Na Idade Média, elefantes eram usados para executar pessoas condenadas
No ano de 1801, o aristocrata indiano Vithoji Rao Holkar, membro da poderosa família Holkar, foi condenado à morte. Diferentes clãs disputavam o poder do Império Marata, uma das principais potências políticas da Índia na época, e Holkar foi capturado pelo peshwa Bajirao II, governante da cidade de Pune e um dos pretendentes.
Segundo relatos históricos, Holkar foi amarrado e esmagado por um elefante. A execução tinha um forte caráter político: Bajirao II queria humilhar publicamente seu rival. Esse caso é frequentemente citado como a última execução por elefante envolvendo uma figura política importante na Índia. Ou, pelo menos, a última amplamente documentada.
É possível que outros episódios tenham ocorrido ao longo do século 19, embora os relatos não sejam tão confiáveis, mas é fato que a morte de Holkar, pelo menos simbolicamente, encerrou um ciclo: o fim das execuções por elefante na Ásia.
As primeiras referências indianas a punições envolvendo elefantes aparecem em textos antigos como o Arthaśāstra, tradicionalmente associado ao período do século 4 a.C. Outra fonte importante é o Manusmriti (Leis de Manu), texto jurídico hindu cuja composição é geralmente situada entre aproximadamente 200 a.C. e 200 d.C. Ele menciona punições realizadas com a participação de elefantes.
A prática se tornou especialmente documentada durante o Sultanato de Déli, um conjunto de dinastias muçulmanas que governaram grande parte do norte da Índia entre os séculos 13 e 16. Os elefantes eram usados principalmente contra rebeldes, inimigos políticos, prisioneiros de guerra e criminosos condenados.
Quase sempre, as execuções estavam associadas ao poder estatal — não apenas pelo fator político, mas também porque manter e treinar elefantes era bastante caro. Você sabia que um elefante asiático pode consumir mais de 100 kg de alimento por dia?
Os métodos
Na época, havia os mahouts, profissionais que atuavam como tratadores e comandantes dos elefantes. Os animais, que são conhecidos por serem extremamente inteligentes, eram treinados para obedecê-los por meio de gestos e palavras de comando. Nas execuções, o condenado era levado a uma área pública e o elefante executava as ordens conforme solicitadas pelo mahout.
Os relatos históricos descrevem diversos métodos, como:
- Arrastamento do corpo: O condenado, com mãos e pés atados, era amarrado a uma das patas do animal, que era ordenado a trotar livremente.
- Esmagamento do condenado sob as patas: Após um processo de punição que podia incluir tortura, a pessoa era posicionada em uma pedra para ser pisada pelo animal. Podia ser feito rápida ou lentamente.
- Esmagamento da cabeça: Também após punições com violência.
- Mutilação antes da morte: Utilizando as presas ou dispositivos afiados e pontudos acoplados ao animal (segundo alguns relatos).
No antigo Reino do Sião (atual Tailândia), elefantes eram treinados para lançar suas vítimas ao ar antes de esmagá-las até a morte. Já no Reino da Cochinchina (sul do Vietnã), os criminosos eram amarrados a um poste enquanto um elefante avançava contra eles e os esmagava até a morte.
O objetivo não era apenas executar, mas produzir um espetáculo de autoridade. O rei não era apenas um governante: era alguém com poder sobre essa força gigantesca da natureza. Tanto é que outros animais, como tigres, crocodilos e cobras também eram usados para punições — os elefantes, por sua magnitude, eram reservados para casos especiais.
O relato de Battuta
Um dos relatos mais detalhados vem do viajante marroquino Ibn Battuta, que esteve na Índia entre 1333 e 1342 e serviu na corte do sultão Muhammad bin Tughlaq. Em sua obra Rihla (As Viagens), ele descreve:
“Certo dia, quando eu mesmo estava presente, trouxeram alguns homens acusados de tentar contra a vida do vizir. Ordenou-se, então, que fossem lançados aos elefantes, animais treinados para despedaçar suas vítimas. Suas patas eram revestidas com peças de ferro afiadas, cujas extremidades assemelhavam-se a lâminas.”
“Em tais ocasiões, o condutor montava o animal; quando um homem era lançado a eles, os elefantes o envolviam com a tromba e o arremessavam para o alto, para depois agarrá-lo com as presas e jogá-lo ao chão, entre as patas dianteiras, sobre o peito, agindo exatamente conforme as instruções do condutor e as ordens do sultão. Se a ordem fosse despedaçá-lo, o elefante o fazia com suas peças de ferro e lançava os pedaços sobre a multidão reunida”.
Os mogóis
O costume continuou depois da queda do Sultanato de Déli, especialmente durante o Império Mogol (não confundir com o Império Mongol, que foi em outro lugar). Os mogóis existiram entre os séculos 16 e 19 e chegaram a dominar quase todo subcontinente indiano. Eles herdaram muitas práticas políticas indianas anteriores, incluindo o uso simbólico dos elefantes.
O imperador Akbar (1542–1605), terceiro governante do Império Mogol, tinha uma predileção pelos elefantes, que usava como armas de guerra e símbolo de soberania. Na corte mogol, eles recebiam nomes próprios, eram registrados em documentos oficiais e alguns eram tratados quase como membros da família imperial.
As execuções por elefante de Akbar eram mais teatrais. O imperador gostava de demonstrar controle sobre a vida dos condenados, ordenando os elefantes a atacarem e depois suspendendo a ordem antes do golpe final.
O fim
Embora a Índia seja o caso mais conhecido, execuções por elefantes também ocorreram em outras regiões asiáticas, como o citado Sião (atual Tailândia), Birmânia (atual Mianmar) e Camboja. Há também relatos isolados de uso dos elefantes para esse fim no Império Romano e no Império Mongol.
A partir do século 18, essa prática entrou em declínio. A influência europeia, especialmente dos colonizadores ingleses, fez com que os métodos de punição fossem substituídos por outros meios, similares ao que se fazia no Ocidente.
A execução de 1801, narrada no início do texto, pode não ter sido a última. O viajante e escritor francês Louis Rousselet visitou a Índia entre 1864 e 1868, quando o país estava sob domínio britânico, e descreveu uma execução por elefante que teria presenciado. É verdade? Não temos como saber. Mas o relato mostra que, menos de 200 anos atrás, a prática ainda existia ou era lembrada em algumas regiões.
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