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Curiosidades

Como as focas usam os bigodes para localizar presas muito distantes

I

magine que você está em um jardim, encantando-se com a luz que atravessa as folhas, o cheiro da terra, o calor do sol e o roçar do vento na pele. Talvez ainda dê para ouvir os pássaros ou o zumbido característico de uma cigarra. 

Essa é a vida na Terra para os humanos. Esse é o mundo que nossos sentidos nos permitem conhecer. O biólogo e filósofo Jakob von Uexküll (1864-1944) chamava isso de umwelt.

Mas há outros mundos, outros umwelts. Naquelas mesmas plantas, as abelhas enxergam sinais ultravioleta nas flores, indicando o melhor lugar para pousar e obter pólen. Algumas aves percebem o campo magnético da Terra e sabem se localizar com precisão, como se navegassem numa malha invisível de batalha-naval.

Certos insetos podem saber que a cigarra está por perto pela vibração das superfícies. As formigas seguem ordens em uma rígida hierarquia e infinitas trilhas a partir das informações obtidas pelos feromônios que deixam umas para as outras. É um sinalizador potente: 1 miligrama de feromônio da formiga-cortadeira-do-texas bem espalhado seria suficiente para guiá-las em três voltas ao redor da Terra (1). 

No mesmo jardim, pode ser ainda que o focinho de um cachorro encontre pistas úteis sobre dieta, fertilidade, capacidade física e estresse de outros cães das redondezas.

Para saber que essas coisas – comprimentos de luz que não enxergamos, vibrações mínimas, feromônios – existem, nós precisamos de instrumentos. Eles funcionam como tradutores: falta nos humanos o órgão para sentir as ondas magnéticas, mas você pode entendê-las se forem convertidas em um número ou um desenho no seu campo de visão. 

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Nossa visão, aliás, é uma das melhores e mais elaboradas dentre todas as espécies. Nós amamos enxergar: transformamos quase tudo em coisas que podem ser entendidas com os olhos. É o caso desta matéria (e de todas as outras da revista). 

Sendo assim, ajuste os seus olhos para, nas próximas linhas, imaginar outros mundos.

Este texto é parte da reportagem “Já é sensação”, da edição 485 da Super. Confira os outros textos aqui.


O

s olhos dos mamíferos evoluíram para enxergar no ar, e são quase inúteis para encontrar comida submersa. Mesmo assim, algumas espécies se adaptaram para “enxergar” com os ouvidos, usando a ecolocalização – caso dos cetáceos, que até desenvolveram um vocabulário específico.

Já outros mamíferos aquáticos, como as focas-comuns, foram por outro caminho. Em milhões de anos de evolução, prevaleceu nelas uma adaptação engenhosa do tato.

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O tato é um sentido mecânico. Na maior parte das vezes, ele nos informa sobre quando estamos tocando em algo. Conseguimos discernir temperatura, pressão, vibração, dureza – mas é preciso que a coisa esteja lá. 

Pode parecer óbvio, mas essa é uma limitação humana. Nossos órgãos são incapazes de sentir o toque de algo ausente. Mas não significa que isso seja impossível.

Imagine que você está à beira de uma estrada movimentada, com os olhos, ouvidos e nariz tapados. Você sente, pelo tato, o vento e a vibração de um caminhão que passa zunindo, e talvez saiba dizer para que lado ele foi.

O caminhão passa por você e, alguns metros depois, seu tato já não revela mais nada sobre a posição dele – se freou, virou, deu meia-volta, saiu voando. Se ele tivesse passado devagar, talvez nem a existência dele você notaria. 

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Um mamífero no mar tem que resolver um quebra-cabeça como esse todos os dias. Afinal, além da visão, a audição e o olfato dos mamíferos também não funcionam nada bem na água.

<span class=”hidden”>–</span>Tayrine Cruz/Superinteressante

Nos anos 2000, a equipe do pesquisador Guido Dehnhardt descobriu como as focas fazem para contornar esse problema: ele começou treinando duas focas machos, Henry e Nick, para seguirem um pequeno submarino. Quando eles já estavam craques, seus olhos e ouvidos eram tapados. O submarino dava uma voltinha na água e eles eram soltos minutos depois, com a missão de achá-lo.

Rapidamente, Henry e Nick encontravam o rastro do submarino e o seguiam, como se presos a uma corda. Eles não estavam só indo na direção geral do submarino, mas acompanhavam o trajeto com precisão. Se ele tivesse feito curvas ou subidas, as focas repetiam os movimentos até o destino final.

Quando um peixe nada, o impulso das suas barbatanas cria um pequeno redemoinho na água. Mesmo para um peixe pequeno, esse rastro pode durar mais de 30 segundos. É isso que as focas detectam, com muita sensibilidade.

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Por que amamos bichinhos? A ciência da fofura

O segredo dessa capacidade está bem debaixo do nariz (das focas): os bigodes. Assim como nos gatos, os bigodes delas não são apenas pelos. São órgãos sensoriais, chamados vibrissas. 

Na base de cada vibrissa há um órgão especializado, com muito sangue e terminações nervosas. É lá que o estímulo tátil se transforma em sinais neurais. Nos experimentos, quando as vibrissas eram tapadas com um plástico, as focas perdiam os submarinos.

Os bigodes das focas-comuns são diferentões, especializados: levemente achatados e cobertos de pequenas protuberâncias. Se fossem cilíndricos, como os de leões-marinhos, vibrariam muito com o movimento do próprio animal – o que tornaria difícil diferenciar as ondulações causadas por si próprio das de outros bichos. 

O formato e a distribuição dos bigodes das focas fazem com que elas detectem os redemoinhos e suas nuances com muito mais detalhes para calcular o sentido da trilha. Assim, elas conseguem localizar presas que estejam a até 180 metros de distância. 

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Fontes livro Um mundo imenso, de Ed Yong; artigos “Identification of the trail pheromone of a leaf-cutting ant, Atta texana”;  “Hydrodynamic trail-following in harbor seals (Phoca vitulina)” e “Harbor seal vibrissa morphology suppresses vortex-induced vibrations”.

 

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augustopjulio

Sou Augusto de Paula Júlio, idealizador do Tenis Portal, Tech Next Portal e do Curiosidades Online, tenista nas horas vagas, escritor amador e empreendedor digital. Mais informações em: https://www.augustojulio.com.