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Curiosidades

Afinal, para que servem as COPs? Os resultados das conferências do clima até agora

De longe, escuto uma música familiar. Chegando mais perto, reconheço a trilha sonora da animação Guerreiras do K-Pop. Sou convidada a participar de um workshop de fazer chaveiros, tirar foto com roupas típicas da Coreia do Sul e ainda ganho um leque com uma imagem do filme.

Não estou em um evento geek, e sim na COP, a conferência climática mais importante do planeta. O evento ocorre em um país diferente a cada ano – e, em 2025, calhou de ser sediado no estado em que nasci, e na cidade em que eu passei os primeiros 15 anos da minha vida.

Era visível a melhora na infraestrutura de Belém. Novos espaços culturais e de socialização foram inaugurados poucas semanas antes do evento. A cidade estava em clima de festa, e os paraenses em êxtase pela oportunidade de mostrar sua cultura ao mundo.

Eu e outras 50 mil pessoas estávamos credenciadas para participar do espaço principal da COP, a Zona Azul. Essa é a área em que rolam as negociações, com acesso restrito a delegações, diplomatas, cientistas, ONGs, jornalistas etc. Entrando lá, dei de cara com uma conferência multicultural, em que países e instituições montam estandes para divulgar o que estão fazendo de melhor no combate à crise climática… ou quase isso.

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Seria ingênuo achar que os países não usariam esse espaço para se autopromoverem em áreas como turismo e cultura. A China distribuía pelúcias de ursos pandas para quem estivesse disposto a assistir palestras em chinês – havia uma fila de interessados.

Passando a área dos pavilhões estava a parte mais “cinza” da Zona Azul: os escritórios das delegações, 22 salas de negociação e duas para plenárias (megassessões com todos os países). No total, eram 160 mil metros quadrados com dezenas de eventos acontecendo ao mesmo tempo.

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Ao lado ficava a Zona Verde, um espaço oficial aberto à comunidade onde aconteceram outras dezenas de painéis simultâneos. Extraoficialmente, a cidade abrigava ainda feiras, shows e manifestações culturais.

Algumas pessoas veem a COP como um festival desnecessário, além de um celeiro para greenwashing (empresas e países que posam de ambientalistas, mas que mantêm ações ineficientes ou prejudiciais ao clima) e lobistas. Ora, se o objetivo é lidar com o maior problema que a humanidade já criou para si mesma e para todas as espécies do planeta, não seria melhor (e mais sustentável) marcar um Zoom com chefes de Estado e cientistas e ir direto ao ponto?

Não. Existem bons motivos para a COP ser um evento presencial, e a pegada de carbono do evento é pouco significativa (a emissão estimada da COP30 foi de 130 mil toneladas de CO2 – 770 vezes menos do que o mundo inteiro emite num único dia). Vamos entender as virtudes e os problemas das conferências do clima – e por que, mesmo com contradições, elas ainda são essenciais.

<span class=”hidden”>–</span>UNclimatechange/Flickr/Reprodução

Do Rio a Paris

Nos anos 1960, a ciência conseguiu medir que o mundo estava esquentando. Nas décadas seguintes, reunimos dados mais do que suficientes para confirmar que esse aumento de temperatura é causado pela ação humana, e pode resultar em um colapso climático.

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Diante das evidências, os países-membros da ONU se reuniram no Rio de Janeiro em 1992 para discutir o problema. Uma das soluções propostas foi a criação do UNFCCC, o órgão climático da ONU.

A Rio92 deu início às COPs, nas quais os países debatem um tema inevitável – mas não estão dispostos a solucioná-lo a qualquer custo. “Os países estão lá não para defender o interesse planetário, e sim os seus interesses geopolíticos”, diz Paulo Artaxo, físico integrante do Pavilhão de Ciências Planetárias na COP30.

Essa foi a primeira vez que uma presidência da COP solicitou a presença de um pavilhão específico para tratar de evidências científicas. Sinal de que, apesar de a ciência ser levada em consideração, ela é só mais um dos fatores do jogo geopolítico, em que nenhum país quer sentir que está muitas casas atrás.

