Messi é autista? Como surgiu a fake news de que o jogador estaria no espectro
Lionel Messi é considerado um dos maiores jogadores de futebol da história. Revelado pelo Barcelona, clube espanhol que defendeu entre 2004 e 2021, o argentino acumulou recordes, títulos e feitos individuais.
Ao longo da carreira, venceu oito Bolas de Ouro, prêmio entregue pela revista France Football ao melhor jogador do mundo. Também liderou a Argentina na conquista da Copa do Mundo de 2022, no Catar.
Junto com a fama mundial, uma história sem comprovação passou a acompanhar sua trajetória. Há mais de uma década, circula na internet o boato de que Messi teria sido diagnosticado com autismo quando criança.
O rumor nasceu aqui no Brasil. Em 27 de agosto de 2013, o escritor e jornalista Roberto Amado publicou em seu site um texto chamado “Como o autismo de Messi ajudou-o a ser gênio”. Nele, afirmava que o jogador havia recebido um diagnóstico de Síndrome de Asperger aos 8 anos, ainda na Argentina.
Na época, o termo Asperger era usado para se referir a pessoas autistas sem atraso intelectual ou grandes dificuldades de linguagem. Hoje, essa classificação não é mais utilizada nos principais manuais médicos. Ela foi incorporada ao Transtorno do Espectro Autista (TEA), dividido em níveis de suporte de acordo com as necessidades de cada pessoa.
O texto, porém, não apresentava documentos, relatos familiares ou confirmação médica sobre o suposto diagnóstico. A teoria era baseada em interpretações sobre características conhecidas do jogador.
Entre os exemplos citados estavam a timidez de Messi em entrevistas, seu comportamento reservado e até seu estilo dentro de campo. O autor sugeria que a repetição de certos dribles, movimentos e finalizações poderia ser uma manifestação de padrões repetitivos associados ao autismo.
Mas essas associações não são suficientes para identificar se alguém está no espectro. Ser introvertido, gostar de uma rotina organizada ou repetir movimentos em uma atividade na qual se tem muita habilidade não significa ter autismo. O diagnóstico envolve uma avaliação ampla feita por profissionais especializados.
O texto de 2013 também comparava Messi ao personagem do filme Rain Man, de 1988, interpretado por Dustin Hoffman. No longa, ele vive um homem autista com síndrome de savant, uma condição rara em que uma pessoa apresenta habilidades excepcionais em uma área específica, como memória ou cálculo.
A comparação misturava conceitos diferentes e ajudava a reforçar a ideia equivocada de que pessoas autistas necessariamente possuem uma genialidade fora do comum. O espectro autista, porém, é bastante diverso; existem pessoas com diferentes características, habilidades e necessidades de apoio.
Mesmo sem comprovação, a história se espalhou rapidamente pela internet. Poucos dias depois da publicação, em setembro de 2013, o ex-jogador Romário compartilhou o texto no X (ex-Twitter).
“Vocês sabiam que o Messi tem Síndrome de Asperger? É uma forma leve de autismo, que deu a ele o dom do foco e concentração acima de tudo e de todos. Newton e Einstein também tinham níveis de autismo. Espero que, como eles, Messi se supere a cada dia e continue nos apresentando esse belo futebol”, escreveu.
A publicação ganhou repercussão internacional e chegou até Jorge Messi, pai do jogador, que negou a informação e cogitou tomar medidas judiciais. Romário voltou às redes sociais e afirmou que apenas havia divulgado uma informação que circulava no Brasil.
“Então fica aqui a informação: de acordo com o pai do Messi, ele não tem autismo. Não sou médico para confrontar a informação”, declarou.
Naquele mesmo mês, o UOL procurou Diego Schwarzstein, endocrinologista argentino que tratou Messi durante a infância. Por volta dos nove anos, o jogador foi diagnosticado com deficiência no hormônio do crescimento, substância importante para o desenvolvimento do corpo. O tratamento exigia aplicações frequentes e permitiu que o argentino crescesse normalmente.
Questionado sobre o suposto diagnóstico, Schwarzstein afirmou: “Leo nunca foi diagnosticado como Asperger ou qualquer outra forma de autismo. Isso é realmente uma bobagem”.
Além da negativa da família e do médico, a informação nunca apareceu em biografias reconhecidas, documentários ou registros oficiais sobre a vida do argentino. O jornalista espanhol Guillem Balague (autor da biografia autorizada “Messi”, publicada em 2013), por exemplo, rejeitou publicamente a história.
Ainda assim, o boato continuou ressurgindo. Em 2017, durante o programa “Encontro”, da TV Globo, o consultor financeiro Gustavo Cerbasi citou Messi como exemplo de uma pessoa que teria habilidades associadas ao autismo. A apresentadora Fátima Bernardes corrigiu a informação no ar e explicou que não havia confirmação sobre o diagnóstico.
Em 2020, o assunto voltou à tona em uma polêmica envolvendo o ex-jogador francês Christophe Dugarry, campeão da Copa do Mundo de 1998. Durante um comentário sobre Antoine Griezmann, atacante francês que na época era companheiro de Messi no Barcelona, Dugarry criticou a postura do jogador diante do argentino e usou o termo “autista” de forma pejorativa para se referir a Messi. A fala recebeu críticas, e o ex-atleta pediu desculpas dias depois.
Para especialistas e pessoas autistas, esse tipo de desinformação tem consequências. Associar o talento de Messi a um diagnóstico sem confirmação ajuda a reforçar estereótipos sobre o autismo, como a ideia de que pessoas no espectro sempre possuem habilidades extraordinárias ou algum tipo de genialidade.
Na realidade, o TEA é uma condição bastante diversa. Existem pessoas autistas com diferentes características, necessidades de apoio e habilidades. Reduzir o espectro à imagem do “gênio incompreendido” deixa de fora grande parte dessas experiências.
Por isso, especialistas recomendam usar como referência pessoas que já falaram publicamente sobre o próprio diagnóstico, como a escritora e pesquisadora Temple Grandin, o ator Anthony Hopkins e a ativista Greta Thunberg.
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