Chimpanzés da Uganda travam “guerra civil” sangrenta – e cientistas tentam entender por quê
Durante cerca de 30 anos, cientistas acompanharam a rotina de uma das maiores comunidades de chimpanzés selvagens já registradas.
O grupo vivia nas florestas do Parque Nacional de Kibale, em Uganda, e parecia funcionar como uma sociedade estável: indivíduos se alimentavam juntos, cuidavam da higiene uns dos outros e patrulhavam o território em cooperação.
Mas, aos poucos, essa convivência começou a ruir. O que surgiu dali foi um fenômeno raríssimo: uma divisão interna que acabou desencadeando uma sequência de ataques mortais entre antigos aliados. O caso acaba de ser descrito em um estudo publicado na revista Science.
A comunidade estudada é conhecida como Ngogo. Nos anos 1990, reunia cerca de 200 chimpanzés (Pan troglodytes), um tamanho excepcional para a espécie, que normalmente vive em grupos muito menores, com cerca de 20 a 100 indivíduos.
Mesmo vivendo como um único grupo, os animais seguiam o padrão típico de organização social dos chimpanzés, chamado de “fissão-fusão”: ao longo do dia, subgrupos menores se formam e se desfazem conforme os indivíduos se deslocam pelo território.
Com o passar dos anos, porém, alguns desses subgrupos começaram a se tornar mais estáveis. Entre 1998 e 2014, pesquisadores notaram que certos chimpanzés – especialmente alguns machos adultos – passaram a andar quase sempre juntos, formando alianças constantes.
Por volta de 2015, essas divisões informais começaram a se aprofundar. A comunidade de Ngogo começou a se fragmentar em dois blocos distintos. No início, ainda havia interação entre os dois lados; alguns indivíduos continuavam a cooperar ou a manter laços sociais.
Mas o processo rapidamente ganhou força. Em poucos anos, os chimpanzés passaram a viver e a se reproduzir separadamente. Em 2018, a ruptura estava completa: os dois grupos já não compartilhavam território, parceiros reprodutivos nem interações sociais.
A tensão também aumentou. Durante patrulhas nas fronteiras do território, os encontros entre membros das duas facções passaram a terminar em ataques organizados e repetidos. Vários machos adultos foram mortos nesses confrontos.
A partir de 2021, os pesquisadores também começaram a observar outro comportamento ainda mais extremo: infanticídio. Em várias ocasiões, chimpanzés invadiram o território rival, capturaram filhotes e os mataram.
Segundo o estudo, entre 2018 e 2024 os ataques resultaram, em média, na morte de um macho adulto e dois filhotes por ano.
E esse número pode ser apenas parte da história. Diversos chimpanzés simplesmente desapareceram durante o período de conflito, sem que os pesquisadores encontrassem seus corpos. Isso sugere que o número real de mortes pode ser maior.
O que motivou a briga?
Conflitos entre grupos diferentes de chimpanzés são relativamente comuns na natureza. Eles costumam acontecer quando comunidades rivais disputam território ou recursos, como árvores frutíferas, água ou áreas adequadas para construir ninhos.
O que torna o caso de Ngogo incomum é o fato de a violência ter surgido dentro de um único grupo original. Eventos desse tipo são extremamente raros. Estudos genéticos sugerem que divisões permanentes dentro de comunidades de chimpanzés podem ocorrer, em média, apenas uma vez a cada 500 anos.
O exemplo mais famoso ocorreu na década de 1970, quando a primatóloga Jane Goodall observou uma comunidade de chimpanzés no Parque Nacional de Gombe, na Tanzânia, se dividir em duas facções rivais. Ao longo de quatro anos, machos de um grupo mataram todos os seis machos do outro e uma fêmea adulta.
Na época, porém, as observações eram mais limitadas e alguns cientistas questionaram se o episódio poderia ter sido influenciado pela alimentação fornecida durante a pesquisa, que concentrava muitos chimpanzés no mesmo local e podia aumentar conflitos.
Por que amamos bichinhos? A ciência da fofura
Ainda não se sabe exatamente por que a comunidade de Ngogo se fragmentou. Os pesquisadores apontam vários fatores que podem ter desestabilizado os laços sociais.
Um deles é o tamanho do grupo. Isso pode ter dificultado a manutenção das relações sociais necessárias para manter a coesão do grupo.
Outro fator pode ter sido uma sequência de eventos ocorridos na década de 2010. Em 2014, cinco machos adultos e uma fêmea morreram, possivelmente após adoecer – entre eles, indivíduos que ocupavam posições importantes nas alianças do grupo.
Em 2015, um novo macho alfa assumiu a liderança da comunidade. Dois anos depois, uma epidemia respiratória matou cerca de 25 chimpanzés, provavelmente causada por vírus semelhantes aos que circulam entre humanos. Essas mudanças podem ter abalado alianças e hierarquias dentro do grupo
Outro detalhe curioso é que o grupo menor acabou sendo o mais agressivo. Embora tivesse menos indivíduos, essa facção iniciou todos os ataques registrados. Em um episódio observado em 2017, chimpanzés do grupo menor atacaram e feriram gravemente o macho alfa do grupo rival.
A violência continua até hoje. O estudo inclui dados coletados até 2024, mas os pesquisadores afirmam que novos ataques foram registrados em 2025 e 2026.
Para os cientistas, o episódio oferece pistas importantes sobre as origens evolutivas da violência coletiva. Chimpanzés são um dos parentes vivos mais próximos dos humanos – cerca de 98,8% do DNA das duas espécies é compartilhado. Por isso, estudar suas interações sociais pode ajudar a entender como conflitos surgem e se intensificam em sociedades complexas.
O caso de Ngogo sugere que a violência coletiva nem sempre depende de diferenças culturais, ideológicas ou religiosas – fatores frequentemente apontados para explicar guerras humanas. Segundo os autores, mudanças nas relações sociais e nas alianças dentro de um grupo também podem ser suficientes para gerar divisões profundas.
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