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Curiosidades

O que os presidenciáveis de 2026 propõem sobre política industrial e inovação no Brasil

Nas eleições de 2026, o Instituto Questão de Ciência (IQC) se uniu com a Super e com a Veja Saúde para avaliar as propostas dos candidatos à presidência em ciência, tecnologia e saúde. As reportagens serão publicadas até 4 de outubro, o dia do pleito, nos sites das duas revistas. Acompanhe aqui e nas redes sociais: @iqciencia, @revistasuper e @veja_saude.  

Nos anos 1980, as linhas de produção tinham um peso bem maior na economia brasileira, especialmente porque a Ditadura Militar protegia as fábricas nacionais da concorrência com os importados. Essa política perdurou até o governo Collor. Em 1986, a indústria de transformação – aquela que converte matéria-prima em produto – respondia por 27,3% do PIB. Em 2025, essa fatia havia caído para 13,7%, segundo um levantamento do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), baseado em dados do IBGE. Com a desindustrialização em curso, o setor de serviços – que vai de comércio e restaurantes a desenvolvimento de software – ganhou espaço no PIB e na oferta de empregos. 

Enquanto isso, a agropecuária e a mineração tomaram espaço das manufaturas no nosso leque de exportações. Dos anos 2000 em diante, a expansão econômica acelerada da China gerou uma demanda inédita por comida, transporte, habitação e infraestrutura para uma população de bilhões. A procura aumentou o preço das commodities – mercadorias de preço volátil como soja, petróleo e minério de ferro, negociadas em grandes quantidades. E o Brasil, que tem tanto área para plantar quanto pré-sal para explorar, surfou na onda – reforçando a transformação da economia que já vinha de antes. 

Uma maneira de observar o resultado desse processo é olhar o Índice de Complexidade Econômica. Ele considera a diversidade dos produtos que um país exporta com competitividade e quantos outros países também conseguem exportá-los. A ideia é estimar o conhecimento produtivo necessário para fabricar aquilo que se vende. Segundo um levantamento do Instituto E+ Transição Energética, baseado no Atlas da Complexidade Econômica de Harvard, o Brasil passou da 25ª posição, em 1995, para a 56ª, em 2024. Em 2000 os manufaturados eram 58% das exportações; em 2018, já haviam caído a 35%.

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Melhorar essa métrica se tornou uma promessa frequente, que atravessa diferentes orientações ideológicas. Nos programas analisados, os candidatos “defendem, cada um à sua maneira, projetos em prol da reindustrialização nacional”, observa Renato Ortega, doutorando em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas, mantido por Unesp, Unicamp e PUC-SP. Todos concordam quanto à perda de capacidade industrial, mas divergem sobre como recuperá-la – e sobre quem deve conduzir esse processo.

Países que desenvolveram indústrias competitivas e passaram a exportar produtos sofisticados recorreram a combinações variadas de políticas públicas. Na Coreia do Sul, o financiamento apoiado pelo Estado ajudou a expandir setores industriais. Nos Estados Unidos, os programas espaciais e militares estiveram entre os primeiros grandes compradores de chips quando essa indústria ainda engatinhava. O governo podia atuar tanto como financiador quanto como cliente de uma tecnologia nascente.

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Há várias ferramentas disponíveis para isso. Incentivos fiscais reduzem o custo de investir em pesquisa. Empréstimos e garantias públicas podem viabilizar projetos que precisam de muito dinheiro e demoram a dar retorno. Também é possível investir na formação de profissionais e em laboratórios compartilhados por pesquisadores e empresas. A combinação e o desenho desses instrumentos influenciam seus resultados.

As chamadas encomendas tecnológicas atuam de outra forma: o poder público contrata pesquisa e desenvolvimento para resolver um problema que exige uma solução tecnológica ainda indisponível. Existe o risco de ela não funcionar – afinal, desenvolver algo novo envolve incerteza. O Estado participa desse risco para tentar obter uma tecnologia que atenda a uma necessidade pública, com a possibilidade de comprá-la em escala depois. Foi assim que a Fiocruz fechou com a AstraZeneca, em 2020, o acordo para produzir no país a vacina contra a covid-19.

