Será que “todos os caminhos levavam a Roma”?
Você com certeza já ouviu falar que “todos os caminhos levam a Roma”. O ditado remonta às estradas com mais de 80 mil quilômetros de extensão criadas pelos romanos para ligar as províncias à capital do Império Romano (27 a.C. a 476 d.C). Mas, por acaso, já parou para questionar a veracidade da frase? Todos os caminhos levavam, de fato, à Roma Antiga?
Foi exatamente esse o objetivo de um novo estudo publicado nesta terça-feira (15) na revista científica Nature. Através de reconstituições da rede viária do Império Romano, pesquisadores descobriram que o ditado não passa de um mito. Acontece que, tecnicamente, esse título pertence a outras cidades romanas. Várias, inclusive.
Cidades como Antioquia, Ancora e Bizâncio, na região da atual Turquia, assim como Corinto, na Grécia, eram “mais bem localizadas do que Roma” para quem viajava por terra. Segundo o artigo, os caminhos terrestres mais importantes do império sequer passavam pela Cidade Eterna.
A título de exemplo, podemos citar Corinto. A cidade estava mais integrada à rede viária porque suas estradas ligavam a Península do Peloponeso ao restante da Grécia. Outro exemplo é Ancora, que era uma opção melhor por ser um polo importante de transporte na Anatólia – que liga a Ásia à Europa.
O caso de Roma era mais singular. À Live Science, os autores da pesquisa recorreram a uma analogia anatômica para explicar a situação da capital no Império Romano: a Península Itálica seria uma espécie de “apêndice” da malha viária do império, e Roma estaria bem no meio desse apêndice, longe do fluxo principal das estradas. Ou seja, a cidade ficava às margens das rotas mais centrais.
Mas isso não ofuscou a importância da cidade. Durante grande parte da história antiga, Roma continuou como o coração político, econômico e cultural da civilização ocidental. O Império Romano como um todo, em seu auge no ano 117 d.C., chegou a quase 5,5 milhões de quilômetros quadrados ao redor do mar Mediterrâneo, ocupando grande parte da Europa, do Oriente Médio e do Norte da África.
O ditado popular veio só bem depois. Na Idade Média, um poeta francês, Alain de Lille, teria dito: “mille viae ducunt hominem per saecula Romam”, que significa “mil caminhos conduzem o homem para sempre a Roma”. Se continuarmos a pensar em Roma no sentido mais amplo, como um centro cultural do mundo antigo, talvez dê para dizer que o ditado permanece válido.
Conexões marítimas e fluviais
Para chegar às conclusões do artigo, pesquisadores calcularam o grau de conectividade das cidades romanas com a rede viária. Com o atlas digital “Itiner-e“, eles mapearam cerca de 300.000 quilômetros de estradas romanas.
Vale lembrar que o transporte terrestre não era o único meio de locomoção no Império Romano. O artigo observa que Roma pode ter desempenhado um papel mais significativo no transporte marítimo e fluvial do que no rodoviário. Mas como o foco do estudo não eram as vias marítimas, o próximo passo é investigar mais a fundo essas rotas na Roma antiga.
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