Em 2015, na COP21, o contexto mundial permitiu o maior avanço climático da História: a assinatura do Acordo de Paris. Ali, 195 países se comprometem a manter a temperatura global bem abaixo de 2 ºC em relação aos níveis pré-industriais até o fim do século. De preferência, abaixo de 1,5 ºC.

Se mantivéssemos o mundo como estava logo antes do Acordo, a temperatura aumentaria 4 °C em relação aos níveis pré-industriais. Significaria o fim da vida na Terra como a conhecemos: metade da população mundial estaria exposta ao calor letal; perderíamos até 70% das espécies; o nível do mar aumentaria 1 metro ou mais (destruindo cidades costeiras e forçando a migração de até 1 bilhão de pessoas); a escassez hídrica afetaria 40% da população e diminuiria a produtividade agrícola em 30% (1).

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Só que o mundo mudou nos últimos dez anos. Agora, caminhamos para um aumento de 2,6 °C. Esse cenário ainda resulta em uma catástrofe climática, mas nada perto do apocalipse de 4 °C. Eis o verdadeiro legado das COPs.

“O Acordo de Paris hoje é a única coisa que nos separa de um mundo 4 °C mais quente”, diz Claudio Angelo, coordenador de política internacional do Observatório do Clima. “Ele é, de muito longe, a melhor coisa que a gente tem para lidar com um problema coletivo.”

Imagem de três homens conversando. Dois deles estão usando cocar.
<span class=”hidden”>–</span>UNclimatechange/Flickr/Reprodução

E como o Acordo faz isso? O documento estabelece que cada país deve entregar sua contribuição nacionalmente determinada (NDC) – um plano mostrando o que irá fazer para chegar à meta de 1,5 ºC.

As NDCs são a principal ferramenta por trás do aumento de “só” 2,6 °C em vez de 4 °C. Planos cada vez mais ambiciosos devem ser entregues de cinco em cinco anos. Mas não é um sistema perfeito. As NDCs não exigem um mínimo necessário: cada país ajuda como acha que pode.

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Na COP30, 122 NDCs foram entregues, dos atuais 194 signatários do Acordo de Paris (os EUA abandonaram o compromisso). Não há punição para quem não entregou ou fez um plano que deixa a desejar. O que fazer?

Fernanda Carvalho, advogada e líder de Políticas Climáticas e de Energia na WWF, diz que é preciso diferenciar o direito internacional do direito legislativo. “Não tem como forçar os países a cumprirem […] Seria interessante colocar uma sanção econômica ou algo do tipo. Mas o mais importante é a pressão de outros países.”

Outra característica das COPs é que as decisões devem ser tomadas por consenso entre as nações. Se já é difícil decidir onde passar o Revéillon entre dez amigos, imagine agradar mais de 190 delegações com interesses distintos. Não à toa, os documentos oficiais costumam usar uma linguagem bastante branda – já que cada palavra deve ser aceita por todas as partes.

Esse é um ponto polêmico, pois impede decisões mais drásticas condizentes com a emergência climática. Um exemplo gritante é que, neste ano, duas palavrinhas essenciais ficaram de fora dos documentos oficiais da COP30.

O elefante branco no pavilhão

Em 2015, concordamos em limitar o aquecimento do planeta em 1,5 °C. Mas não combinamos como fazer isso. Nas COPs, discutem-se ações óbvias: investir em energia renovável, aumentar a eficiência dos aparelhos elétricos, zerar o desmatamento e atuar em reflorestamento.

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São medidas eficazes, claro. Só que o principal responsável pelas mudanças climáticas é a queima de combustíveis fósseis. Carvão, petróleo e gás natural correspondem a 90% das emissões de CO2 – o principal gás do efeito estufa.

