Criatura mitológica ou erro de digitação? A verdadeira origem do Demogorgon
“O Demogorgon!”, exclama Mike Wheeler no primeiro episódio de Stranger Things. A criatura é uma das maiores ameaças em um jogo de Dungeons & Dragons, descrita pela Wiki da Forgotten Realms (editora que publica os livros do RPG de mesa) como “o senhor demônio e divindade menor da dominação e da drenagem de energia (…) uma personificação da loucura e da destruição que buscava arrastar todos para as profundezas infinitas do Abismo”.
Nos primeiros livros de D&D, o Demogorgon era retratado como sendo bípede (ou seja, anda ereto em duas pernas), com um corpo coberto de escamas reptilianas, pernas de dinossauro, tentáculos nos lugares dos braços, cauda longa e duas cabeças de macaco babuíno. Edições posteriores mantiveram quase todas essas características, mas, na versão 5e (a mais recente), as duas cabeças ficaram mais animalescas e o corpo, mais bombado.
Na série, os meninos usam “Demogorgon” para nomear a criatura esguia e ágil que aterroriza a cidade de Hawkins, abocanhando as vítimas com a mandíbula que só fica visível quando são abertas as “pétalas” de sua cabeça monstruosa.
Mas Dungeons & Dragons não foi a primeira obra de ficção a ter um Demogorgon. Na verdade, essa criatura já vinha sendo mencionada há séculos
A origem do nome
A menção mais antiga conhecida a Demogorgon está em um texto escrito por volta de 350 e 400 d.C. Em um comentário sobre Tebaida, uma epopeia do poeta romano Estácio, o erudito cristão Lactâncio Plácido faz referência a “Demogorgon, o deus supremo, cujo nome não é permitido conhecer”.
Estudiosos de hoje acreditam que, provavelmente, o “Demogorgon” de Plácido foi uma construção errônea da palavra δημιουργός (dēmiourgós), do grego antigo. Originalmente, a palavra “Dēmiourgós” vem da junção de “dêmos” (povo) e “érgon” (trabalho, obra). Dēmiourgós/demiurgo era usada para designar “aqueles que trabalham para o povo”, como artesãos, médicos e construtores.
No entanto, Plácido provavelmente se refere ao caráter mais metafísico da palavra, em que demiurgo designa um deus “falso”, diferente daquele que criou o universo. Essa concepção surge com Platão, que usa o termo “demiurgo” para descrever uma figura sobrenatural no diálogo Timeu: “Um artesão divino que organiza o caos e molda o cosmos segundo formas perfeitas”. Outros pensadores posteriores mantiveram interpretações parecidas, atribuindo ao termo “demiurgo” o sentido de um artesão ou feitor cósmico.
O problema é que Plácido fez a trapalhada e, em vez de “demiurgo”, usou “demogorgon”. Essa palavra pode ser interpretada como a união de “dêmos” (povo) e “gorgon” (as górgonas, como a Medusa, eram monstros capazes de transformar suas vítimas em pedra). Mas o demogorgon, como criatura, nunca fez parte da mitologia grega e nem da romana.
De qualquer forma, a confusão estava feita.
Superfamoso
Foi o autor italiano Giovanni Boccaccio quem colocou o Demogorgon de vez no imaginário popular. De acordo com o professor James K. Coleman, da Universidade de Pittsburgh, Boccaccio não era um especialista em mitologia, mas adorava se exibir fazendo citações a textos gregos. Ele provavelmente leu o nome errado em algum lugar e tomou aquilo como certo.
No século 14, ele incluiu o bichão em sua genealogia de criaturas míticas, a Genealogia deorum gentilium (ou Genealogia dos deuses pagãos), uma das obras mais influentes do Renascimento para o estudo e sistematização da mitologia greco-romana. A obra o descreve como “uma figura sombria, envolta em nuvens e penumbra que ocultam quaisquer traços mais específicos”.
Na prática, Boccaccio transformou o Demogorgon em uma divindade oficial. Depois disso, o sujeito começou a aparecer por todo lugar. Ele está em O Paraíso das Fadas, de 1590: um poema épico escrito pelo britânico Edmund Spenser, onde é descrito como um dos governantes do inferno. Está na peça Doctor Faustus, de Christopher Marlowe, onde o protagonista tenta evocar o demônio Mefistófeles e acaba chamando o Demogorgon no lugar. Está em Paraíso Perdido, um poema épico do século 17 e obra máxima de seu autor, o britânico John Milton, apontado como “o nome temido”.
É curioso notar a transformação pela qual o Demogorgon passou no período. Durante o início da Idade Moderna (entre 1450 e 1750), era comum que escritores usassem os nomes de divindades mitológicas (Júpiter, Minerva, etc.) como nomes de demônios, visto que muitas pessoas realmente acreditavam que as divindades cultuadas na Antiguidade Clássica eram, na verdade, demônios. Assim, o Demogorgon passou de uma vaga divindade ancestral na mitologia renascentista a um demônio malévolo do inferno.
A consagração do Demogorgon veio em 1820, no drama de armário Prometheus Unbound, do britânico Percy Bysshe Shelley. Na história, as personagens Asia e Panthea descem à caverna do Demogorgon e o encontram sentado em seu trono.
“Vejo uma escuridão poderosa/ Preenchendo o assento do poder, e raios de penumbra/ Circulam como a luz do sol do meio-dia,/ Invisíveis e sem forma; sem membros,/ Nem forma, nem contorno; contudo, sentimos que é/ Um Espírito vivo” – assim a peça descreve a criatura.
Posteriormente na peça Demogorgon destrona o deus Júpiter, pai dos deuses, e liberta Prometeu de sua prisão onde a águia lhe devorava o fígado diariamente. Depois dessa história, a fama do Demogorgon como uma criatura poderosa, nefasta e com poderes quase divinos estava cimentada.
Tempos modernos
Em 1976, surge a primeira edição de Dungeons & Dragons, em que o Demogorgon tem a aparência animalesca que descrevemos no começo. Com cinco metros de altura e 200 pontos de vida, ele batia um recorde para a época. Conforme o RPG foi sendo atualizado, o monstro deixou de ser apenas um monstro e ganhou “lore” (enredo, história pregressa).
Na terceira edição, por exemplo, ele passou a ser descrito como o governante da 88a camada do Abismo e suas cabeças (nomeadas Aameul e Hethradiah) foram ditas como donas de personalidades diferentes, com os conflitos entre as duas sendo percebidos pelos outros como insanidade. Na quarta edição, é explicado que o Demogorgon tinha apenas uma cabeça até o deus Amoth dividi-la em duas.
Em 2007, o criador de D&D explicou a origem do Demogorgon em um fórum na internet: “Foram os gregos, em sua mitologia, que originalmente criaram o Demogorgon. Ele era considerado a força elemental da terra, aquela que fazia as plantas crescerem, e por isso era retratado como um velho coberto de musgo. Escritores medievais o demonizaram, transformando-o em um terrível governante do submundo — uma representação muito mais colorida para uso em um RPG de mesa”.
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