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O desafio brasileiro inclui escolher como usar essas ferramentas e como aproximar a pesquisa feita nas universidades das necessidades das empresas. Também envolve ajudar negócios que já existem a incorporar tecnologias e produzir melhor. Como observa o economista Renato Garcia, professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), “apesar de praticamente todos os programas associarem inovação a produtividade, desenvolvimento e competitividade, eles propõem caminhos institucionais diferentes para realizar essa conexão”.

Anunciar um incentivo, porém, deixa várias questões em aberto. Quais empresas serão beneficiadas? O apoio público vai gerar investimentos que não aconteceriam sem ele? Como avaliar os resultados e decidir se um programa deve continuar? Na avaliação de Sergio Salles-Filho, professor titular do Departamento de Política Científica e Tecnológica da Unicamp, boa parte dos planos ainda fica devendo nessa passagem dos objetivos para a execução. “De forma geral, os programas são superficiais nesse assunto, quando não generalistas.”

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A discussão também vai além de aumentar o número de fábricas. Envolve decidir quais capacidades tecnológicas o Brasil pretende desenvolver e como aproveitar o conhecimento que já produz. A agricultura, por exemplo, também depende de inovação. Ao avaliar o conjunto das propostas, Paulo Antônio Zawislak, professor da Escola de Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), chama a atenção para a dificuldade de articular a produção de conhecimento, a formação de pessoas e sua aplicação nas empresas: “a gente tem visões fragmentadas, reativas”.

A Superinteressante analisou os planos de governo de 12 presidenciáveis e, com a ajuda de uma IA, selecionou os trechos que abordam tópicos relacionados ao tema “política industrial e inovação”. Quatro candidatos ficaram de fora da análise porque não tinham trechos sobre o assunto que fossem substanciais o suficiente para comentários mais aprofundados. 

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Além dos pesquisadores já citados, a Superinteressante consultou também Marcelo Balloti Monteiro, professor visitante de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC); João Victor da Motta Baptista, doutor em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas e pesquisador do Observatório de Regionalismo (ODR); e Victor Hugo de Oliveira Colmanetti, mestrando do programa, pesquisador do ODR e bolsista da Fapesp.

Para a análise, os trechos dos planos foram organizados em um documento com as candidaturas identificadas como “Candidato 1”, “Candidato 2” e assim por diante – de modo a evitar que a opinião dos pesquisadores sobre os candidatos gerasse viés nas análises.

Esta reportagem faz parte do projeto Ciência nas Eleições, uma iniciativa do Instituto Questão de Ciência (IQC) em parceria com as revistas VEJA SAÚDE e Superinteressante para analisar as propostas dos candidatos à presidência nas áreas de ciência, tecnologia e saúde. Confira aqui as reportagens da Superinteressante e aqui as de VEJA SAÚDE.

Edmilson Costa (PCB)

Edmilson Costa defende ampliar a participação direta do Estado na produção de tecnologia. Seu plano prevê mais recursos públicos para ciência e tecnologia e investimentos no Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada (Ceitec), a única estatal da América do Sul dedicada à fabricação de chips. 

O programa prevê uma “política de reindustrialização e criação de big techs públicas e nacionais, articulada com o monopólio estatal e soberano das terras raras e minerais críticos”, e fala também em ampliar os investimentos no Complexo Econômico-Industrial da Saúde (Ceis). A ideia é fortalecer a indústria nacional de medicamentos e equipamentos utilizados pelo SUS, com o objetivo de tornar o país independente de fornecedores estrangeiros. 

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Faz sentido usar a demanda do SUS para induzir o desenvolvimento da indústria de fármacos e equipamentos médicos no Brasil – e isso já acontece, em alguma medida.

