.
No passado, o caso mais controverso foi o de Clinton Gage, um menino de 9 anos morto por um dos animais, em 2001. Após a tragédia, o governo de Queensland decidiu sacrificar 28 dingos.
Desde então, 1 ou 2 desses animais são abatidos todo ano, porém, de acordo com especialistas, não existem evidências suficientes que apontem para qualquer melhora na segurança da ilha por decorrência dos abates. Outras medidas têm sido implementadas procurando reduzir esse risco: grades, sinalização e até a distribuição de “varas de dingo” projetadas para espantar os animais. Campanhas governamentais de conscientização tem procurado alertar turistas sobre os perigos desses animais que, apesar da baixa estatura, são predadores selvagens.
Ainda assim, grande parte dos turistas ignoram os avisos e tentam ver os dingos de perto. Nesse esforço, muitos dão comida aos bichos – o que pode ser perigoso. A alimentação voluntária desses caninos, somada aos restos de comida deixados por turistas pela ilha, podem fazer com que os animais associem a presença humana com a hora do lanche.
O que o governo de Queensland tem feito
Em vista dos problemas criados pelo turismo, em 2022, habitantes de K’gari passaram a pressionar o governo estadual por um limite no trânsito de visitantes na ilha. Em resposta, a então administração do Partido Trabalhista elaborou um plano que, entre outras medidas, limitaria a circulação de veículos nos 20 dias mais movimentados do ano.
Porém, com a troca de governos, Andrew Powell, do Partido Liberal Nacional, assumiu como o novo ministro do Meio Ambiente (que, em Queensland, também é ministro do Turismo), e determinou que o governo não limitaria mais a circulação de turistas na ilha. A decisão foi rechaçada por representantes dos povos Butchulla, que alertaram sobre os riscos que a decisão trazia aos ecossistemas e à cultura local.
O anúncio da medida que sacrificaria a matilha de dingos relacionada à morte de Piper James foi feito sem nenhuma consulta aos povos aborígenes (que, vale lembrar, são considerados co-gestores da ilha). Em nota, a Corpoação Aborígene Butchulla expressou surpresa e desapontamento com a decisão.
“Novamente, parece que prioridades econômicas estão sendo colocadas acima das vozes de pessoas e proprietários tradicionais, o que é frustrante e difícil de aceitar”, afirmam.
“Eu quero assegurar todas as partes interessadas [stakeholders], particularmente nossos operadores turísticos em K’gari-Ilha Fraser, que a ilha está aberta, e nós encorajamos as pessoas a continuar visitando essa terra das maravilhas espetacular”, disse o ministro, no dia 25.
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