Crânio fóssil minúsculo revela novo réptil que viveu no sul do Brasil há 240 milhões de anos
Menor do que uma unha humana, um crânio fossilizado de apenas 9,5 milímetros foi encontrado no sul do Brasil. O achado ajuda a esclarecer como era a vida terrestre na região há cerca de 240 milhões de anos, muito antes do surgimento e da ascensão dos dinossauros.
O material, encontrado no município de Novo Cabrais, no interior do Rio Grande do Sul, foi descrito por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) em um estudo publicado no periódico científico Scientific Reports.
Mesmo com dimensões tão reduzidas, o exemplar preserva detalhes anatômicos suficientes para a identificação de um novo animal, batizado de Sauropia macrorhinus. Trata-se de uma espécie inédita de réptil extinto e do menor tetrápode – grupo que reúne os vertebrados com quatro membros – já registrado em depósitos do Triássico (entre 251 e 201 milhões de anos atrás) na América do Sul.
Esse intervalo de tempo foi marcado pela recuperação da vida após a maior extinção em massa da história da Terra. Na época, os continentes ainda estavam unidos no supercontinente Pangeia, e os ecossistemas terrestres eram dominados por grandes herbívoros e predadores que não eram dinossauros, mas ancestrais de crocodilos e outros grupos hoje extintos.
A partir do tamanho do crânio, os pesquisadores estimam que o bichinho tivesse cerca de 5 centímetros de comprimento total. Em vida, Sauropia macrorhinus provavelmente se parecia com um lagarto muito pequeno, que caminhava sobre quatro patas e tinha olhos grandes.
Entre as características mais marcantes estão as narinas proporcionalmente amplas e os dentes simples, retos e em forma de pino. Esse conjunto indica uma dieta baseada em insetos e outros pequenos invertebrados.
As dimensões minúsculas do exemplar trouxeram desafios técnicos importantes. O crânio foi limpado manualmente com agulhas, sempre sob lupas de aumento, para evitar danos ao material.
Mesmo assim, muitas estruturas não poderiam ser analisadas apenas com observação direta. Para contornar esse problema, os pesquisadores recorreram a tomografias computadorizadas de alta resolução e à produção de modelos tridimensionais.
Os modelos em 3D foram fundamentais para a análise anatômica. A partir deles, foi possível identificar um conjunto de características que não aparece em nenhuma outra espécie conhecida, confirmando que se tratava de um animal novo para a ciência. A análise de parentesco indicou que Sauropia macrorhinus pertence aos Procolophonoidea, um grupo inserido em uma linhagem maior conhecida como pararépteis.
Os pararépteis não eram dinossauros nem pterossauros. Tratava-se de uma linhagem distinta de répteis que evoluiu em paralelo a esses grupos mais conhecidos. “Um fato interessante é que esse grupo conseguiu sobreviver à maior extinção que já aconteceu na história da vida na Terra”, destacou o paleontólogo Rodrigo Temp Müller, líder do estudo, em comunicado.
Dentro dos pararépteis, Sauropia macrorhinus foi classificado como um procolofonoide. Esse grupo é raro no registro fóssil do Triássico Médio da América do Sul. Até agora, apenas duas espécies haviam sido descritas para esse intervalo de tempo no continente.
Em geral, os procolofonoides eram animais pequenos, com menos de 30 centímetros de comprimento, e apresentavam uma grande diversidade de hábitos alimentares. Algumas espécies comiam insetos, enquanto outras conseguiam consumir vegetação mais dura.
Os pesquisadores também levantam a possibilidade de que o exemplar encontrado pertença a um indivíduo jovem, que ainda não havia atingido o tamanho máximo. Essa hipótese ajuda a explicar o nome do novo animal: Sauropia combina o termo grego sauros, que significa “lagarto”, com a palavra regional “piá”, usada no sul do Brasil para se referir a uma criança. Já o nome da espécie, macrorhinus, faz referência às narinas proporcionalmente grandes.

Papel no ecossistema
Segundo Müller, os sítios fossilíferos da região central do Rio Grande do Sul costumam preservar principalmente grandes herbívoros e predadores.
“Geralmente, escavamos fósseis muito grandes nessa região, animais que chegam a ter até 5, 6 metros de comprimento, de modo que o crânio desses animais chega a variar de 30 centímetros até quase 1 metro. São animais que ocupavam posições de topo de cadeia nos ecossistemas daquela época. Fósseis muito pequenos são bem mais raros, pelo menos nas rochas que a gente estuda aqui na região”, afirmou.
O novo achado ajuda a ampliar o entendimento sobre a composição desses ambientes. De acordo com o pesquisador, os cientistas sempre souberam que os ecossistemas do Triássico não eram formados apenas por animais de grande porte, mas a ausência de fósseis diminutos dificultava a reconstrução das relações alimentares.
“Esse animal ajuda a gente a entender qual animal predava qual animal”, explicou Müller. “Certamente, por ser um animalzinho com cerca de 5 centímetros de comprimento total, ele era predado por animais pequenos, e não por animais muito grandes.”
De acordo com o estudo, Sauropia macrorhinus pode ter feito parte da dieta de predadores de pequeno porte, como o Parvosuchus aurelioi, um réptil aparentado aos crocodilos, com cerca de um metro de comprimento, descrito recentemente para a mesma região.
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