A aposta no Ceitec, porém, pede mais ponderação. Sérgio Salles-Filho explica que “a produção de chips é um gargalo global. É altamente complexa e concentrada em poucas empresas de poucos países. É um dos principais focos de disputa por hegemonia e um centro de gravidade da geopolítica global. O Brasil tem atuação muito modesta nesse setor, longe da fronteira. Sua expansão tem horizontes limitados.” 

Uma fábrica de chips top de linha exige equipamentos especializados como as máquinas de litografia da empresa holandesa ASML — que usam luz ultravioleta para esculpir bilhões de transistores minúsculos nas placas de silício, e custam até US$ 400 milhões cada uma no caso dos modelos mais avançados. A Holanda proíbe ou restringe a exportação dessas engenhocas para fora da União Europeia.

A TSMC, sediada em Taiwan, é a maior usuária de máquinas da ASML no mundo, e é responsável por fabricar quase a totalidade das GPUs da Nvidia — o tipo de processador que está no coração dos data centers de IA. Os chips de memória DRAM, também essenciais para essas instalações, são um mercado dominado por três empresas: as coreanas SK Hynix e Samsung e a americana Micron. Mesmo a China, único país que rivaliza com os EUA e seus aliados orientais no campo do hardware, ainda tem dificuldade em alcançar a fronteira da área. 

Para Victor Hugo Colmanetti, outra lacuna do plano é que faltam informações sobre o financiamento das propostas. O candidato promete ampliar o orçamento dedicado à pesquisa, mas não estabelece valores ou fontes de recursos. A criação de empresas públicas análogas às big techs também não vem acompanhada de informações sobre suas atividades específicas e seus custos. “O aumento da dotação orçamentária para CT&I é uma diretriz legítima, mas permanece no plano da intenção, sem valores, fontes ou metas que permitam cobrá-la.”

Marcelo Monteiro aponta outra limitação. Embora o programa atribua às instituições públicas a responsabilidade pelo desenvolvimento tecnológico, seria necessário explicar como as novas tecnologias chegariam às demais empresas brasileiras, ou seja: sugerir mecanismos de cooperação entre os setores público e privado.

Ronaldo Caiado (PSD)

Caiado dedica bastante espaço à política industrial e à inovação. A proposta é fazer da política industrial uma “política permanente de Estado”, que atravesse mandatos.

O candidato do PSD defende modernizar a Lei do Bem, que concede incentivos tributários a empresas que investem em pesquisa e inovação, e ampliar seu alcance às pequenas e médias empresas. Também propõe dar estabilidade ao Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), que financia pesquisas, infraestrutura científica e inovação empresarial. O programa prevê crédito, subvenções e capital de risco, além de apoiar plantas-piloto e a cooperação entre universidades e empresas.

O plano pretende usar as compras públicas e as encomendas tecnológicas para criar uma demanda inicial por soluções nacionais de automação, robótica e software industrial. Para pequenas e médias indústrias, prevê “vouchers de digitalização”: uma espécie de vale para custear parte da modernização tecnológica, “com diagnóstico de maturidade, plano de implantação e contrapartida privada”. A aquisição de máquinas e a capacitação de trabalhadores também recebem atenção.

Entre as áreas contempladas estão inteligência artificial, semicondutores, biotecnologia e manufatura avançada. A ideia é aproveitar vantagens brasileiras, como energia limpa, recursos minerais e biodiversidade, para desenvolver cadeias de maior valor agregado. O programa prevê ampliar investimentos em hidrogênio de baixa emissão, biocombustíveis, baterias e minerais estratégicos, além de fortalecer a produção nacional de máquinas, robôs, sensores e sistemas de controle.

As medidas seriam acompanhadas por indicadores de produtividade, exportação e investimento privado mobilizado pelo apoio público. O programa também prevê avaliação independente, prestação de contas e políticas de formação profissional e desenvolvimento regional.

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Renato Garcia identifica mecanismos específicos para incentivar a modernização industrial. O pesquisador observa que os vouchers se destinam à adoção de tecnologias por empresas já existentes. Essa preocupação é diferente daquela envolvida no financiamento de pesquisas para desenvolver tecnologias inteiramente novas. As duas atividades exigem mesmo instrumentos de apoio distintos – e a proposta dá conta disso.

