Por que a caveira com ossos cruzados é o símbolo para veneno?
Ela está nos desenhos animados, nos filmes de Hollywood e nas embalagens da indústria: a caveira com os ossos cruzados é, hoje, um símbolo universal para substâncias tóxicas. Mas quem é que teve a ideia de usar esse símbolo com essa finalidade?
A caveira como representação visual da morte já existia no mundo greco-romano. Existe um mosaico de Pompeia, hoje abrigado no Museu Arqueológico Nacional de Nápoles (Itália), que apresenta uma caveira pendurada em uma balança, acompanhada por uma borboleta (a alma), uma roda da Fortuna e símbolos de riqueza e pobreza. Essa obra representa a morte como uma grande “niveladora” das diferenças entre riqueza e classe.
O design da caveira com os ossos cruzados (que são, aparentemente, tíbias) não tem um autor específico conhecido e ficou popular na Europa medieval, onde se consolidou em associação a contextos funerários. Nessa época, era comum vê-lo em lápides e túmulos. Segundo o autor Joseph Piercy no livro Symbols, ele aparece, por exemplo, em algumas das insígnias dos Pobres Companheiros de Cristo e do Templo de Salomão, mais conhecidos como Cavaleiros Templários, uma ordem militar cristã ativa durante as Cruzadas dos séculos 12 e 13.
Arte
É possível que o símbolo tenha ganhado força com as tradições católicas. A Bíblia diz que Jesus foi crucificado em um lugar chamado Gólgota, termo que os Evangelhos traduzem como “Lugar da Caveira” (Mateus 27:33, Marcos 15:22 e João 19:17).
Posteriormente, o cristianismo incorporou a ideia de que, muito antes de Jesus andar por aquelas terras, Adão teria sido enterrado em Gólgota. Há registros dessa crença em autores cristãos antigos. Por exemplo, uma tradição atribuída ao bispo e escritor Basílio de Selêucia afirma que o crânio de Adão teria sido encontrado em Gólgota.
Nas obras renascentistas, as duas ideias foram unidas em uma coisa só: várias pinturas da crucificação retratam a ossada de Adão aos pés da cruz. Existe um simbolismo aí: a pose representa a vitória de Jesus sobre a morte, ao mesmo tempo que o coloca acima de Adão, o homem que trouxe o pecado para o mundo.
Pirataria
Foi durante a Era de Ouro da Pirataria, entre o final do século 17 e começo do 18, que a caveira com tíbias cruzadas passou a ser mais fortemente associada ao perigo e a avisos de alerta. Nessa época, a bandeira com o símbolo foi apelidada de “Jolly Roger” e muitos piratas a ostentavam como forma de intimidação a outros navios.
O pirata francês Emanuel Wynn, que era ativo no Mar do Caribe por volta de 1700, é considerado por muitos historiadores como o primeiro a hastear uma bandeira com uma caveira e ossos cruzados; no entanto, sua bandeira também incluía o símbolo de uma ampulheta.
Antes de içar a Jolly Roger, os piratas hasteavam a bandeira de algum país para enganar a tripulação do outro navio e fazê-la permitir a aproximação, possibilitando assim o saque da embarcação. Uma vez próximos, os piratas subiam a Jolly Roger, que servia de aviso ao navio visado de que ele estava prestes a ser atacado e abordado.
Se o navio se rendesse imediatamente, poderia ser concedida clemência (ou seja, a tripulação poderia ser feita prisioneira em vez de executada). Caso isso não acontecesse, a bandeira preta era substituída por uma vermelha, sinalizando que não haveria clemência e que os piratas lutariam até a morte para obter o espólio.
Nem todos os piratas usavam o símbolo de caveira e ossos cruzados: outras bandeiras exibiam ampulhetas, esqueletos, lanças, espadas cruzadas e corações sangrando. O julgamento do pirata Calico Jack Rackham, em 1720, tornou famoso o símbolo e sua associação com a pirataria — e, por extensão, com a morte. O curioso é que a bandeira de Rackham não tinha ossos, e sim espadas cruzadas.
Venenos
O símbolo voltou com força no século 19 quando o estado de Nova York aprovou uma lei que exigia que todos os contêineres e invólucros com substâncias tóxicas fossem rotulados. Ele começou a aparecer nesses rótulos por volta de 1850 — sua mensagem era forte, clara e não dependia de que quem visse fosse alfabetizado.
Hoje, diversas organizações ao redor do mundo institucionalizam o uso da caveira com ossos cruzados para significar substâncias venenosas ou tóxicas. É o caso da Agência Europeia de Produtos Químicos (ECHA) e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que utiliza o símbolo na rotulagem de agrotóxicos. Há outras normas em vigor no Brasil que também estabelecem o uso para substâncias tóxicas em contextos variados.
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