Paleontólogos descobrem o primeiro anfíbio que viveu exclusivamente no mar
Os anfíbios são conhecidos por transitar entre dois mundos, vivendo tanto na terra quanto na água em diferentes fases da vida. Não por acaso, seu nome significa “vida dupla” em grego. Apesar disso, entre as mais de oito mil espécies atuais, nenhuma é conhecida por viver exclusivamente em um ambiente marinho. Uma descoberta na China, porém, pode mudar esse cenário.
Dois esqueletos fossilizados encontrados na província de Guizhou sugerem que um anfíbio habitava as águas salgadas pré-históricas daquela região há cerca de 237 milhões de anos. Batizada de Gerrothorax maritimus, a espécie tinha cerca de 74 centímetros de comprimento e corpo achatado, coberto por escamas duras – semelhantes a uma armadura.
Para especialistas, a descoberta é potencialmente revolucionária. “Se esse anfíbio do período Triássico era realmente totalmente marinho, então isso muda tudo”, disse Steve Brusatte, paleontólogo que não participou do estudo, à Nature. Na prática, agora cientistas são obrigados a repensar a forma como os anfíbios modernos se adaptaram à vida na terra e na água doce.
Atualmente, apenas 2% dos anfíbios apresentam níveis de tolerância ao sal do mar. Mas, diferente de peixes marinhos, que possuem glândulas especiais para eliminar o excesso de sal, o restante dos anfíbios não consegue regular a quantidade de sal absorvida. Isso porque eles possuem pele fina e permeável, que permite que respirem e absorvam água doce. Quando expostos à água salgada, porém, sofrem desidratação rápida.
“Quando um sapo nada em água salgada, ele perde a água de seu corpo, pois a água do mar a extrai através de sua pele permeável, por meio da pressão osmótica”, explica Ryosuke Motani, autor do estudo, à Reuters. “Ele também não consegue beber água, pelo mesmo motivo. Como resultado, perde peso corporal e precisa descansar em água doce para se recuperar.” Essa característica impede que os anfíbios se tornem totalmente marinhos.
No caso do Gerrothorax maritimus, um atributo singular permitiu que ele vivesse em águas salgadas: suas couraças ósseas. Essas estruturas protetoras, formadas por placas de osso, protegiam o animal de predadores em ambientes de água doce, mas também passaram a servir para a água do mar quando a linhagem começou a habitar partes mais salinas.
A couraça teria impedido a absorção de água salgada pela pele, forçando o animal a ingerir a água do mar pela boca e, em seguida, filtrar o sal por meio de suas brânquias. Segundo Motani, esse fenômeno é chamado de exaptação: quando uma característica biológica passa a desempenhar uma função diferente daquela de sua origem.
A análise anatômica sugere que o parente mais próximo do Gerrothorax maritimus é o Gerrothorax pulcherrimus, um anfíbio extinto que também viveu durante o período Triássico. O animal também apresentava uma espécie de armadura e corpo achatado, com a diferença de que ele vivia apenas em água doce. Essa descoberta levou os pesquisadores a concluir que o estilo de vida marinho do Gerrothorax maritimus foi um acaso evolutivo.
Também surgiu a possibilidade de que o esqueleto do Gerrothorax maritimus tenha sido levado para o mar após a morte – assim como é o caso de outros fósseis descobertos anteriormente. Mas os pesquisadores acreditavam que esse anfíbio era de fato uma criatura marinha, em parte, porque seus ossos foram encontrados muito distantes de qualquer massa terrestre existente na época, sugerindo que eles não foram levados até lá pela correnteza.
A equipe também analisou os isótopos do animal, com o objetivo de descobrir o que comia e onde vivia. Isso poderia auxiliar na datação de minerais e água em amostras marinhas. Assim, descobriram que os níveis encontrados nos ossos desses animais coincidiam com os da água do mar do Triássico, o que sugere que as criaturas “cresceram bebendo água do mar”, escreve o estudo publicado na revista Nature Ecology & Evolution.
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