Victor Hugo Colmanetti avalia positivamente a previsão de acompanhamento dos resultados, incluindo a quantidade de tecnologias desenvolvidas com apoio público que efetivamente chegam ao mercado. Também destaca a exigência de contrapartidas verificáveis das empresas beneficiadas e de prazos definidos para o apoio.

Entretanto, o pesquisador observa que o documento não estabelece os resultados numéricos que pretende alcançar. “Os indicadores não têm valores-alvo, o que permite acompanhar a trajetória, mas não aferir o cumprimento.” A lacuna também aparece na estratégia para semicondutores, que prioriza as etapas em que o Brasil conseguiria competir internacionalmente, sem identificar quais seriam. Embora o plano cite fontes como o FNDCT e o Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), não estima o custo das medidas nem esclarece como conciliá-las com o compromisso de equilíbrio fiscal.

Marcelo Monteiro destaca a atenção às diferentes regiões do país e a conexão entre os setores público e privado. Sua ressalva é que reindustrializar a partir das vantagens brasileiras pode manter o país ligado às cadeias de produtos primários, em vez de modificar sua inserção no comércio internacional.

João Victor Baptista observa que muitas das instituições e medidas citadas já fazem parte da política industrial brasileira. Para ele, há uma tensão entre a dependência dessas estruturas públicas e a política fiscal apertada proposta pelo candidato. O pesquisador também questiona a articulação entre as numerosas iniciativas: “O plano se mostra mais preocupado com listar exaustivamente os elementos, sem costurá-los de forma racional.”

Augusto Cury (Avante)

As propostas do candidato envolvem principalmente transformar as universidades em centros de pesquisa aplicada. Defendem investir no empreendedorismo, criar laboratórios de startups e estimular a criação de patentes, sem entrar em detalhes sobre como fazê-lo. O objetivo é converter o conhecimento científico em “produtos, empresas, patentes, empregos e riqueza”.

Outro foco é aumentar o valor agregado dos produtos de exportação. Para isso, o programa menciona investimentos em inteligência artificial, biotecnologia, energia renovável, química fina, robótica (drones) e minerais críticos – áreas nas quais a indústria brasileira precisa virar protagonista, segundo argumenta o candidato. As propostas também não detalham tais investimentos, mas falam em ampliar o acesso a crédito e estabelecer benefícios tributários.

A ideia central é justamente criar cinco “zonas francas de exportação”: uma em Fortaleza, para empresas de energia renovável e IA; outra na Bahia, com incentivos para petroquímica e indústria pesada; outra no Rio de Janeiro, para petróleo, gás e indústria naval; uma em São Paulo, para a “indústria 4.0”; e outra no Rio Grande do Sul, para máquinas agrícolas inteligentes.

As zonas francas teriam centros de inovação associados às universidades locais e ficariam sob coordenação da Zona Nacional de Exportação (ZONE), um novo órgão responsável por planejar e acompanhar os resultados dessa política.

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Renato Ortega aponta que o programa é um dos vários que “parecem não levar com a devida seriedade” desafios importantes para qualquer política de fomento às exportações, como o “cenário extremamente adverso” do comércio global, com grandes potências intensificando políticas protecionistas, fóruns multilaterais se esvaziando e conflitos internacionais aumentando a incerteza.

Ortega também observa que estabelecer regimes tributários especiais representa perda de arrecadação pela União, “ao passo que a ampliação da pesquisa, da tecnologia e da infraestrutura demanda investimentos públicos significativos”. O programa de Cury é um dos que “parecem ignorar essa tensão”.

Sérgio Salles-Filho, por sua vez, argumenta que a história das zonas francas no Brasil “não habilita imaginar” que o modelo é a resposta para a inovação: ele teria criado uma “indústria atraída por incentivos, sem contrapartida de competitividade ou de geração e apropriação local de riqueza”.