Segundo pesquisas apresentadas nesta COP (2), só há um jeito de cumprir o Acordo de Paris: reduzir as emissões de CO2 vindas de combustíveis fósseis em 5% ao ano a partir de 2026. No entanto, o mundo ainda caminha para o lado contrário: em 2025, houve um aumento de 1,1% nas emissões de CO2 em relação a 2024.

Os negociadores sabem disso, só que esse ainda é um tema incômodo para alguns países. A primeira vez que o termo “combustíveis fósseis” apareceu em um documento oficial da COP (ou seja, ganhou o consenso) foi em 2023. Ironicamente, isso aconteceu na COP28, sediada nos Emirados Árabes, um dos principais países petroleiros do mundo.

Segundo Angelo, que esteve em mais de 14 COPs, um conjunto de fatores contribuiu para a inclusão do termo naquele texto final. O principal deles foi a pressão da sociedade civil, que defendia que aquele era o ano de falar do assunto. Já a mídia dizia que os Emirados Árabes estavam apenas usando o evento para fechar contratos de petróleo. No final das contas, foi aprovado um texto brando o suficiente para convencer os países árabes, mas relevante o bastante para mostrar serviço ao mundo.

No documento da COP28, os países concordam que precisam “transicionar para longe dos combustíveis fósseis”, mas não dizem como. A aposta do Brasil para a COP30 era pautar esse “como” por meio de dois mapas do caminho (roadmaps, em inglês). Um deles indicaria como reduzir o uso de combustíveis fósseis. O outro focaria em zerar o desmatamento.

Os mapas do caminho foram tema central dos painéis da COP30. Mas eles não atravessaram a peneira do consenso – sobretudo por oposição dos países petroleiros. O termo “combustíveis fósseis” nem sequer foi mencionado nos documentos da COP30 – ainda que fosse um tema impossível de ignorar nos pavilhões, plenárias e mesas de negociação.

Imagem de pessoas reunidas, numa enorme sala, estão sentadas, assistindo uma reunião on-line.
<span class=”hidden”>–</span>UNclimatechange/Flickr/Reprodução

Mesmo sem consenso, os mapas do caminho receberam o apoio de mais de 80 países. Uma das reações mais fortes na plenária final foi a da Colômbia, que se posicionou contra um documento final que não incluísse os combustíveis fósseis. “Esse foi um dos principais ganhos de Belém […] a proposta dos mapas do caminho criaram um movimento político lá dentro”, diz Angelo.

A presidência da COP30 se comprometeu a criar um grupo de trabalho para orientar os mapas do caminho, que devem ser entregues para avaliação na COP31, que acontecerá na Turquia (e será copresidida pela Austrália).

A incapacidade de redigir um texto satisfatório que passe por consenso mostra as limitações do modelo das COPs. A regra foi criada em um contexto geopolítico diferente, em que os países estavam mais dispostos a cooperar.

Para Paulo Artaxo, “o sistema da ONU é inadequado para tomar decisões críticas como essas. Tem que ser reformulado”. A visão é compartilhada por outros especialistas ouvidos pela Super. Eles destacam que, por outro lado, as decisões por consenso têm grande força política. E o mundo ainda não pensou em uma alternativa que garanta equidade aos países. A ferramenta talvez não seja a ideal, mas é a melhor que temos por ora.

Cada vez mais, porém, a COP mostra que sua importância não se limita às decisões consensuais.

Além dos documentos

Tudo o que acontece fora dos papéis oficiais são os motivos pelos quais a COP não poderia ser um evento online.  Um dos principais motores para decisões ambiciosas é a pressão popular. Membros de organizações selecionadas podem entrar na Zona Azul sob o título de observadores. Isso é importante porque, embora não tenham poder de voto, eles podem assistir a reuniões, conversar com membros de delegações e contribuir para a discussão.

Além disso, o corredor das salas de negociação é repleto de manifestações conduzidas por ativistas, o que também pressiona os líderes. Um exemplo disso foi o avanço em 20 processos de demarcação de terras indígenas no Brasil, uma demanda dos mais de 3 mil indígenas hospedados em Belém durante a COP. Se tudo fosse feito às escondidas, sem um evento que chamasse a atenção do público, provavelmente avançaríamos ainda menos em decisões como essa.

