Neandertais e humanos modernos colecionavam as mesmas conchas, mostra estudo
Um novo estudo indica que neandertais (Homo neanderthalensis) e humanos modernos (Homo sapiens) não apenas viveram na mesma região durante milhares de anos, como também podem ter compartilhado tradições culturais.
Pesquisadores encontraram evidências de que os dois grupos coletavam o mesmo tipo de concha marinha, a Columbella rustica, quando ocuparam a caverna Üçağızlı II, no sul da atual Turquia.
Esse pequeno molusco praticamente não tinha valor alimentar nem uma função prática evidente. Isso sugere que as conchas eram valorizadas por motivos simbólicos ou decorativos, um comportamento que antes era considerado exclusivo da nossa espécie.
As conclusões foram publicadas na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).
Os cientistas já sabiam que neandertais e Homo sapiens coexistiram por milhares de anos e chegaram a ter filhos juntos. Essa mistura deixou marcas até hoje: algumas pessoas carregam entre 1% e 2% de DNA neandertal. Mas, além da troca de genes, esses grupos também compartilhavam conhecimentos e costumes?
Para investigar essa questão, uma equipe da Turquia, Japão e França passou cinco anos escavando, milímetro por milímetro, a caverna Üçağızlı II.
O sítio fica no Levante, região que conecta a África à Eurásia e por onde passaram os primeiros Homo sapiens durante a migração para fora do continente africano. Como os fósseis desse período são escassos, qualquer descoberta ali ajuda a preencher lacunas importantes sobre o encontro entre as duas espécies.
Os restos encontrados mostram que os neandertais ocuparam a caverna entre cerca de 77 mil e 59 mil anos atrás. Depois, entre aproximadamente 59 mil e 47 mil anos atrás, foi a vez dos humanos modernos. Embora não haja evidências de que os dois grupos tenham vivido ali exatamente ao mesmo tempo, a transição entre eles foi relativamente rápida.
Os pesquisadores identificaram a qual espécie de hominídeo pertenciam os fósseis analisando a estrutura interna dos dentes. Já a idade das camadas de sedimentos foi determinada por uma técnica chamada luminescência opticamente estimulada, que estima há quanto tempo os grãos minerais ficaram enterrados sem receber luz solar.
Apesar da mudança de ocupantes, o modo de vida permaneceu muito parecido. As ferramentas de pedra eram produzidas da mesma forma, com sílex (uma rocha muito usada nesse tipo de utensílio) extraído das mesmas fontes locais. Os dois grupos também caçavam praticamente os mesmos animais, como cabras selvagens e javalis.
Mas o que mais chamo a atenção foram as 29 conchas de Columbella rustica encontradas. Algumas estavam perfuradas, como se tivessem sido usadas em colares ou outros adornos. Uma delas, do período neandertal, apresentava sinais de aquecimento deliberado, provavelmente para alterar sua cor.
O curioso é que havia muitas outras espécies de conchas disponíveis na costa mediterrânea. Ainda assim, tanto neandertais quanto humanos modernos demonstraram preferência justamente pela Columbella rustica.
“Considerando que a sobrevivência diária e a obtenção de alimentos eram literalmente questões de vida ou morte, o foco compartilhado em uma concha marinha não utilitária é extremamente revelador. Isso demonstra que, mesmo sob intensas pressões de sobrevivência, ambos os grupos humanos atribuíam grande valor a comportamentos potencialmente simbólicos”, disse o coautor Naoki Morimoto à Discover.
Cultura compartilhada?
Os autores não afirmam que essa tradição tenha sido transmitida de um grupo para o outro. É possível que ambos tenham desenvolvido esse comportamento de forma independente.
Ainda assim, eles consideram mais provável que tenha existido algum tipo de troca cultural, seja por contato direto, observação ou pela convivência prolongada na região.
“Nossos resultados indicam um profundo nível de interação cultural. Esses dois grupos humanos distintos, porém intimamente relacionados, não estavam apenas se adaptando ao mesmo ambiente: provavelmente compartilhavam preferências simbólicas”, afirmou Morimoto em comunicado.
Para a arqueóloga April Nowell, da Universidade de Victoria, no Canadá, que não participou da pesquisa, sítios como Üçağızlı II estão mudando a forma como os cientistas entendem a relação entre diferentes espécies humanas. Em entrevista à Live Science, ela afirmou que descobertas desse tipo mostram níveis de interação cultural muito maiores do que se imaginava.
Os próprios autores reconhecem que muitas perguntas continuam sem resposta. Ainda não se sabe exatamente quando essas tradições surgiram, como foram transmitidas ou se sua disseminação teve alguma relação com os cruzamentos entre neandertais e Homo sapiens. Novas escavações na caverna poderão ajudar a esclarecer essas questões.
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