Para Victor Hugo Colmanetti, falta concretude aos planos do candidato neste eixo temático: o programa fala em avaliar resultados por “indicadores claros”, mas não menciona quais seriam; fala em criar uma nova instância para coordenar os investimentos em exportação (a ZONE), mas sequer define sua natureza jurídica. 

“E a lista de setores prioritários, que inclui inteligência artificial e biotecnologia, sugere uma agenda definida pelo Estado”, diz o pesquisador. “Mas sem instrumentos que a sustentem, ela funciona mais como vitrine para investidores do que como estratégia de capacitação.”

Flávio Bolsonaro (PL)

O plano de Flávio Bolsonaro associa inovação ao aumento da produtividade econômica. O candidato pretende ampliar o uso da inteligência artificial e fortalecer os parques tecnológicos, que abrigam empresas dedicadas ao desenvolvimento de novas tecnologias.

Uma das principais mudanças propostas é reorganizar o ensino superior: “(…) vamos transferir a governança para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, unificando ciência e ensino superior sob o mesmo teto.” Hoje, as universidades federais ficam sob o guarda-chuva do Ministério da Educação (MEC). O candidato também pretende alterar as prioridades da Capes e do CNPq para pesquisas aplicadas, que gerem produtos rentáveis e postos de trabalho.

Na educação profissional, o programa prevê uma aproximação maior entre escolas e empresas. O setor produtivo poderia financiar bolsas para estudantes de cursos técnicos, contribuindo diretamente para a formação dos profissionais que pretende contratar. 

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Sérgio Salles-Filho questiona a proposta de transferir as universidades federais para outro ministério. Para ele, não faz sentido propor uma mudança administrativa desse porte sem explicar quais problemas ela pretende resolver ou dar informações mais detalhadas sobre os possíveis efeitos da mudança.

No assunto da formação profissional, o pesquisador lembra que as empresas já contribuem com a formação de técnicos e tecnólogos – por exemplo, pagando as contribuições obrigatórias que sustentam o Sistema S (o conjunto de entidades sem fins lucrativos formado por Senai, Sesi, Senac, Sebrae etc). Ou seja: ao afirmar que “o setor produtivo poderá custear bolsas de formação técnica, financiando a qualificação dos profissionais de que precisa”, o plano ignora o contexto do Sistema S. 

O ensino técnico público já vem se expandindo há mais de duas décadas, o que põe em xeque trechos de redação genérica como “vamos ampliar a oferta de educação técnica para os alunos do Ensino Médio”. De acordo com dados do MEC e da plataforma Nilo Peçanha, o número de Institutos Federais, Cefets e escolas técnicas federais cresceu de 140 em 2002 para 686 unidades em 2024. 

Renato Garcia também considera o plano limitado: “não são especificados indicadores de desempenho para a política industrial e de inovação como um todo, sistemas de avaliação de instrumentos ou mecanismos gerais de coordenação interinstitucional.” Marcelo Monteiro tem uma opinião parecida. Para ele, “as ideias são vagas e generalistas” e o candidato “não aprofunda o assunto, sintoma de uma baixa preocupação com essas questões”.

Lula (PT)

O programa fala majoritariamente sobre continuar e ampliar políticas preexistentes, às vezes apresentando resultados. Um exemplo é o Plano Mais Produção, no âmbito da Nova Indústria Brasil, que “terá disponibilizado R$ 860 bilhões” em financiamentos de 2023 ao fim deste ano, segundo Lula.

(Vale notar que apenas duas das 13 metas oficiais da Nova Indústria Brasil contam com indicadores plenamente verificáveis, segundo o Observatório do Desenvolvimento do Cedeplar, na Universidade Federal de Minas Gerais. São objetivos relacionados à produtividade da indústria, à transição energética e ao urbanismo sustentável, por exemplo.)

O candidato propõe “concentrar a pauta exportadora em produtos com maior valor agregado” e garantir a “soberania tecnológica” do país. Por isso, promete desenvolver uma política específica para minerais críticos e terras raras, a fim de evitar “a simples exportação de matérias-primas estratégicas”.

