Um macaco já foi candidato à Prefeitura do Rio – e recebeu mais de 400 mil votos
As urnas eletrônicas foram implantadas no Brasil em 1996. Antes disso, as eleições eram realizadas com cédulas de papel, e os eleitores podiam escrever manualmente o nome do candidato de sua preferência. Foi assim que, nas eleições municipais do Rio de Janeiro de 1988, centenas de milhares de pessoas escreveram a mesma palavra na cédula: Tião. Não era um candidato oficial, mas sim um chimpanzé (Pan troglodytes).
Tião nasceu no Zoológico Municipal do Rio de Janeiro e era conhecido por sua personalidade forte e pelas constantes tentativas de fuga. O chimpanzé quebrou as portas da própria jaula, levantou as telas do recinto mais de uma vez para tentar escapar e, em outro episódio, se recusou a entrar na área coberta durante a chuva. Em determinado momento, chegou até a receber prescrição de calmantes dos veterinários.
Ele também não era exatamente simpático com os visitantes. Fazia caretas, jogava fezes e lama nas pessoas (até mesmo em políticos) e exibia os órgãos genitais para o público. E, justamente por isso, Tião acabou se tornando uma das principais atrações do local.
Em 1988, o zoológico lançou um programa de adoção de animais. Empresas podiam patrocinar os custos de manutenção de um bicho em troca de divulgar sua marca na jaula.
Na época, Tião tinha 25 anos e conquistou patrocinadores à sua altura: os jornais de humor Casseta Popular e Planeta Diário, conhecidos pelo caráter satírico. Inicialmente, a ideia era divulgar os veículos por meio da figura mais engraçada do Zoológico.
Ao mesmo tempo, aproximavam-se as eleições municipais. O país atravessava um período turbulento, recém-saído da ditadura militar: a democracia ainda se consolidava enquanto a inflação disparava. No Rio de Janeiro, a prefeitura havia decretado falência, aumentando ainda mais a insatisfação dos cariocas.
Foi nesse contexto que os humoristas da Casseta Popular tiveram uma ideia inusitada: lançar a candidatura de Tião à Prefeitura do Rio como uma forma de sátira política.
Em outubro, organizaram um evento em frente à jaula do chimpanzé. Inventaram a história de que o animal, sempre tentando fugir, seria, na verdade, um preso político.
O evento, condenado pela direção do zoológico, foi parar nas capas dos jornais e virou uma sensação no Rio. Tião recebeu santinhos, um jingle e diversos slogans, como “Tudo pela evolução. Para presidente, macaco Tião!”. Houve até um show em apoio à candidatura, realizado no Circo Voador, com apresentações gratuitas de artistas como Ultraje a Rigor e Lenine.
A campanha ganhou uma proporção imensa, e pessoas efetivamente votaram no animal. Como ele não era candidato registrado, todos esses votos foram anulados, mas as estimativas indicam que Tião recebeu cerca de 400 mil votos.
No fim, Marcello Alencar foi eleito prefeito do Rio de Janeiro e Tião ocupou a posição de terceiro nome mais votado da eleição, que reuniu 12 candidatos. O chimpanzé entrou para o Guinness World Records como o chimpanzé mais votado do mundo.

Tião morreu em 1996, devido a um coma diabético. Sua morte levou a Prefeitura do Rio a decretar alguns dias de luto oficial. Hoje, o chimpanzé é homenageado com uma estátua em tamanho real no zoológico, enquanto seu esqueleto está preservado no Centro de Primatologia do Rio de Janeiro.
E ele está longe de ser o único animal a entrar para a história da política brasileira. Em 1959, a rinoceronte Cacareco recebeu cerca de 100 mil votos para vereadora em São Paulo. Já em Vila Velha, no Espírito Santo, um mosquito ganhou as eleições municipais de 1987, mas teve seus votos anulados.
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