Imagem de pessoas reunidas carregando cartazes de protesto.
<span class=”hidden”>–</span>UNclimatechange/Flickr/Reprodução

A COP também é repleta de acordos que não envolvem todos os países da ONU. O Brasil aproveitou o evento para anunciar o TFFF, um fundo de investimento que remunera os países que deixarem suas florestas de pé. Nações como Alemanha, Noruega e o próprio Brasil anunciaram um total de US$ 6,5 bilhões para o fundo. A chamada “Agenda de Ação”, que acontece paralelamente às negociações formais, também mobilizou recursos para sistemas de saúde resilientes ao clima, expansão de redes elétricas renováveis, redução das emissões de metano,
entre outros.

A COP tem visto ainda o surgimento de “clubes” de países que desejam acelerar a ação climática. Ao final da COP30, Colômbia e Holanda anunciaram a realização de um encontro com as nações que ficaram descontentes com as resoluções oficiais.

“As crianças do ensino primário estão lendo textos que têm mais base na ciência e na realidade do que os textos produzidos nesta COP. Um texto sobre o clima que não consegue mencionar combustíveis fósseis é um texto sem compromisso com a verdade”, declarou o representante do Panamá, que também ficou descontente com a resolução. A “COP paralela”, com foco em combustíveis fósseis, será em Santa Marta, na Colômbia, em abril de 2026.

Tabela, em fundo marrom, com informações sobre a COP30.
<span class=”hidden”>–</span>Arte/Superinteressante

No âmbito individual, a COP abre a possibilidade de conexões que seriam impossíveis sem o evento. Durante meus dias na sala de imprensa, sentei ao lado de um jornalista holandês que não entendia a relação entre o movimento indígena e o aquecimento do planeta. Expliquei a ele que as reservas indígenas têm até 83% menos desmatamento em comparação a outras áreas (3), o que contribui para a diminuição de CO2 na atmosfera. Portanto, demarcá-las é uma política de mitigação. Ele acabou levando esse tema para um jornal local
da Holanda.

Interações como essa rolam não só na COP mas por toda a cidade-sede. Na Zona Verde, ocorrem palestras para todos os níveis de entendimento da ciência. Diferentes projetos espalhados pela cidade permitem que a população entre em contato com a pauta. Entender a fundo as mudanças climáticas é o que permite eleger tomadores de decisão que estejam alinhados com a preservação do planeta.

É claro que ações individuais têm pouco impacto diante do tamanho do problema, e que só políticas coordenadas de mitigação, adaptação e justiça climática de fato vão ajudar. Mas isso só reforça a existência das COPs: uma arena global que, todos os anos, dá as condições para que os líderes de cada país desempenhem essa tarefa.

Quando retornei a São Paulo, me perguntaram se a COP havia servido para alguma coisa. Compartilho da visão de Paulo Artaxo: “Classificar as COPs apenas como um sucesso ou fracasso é reduzir o problema mais complexo que a humanidade já enfrentou […] Questionar sua importância não faz sentido, pois elas são as únicas ferramentas que nós temos hoje para lidar com as mudanças climáticas”. Façamos bom uso delas.

Referências: (1) Dados do sexto relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), grupo criado pela ONU para acompanhar evidências científicas, que conta com a participação de 800 cientistas do mundo todo; (2) Global Carbon Budget 2025; (3) artigo Socio-economic and environmental trade-offs in Amazonian protected areas and Indigenous territories revealed by assessing competing land uses;

Agradecimentos: Carlos Nobre, pesquisador; Mariana Guimarães, membro da sociedade civil na COP pela ONG Mandí e Comitê COP30.

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augustopjulio

Sou Augusto de Paula Júlio, idealizador do Tenis Portal, Tech Next Portal e do Curiosidades Online, tenista nas horas vagas, escritor amador e empreendedor digital. Mais informações em: https://www.augustojulio.com.