Lula também defende investir em universidades e indústrias locais para desenvolver inteligência artificial e produzir tecnologia de hardware e software, além de “acelerar a difusão da inteligência artificial no setor produtivo, com foco em agro, saúde e serviços financeiros”.

O programa também prevê apoiar o crescimento de pequenas e médias empresas, com linhas de crédito voltadas à digitalização, e promete “transformar riquezas como a biodiversidade e a matriz energética limpa em vantagens competitivas duradouras”.

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O programa é um dos poucos que articulam políticas industriais com preocupações ambientais, falando explicitamente em medidas de descarbonização e de fomento à economia verde. Renato Ortega observa que Ronaldo Caiado (PSD) é o único outro candidato que trata do assunto detidamente; Flávio Bolsonaro (PL) menciona o mercado de carbono.

Victor Hugo Colmanetti argumenta que essa agenda “ganha densidade” quando associada a instrumentos como a Taxonomia Sustentável, um sistema criado no último ano pelo governo federal com critérios para identificar atividades, ativos e projetos sustentáveis. “Ainda assim, o compromisso futuro limita-se a ‘seguir mobilizando instrumentos financeiros, fiscais e regulatórios’, sem metas […]”.

Mas o programa é mais detalhado que os demais quando o assunto é execução, mencionando formatos de políticas, destinação orçamentária, fontes de financiamento e eixos prioritários, segundo João Victor Baptista.

Hertz Dias (PSTU)

Hertz Dias propõe criar fundos públicos destinados a financiar a industrialização brasileira e o desenvolvimento tecnológico. Esses fundos seriam “abastecidos pelos excedentes das empresas expropriadas, e não por impostos”, ou seja: o plano do candidato do PSTU pressupõe que o Estado assumiria o controle das empresas e destinaria seus excedentes aos fundos.

O dinheiro assim obtido seria dedicado “à industrialização, inovação tecnológica e expansão da infraestrutura nacional”, e os fundos seriam “organicamente associados a todas as universidades e institutos públicos de pesquisa e desenvolvimento”.

O plano menciona a fundação de uma empresa nacional de exploração de terras raras, sob controle dos trabalhadores (assunto ao qual dedicamos uma análise separada, acesse aqui) e prevê também expropriação integral da produção nacional de ouro, que seria incorporada às reservas cambiais brasileiras para reduzir a participação de títulos em dólares e outras moedas estrangeiras.

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Victor Hugo Colmanetti observa que o mecanismo de financiamento proposto depende da execução das expropriações. O pesquisador questiona qual seria o instrumento jurídico utilizado pelo governo e como seriam calculados os recursos efetivamente disponíveis para os novos fundos.

A Constituição brasileira prevê indenização prévia e justa ao expropriar bens dos cidadãos, e existem poucas exceções a essa regra. Por isso, o plano precisaria esclarecer como o candidato pretende executar sua proposta dentro da legislação brasileira (ou se seria necessário alterá-la). 

Renato Garcia observa que o programa não apresenta detalhes sobre a administração dos novos fundos. Também faltam informações sobre os critérios que seriam utilizados para escolher os projetos de inovação beneficiados pelos recursos. 

Renan Santos (Missão)

A proposta central de Renan Santos em inovação é “a criação de Zonas Econômicas Especiais (ZEEs) como instrumento estratégico de transformação industrial e desenvolvimento econômico brasileiro”. Nessas áreas, as empresas receberiam benefícios tributários e encontrariam infraestrutura adaptada especificamente à sua atuação.

O programa cita, por exemplo, uma zona voltada ao desenvolvimento de baterias e semicondutores (chips de computador e outros componentes de silício) e outra destinada à produção de equipamentos de defesa. Hidrogênio, baterias e aço de baixo carbono são outras indústrias mencionadas. O candidato também fala em terras raras, que são elementos químicos utilizados na fabricação de carros eletrificados, turbinas eólicas e outros itens importantes da transição energética para fontes renováveis.

