Couro costurado de 12 mil anos pode ser peça de roupa mais antiga já encontrada
Cerca de 12 mil anos atrás, a vida na região que hoje corresponde ao centro do estado do Oregon, nos Estados Unidos, era bem mais hostil. Por causa de um episódio abrupto de resfriamento global no fim da última Era Glacial, a área enfrentava temperaturas baixas e invernos rigorosos.
A paisagem era marcada por áreas abertas e vegetação rasteira. Grandes animais, como bisões e alces, circulavam pelo território, junto com lebres, coelhos e outros pequenos mamíferos. E os grupos humanos viviam de forma nômade, deslocando-se conforme as estações.
Em algum momento daquele período, alguém cortou, depilou e preparou a pele de um alce. Depois, usando um cordão feito da torção de fibras vegetais misturadas a pelos de animal, costurou dois fragmentos de couro.
A peça foi pensada para unir partes de um mesmo artefato e reduzir a entrada de ar frio. O objeto acabou deixado em uma caverna da região e foi preservado por milênios graças ao clima seco do Oregon. Hoje, esse fragmento é considerado o exemplo físico mais antigo já identificado de couro costurado – e possivelmente de vestimenta ajustada – em todo o mundo.
Ele é o principal achado de um estudo publicado na revista Science Advances, que analisou tecnologias feitas com materiais perecíveis deste período da história em dois sítios arqueológicos do estado: a Caverna Cougar Mountain e as Cavernas Paisley.
O couro costurado foi escavado originalmente em 1958, durante trabalhos conduzidos por um arqueólogo na Caverna Cougar Mountain. Por décadas, o objeto ficou guardado em acervos de museus, sem datação precisa. O novo estudo é o primeiro a analisar esse material de forma detalhada, usando técnicas que permitem datar os objetos, identificar de que espécies eles vieram e entender como foram produzidos.
Os resultados indicam que o fragmento foi produzido entre 12.600 e 11.880 anos atrás. A análise química revelou que o couro pertence a um alce norte-americano (Cervus canadensis), um animal de grande porte cuja pele oferece bom isolamento térmico. O couro foi depilado e tratado antes da costura, o que mostra domínio técnico no preparo do material.
A estrutura do objeto também chama atenção. Dois fragmentos de couro são unidos por um cordão torcido em padrão complexo. O fio sai da borda de uma das peças, atravessa a outra e é amarrado de modo a não se soltar. Isso afasta a ideia de um simples amarrado improvisado. “Elas são definitivamente costuradas, porque encontramos cordas costuradas em uma pele que saem e entram em outra”, afirmou o arqueólogo Richard Rosencrance, da Universidade de Nevada, à Science News.
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Os autores do estudo evitam cravar a função exata do item, mas apontam algumas possibilidades: ele pode ter feito parte da borda de uma roupa ajustada, de um mocassim, de uma bolsa ou até de um abrigo portátil. Em todos os casos, a costura é o ponto central do achado. Diferentemente de peles soltas, apenas jogadas sobre o corpo, peças costuradas permitem roupas mais justas, que seguram melhor o calor e barram o vento.
O fragmento de couro faz parte de um conjunto maior de tecnologias perecíveis encontradas nas cavernas da região. Ao todo, os pesquisadores analisaram 55 objetos feitos de fibras vegetais, madeira e materiais animais, submetidos a 66 datações por radiocarbono. Todos se concentram no mesmo intervalo climático, entre cerca de 12.600 e 11.000 anos atrás.
Entre esses materiais estão dezenas de cordas trançadas, feitas com fibras de plantas locais. As cordas variam bastante em espessura e técnica, o que indica usos diferentes. “A diversidade de espécies de madeira e plantas usadas para fazer os diferentes itens, com tantas representadas apenas nesta pequena amostra, foi incrível para mim”, disse Rosencrance ao jornal Haaretz.
Também foram identificados objetos de madeira interpretados como partes de armadilhas de queda, usadas para capturar pequenos animais, como coelhos e lebres. Esses dispositivos simples, mas eficientes, indicam que a caça de animais de pequeno porte era uma parte regular da alimentação, complementando a captura de grandes mamíferos.

Outro ponto importante do estudo é a presença de agulhas de osso. Foram analisadas 14 agulhas com orifício, além de outras sem orifício e peças em diferentes estágios de fabricação. Muitas delas estão entre as mais finas já encontradas em contextos do Pleistoceno (entre 2,6 milhões e 11,7 mil anos atrás) em qualquer parte do mundo. A associação dessas agulhas com o couro costurado reforça a ideia de que roupas ajustadas eram produzidas ali de forma regular, não ocasional.
O registro arqueológico indica que essa solução não durou para sempre. As agulhas de osso com orifício desaparecem dos sítios do Oregon após cerca de 11.700 anos atrás, quando o clima começa a esquentar, já no início do Holoceno (a nossa atual época geológica). A mudança sugere que, com temperaturas mais altas, roupas ajustadas deixaram de ser essenciais e outras formas de vestuário passaram a predominar.
Para os pesquisadores, as descobertas mostram que os primeiros povos das Américas enfrentaram mudanças climáticas extremas com técnicas engenhosas.
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