O candidato do Missão prevê ampliar a participação brasileira em etapas posteriores à mineração em si, como a separação química e a fabricação de ímãs. O programa também menciona acordos de transferência de tecnologia (quando uma empresa estrangeira fornece know-how para uma operação no Brasil em vez de apenas instalar as linhas de produção aqui) e investimentos em centros de pesquisa associados às zonas industriais. 

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Renato Garcia destaca que o programa distribui as ZEEs por várias partes do território nacional, com foco no Nordeste, e prevê instrumentos específicos de financiamento. O pesquisador observa também que o plano prevê diferentes modelos administrativos para as zonas, que incluem parcerias público-privadas (PPP) e participação das Forças Armadas no caso da ZEE de Defesa.

Entretanto, o documento não prevê uma forma de avaliar o resultado dos incentivos concedidos às empresas; tampouco especifica regras para reduzir ou encerrar os benefícios caso eles não deem bons resultados. 

Sérgio Salles-Filho lembra que iniciativas semelhantes já foram discutidas no Brasil, mas considera necessário explicar por que a implantação dessas zonas e sua administração por PPPs, dentre várias outras estratégias possíveis, acabou escolhida pelo candidato. “As parcerias público-privadas em distritos de inovação é algo que vem sendo discutido há alguns anos. (…) Quais os efeitos esperados e por que são bons para o país?”

Para Victor Hugo Colmanetti, a proposta das ZEEs é uma das mais bem-estruturadas entre todos os planos, mas o pesquisador vê problemas pontuais — como o prazo proposto para licenciamentos. O plano prevê conceder essas autorizações em até 15 dias, mas atividades como o processamento de terras raras exigem estudos ambientais complexos, impraticáveis nessa janela de tempo. 

Romeu Zema (Novo)

O cerne das propostas para inovação de Zema é priorizar o ensino e a pesquisa nas áreas de ciências, tecnologia, engenharia e matemática (STEM, na sigla em inglês), bem como aproximar universidades e empresas – conectando startups de saúde a hospitais universitários, por exemplo.

O candidato fala em ampliar vagas e reformular critérios de concessão de bolsas pela Capes e pelo CNPq, de modo a “priorizar pesquisas com impacto científico mensurável ou que resolvam um problema real do mercado”. Também defende concentrar recursos em instituições “com histórico comprovado de produção científica relevante”, em um modelo que premie resultados.

Outras medidas propostas pelo candidato são: publicar, em formato aberto, informações sobre os beneficiários de recursos públicos destinados à inovação; facilitar a entrada de capital internacional e privado para pesquisa e desenvolvimento na agricultura; e atrair pesquisadores estrangeiros para o país.

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Marcelo Monteiro avalia que o programa é vago no que diz respeito à política industrial. Ao falar sobre inovação, trata apenas da relação entre ensino superior, ciência e tecnologia – que é “extremamente importante”, mas “não pode ser encarada como único tópico de destaque” neste eixo temático.

Renato Ortega argumenta que subordinar a produção de conhecimento nas universidades às demandas do mercado é uma decisão problemática. Ela consiste, por exemplo, em desvalorizar áreas geralmente entendidas como tendo pouca aplicação prática, como artes e ciências humanas. Além disso, favorece interesses privados e “desconsidera a própria lógica […] da construção do conhecimento, que é um esforço cumulativo e coletivo”.

Sergio Salles-Filho aponta que os trechos avaliados “mostram certa ignorância do que faz a Embrapa e outras instituições de pesquisa no país”. (No programa, o candidato fala em “reorientar a Embrapa para inovação aplicada”.)

Enquanto isso, Victor Hugo Colmanetti observa que a proposta de transparência é relevante, mas a maneira como está colocada – uma forma de a sociedade “cobrar entregas” – revela também uma “concepção produtivista” (e imediatista) da pesquisa.

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augustopjulio

Sou Augusto de Paula Júlio, idealizador do Tenis Portal, Tech Next Portal e do Curiosidades Online, tenista nas horas vagas, escritor amador e empreendedor digital. Mais informações em: https://www.augustojulio.com.