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Curiosidades

Turismo de massa: nunca se viajou tanto, e isso pode ser um problema

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Se você foi para Machu Picchu antes de junho de 2024, teve uma experiência diferente daquela vivenciada por quem visita a cidadela inca hoje. Não se pode mais andar com a relativa liberdade de antes. Agora, todos devem seguir circuitos predeterminados, em passarelas com fila única.

Se foi para o arquipélago de Ko Phi Phi antes de 2018 e visitou a Baía Maya, famosa desde que foi cenário do filme A Praia (2000), você vivenciou algo muito diferente do que é possível hoje. Após anos fechada para um programa de restauro ecológico, a baía reabriu em 2022 com um controle rígido e policiado. Antes, os turistas mergulhavam e até acampavam na praia. Hoje, podem, no máximo, molhar os pés. 

Em ambos os casos, a experiência mudou para conter o turismo excessivo e preservar o patrimônio natural e cultural. Diversos lugares criaram medidas do tipo, com graus diferentes de sucesso, para tentar frear um fenômeno que só tem crescido. Mas o chamado overtourism não é algo recente.

“Tourists, go home!”

Desde que o turismo existe, há também o dano causado por viajantes (ou pela falta de estrutura para recebê-los). Um estudo publicado em fevereiro mostrou que turistas indianos deixaram inscrições em tumbas egípcias há 2 mil anos, quando o Egito estava sob controle romano e já recebia visitantes estrangeiros. 

Mas não dá para falar em turismo excessivo por causa de um picho em sânscrito. Os estudos a respeito começaram nos anos 1990, na Europa, quando surgiram denúncias de prejuízo à qualidade de vida dos locais nas cidades favoritas dos mochileiros. 

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Em meados da década passada, esses efeitos já tinham se espalhado para outros continentes. Problemas nas redes de água, esgoto e energia, geração de lixo, trânsito, criminalidade, gentrificação, degradação ambiental, exploração sexual de crianças e adolescentes e aumento dos subempregos estão entre os principais danos.

Entre 2009 e 2019, o número de viagens internacionais cresceu a uma média de 5% ao ano. A pandemia bagunçou tudo, mas depois dela veio o chamado “turismo de vingança”, em que muitos resolveram correr atrás do prejuízo dos anos em que não puderam sair por aí. Em 2025, foram mais de 1,5 bilhão de viagens internacionais, segundo dados da Organização Mundial do Turismo, 4% acima do recorde anterior, de 2024, que já estava acima dos níveis pré-Covid. Nunca viajamos tanto.

O turismo global explodiu graças à democratização do transporte e da hospedagem. E, na última década, as redes sociais catapultaram as fotos que, antes, você só exibiria para os mais chegados. O termo “instagramável” se popularizou e virou um qualificativo desejado por empresários do setor, que buscam um lugar ao sol nessa multidão de arrobas lutando pela atenção das pessoas. 

Mas somente a promoção e a exposição nas redes sociais não cria turismo em excesso. “Qualquer destino no mundo só será muito visitado se houver acesso facilitado e possibilidade de hospedagem em diferentes categorias”, lembra Mariana Aldrigui, professora e pesquisadora da USP especializada em turismo. Ou seja: companhias aéreas de baixo custo e serviços como Airbnb estão na raiz da questão.

<span class=”hidden”>–</span>Wikimedia Commons e Getty/Montagem sobre reprodução
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Férias com muvuca

Com isso, nos últimos anos, os protestos têm aumentado. Nem todos os algoritmos levam a Roma – mais destinos estão implementando métodos para tentar conter as turbas de visitantes anuais. As iniciativas incluem desde barreiras físicas e ingressos mais caros até uso de IA (que pode sugerir épocas menos lotadas e destinos fora dos roteiros típicos). 

Dezenas de cidades criaram leis para regular os aluguéis por curta temporada [veja mais no mapa abaixo]. Cruzeiros no Mediterrâneo Oriental e no Golfo do Alasca estão mais restritos e precisam pagar taxas extras diárias. Sítios arqueológicos como Machu Picchu e Pompeia têm limitação diária de visitantes. Algumas cidades, de olho na muvuca que se forma em determinados pontos, proibiram carrinhos de golfe para transporte, como Florença. Parques nacionais, ilhas e até países inteiros estão cobrando taxas turísticas para visitantes estrangeiros. 

O Japão resolveu ser mais rígido: a cidade de Fujiyoshida cancelou o festival das cerejeiras de 2026. Em anos anteriores, os turistas estavam deixando uma montanha de lixo e até invadindo as casas das pessoas. 

Além disso, Kyoto e Fujikawaguchiko fecharam o acesso a algumas ruas, por causa do desrespeito de turistas ávidos para fotografar, respectivamente, as gueixas e o Monte Fuji. Outro cenário paradisíaco que o Instagram ajudou a transformar em um inferno para os moradores é a vila de Santa Madalena, no norte da Itália. Agora, quem quiser uma foto do pitoresco local, com sua igrejinha e as montanhas Dolomitas ao fundo, precisa passar ao menos uma noite. Adeus, turma do bate e volta.

Kyoto também adotou um aplicativo com dados em tempo real sobre aglomeração e um serviço para transportar e armazenar bagagem, a fim de reduzir o espaço que turistas ocupam no transporte público. A ilha espanhola de Maiorca também aposta na tecnologia para orientar as pessoas sobre melhores horários de visitação. Já Copenhague lançou uma iniciativa curiosa: um programa em que turistas pagam para fazer ações sustentáveis, como coletar lixo enquanto passeiam de caiaque. O modelo da capital dinamarquesa inspirou outras cidades.

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E o Brasil?

Batemos recorde de visitantes estrangeiros em 2025. Com 9,2 milhões de turistas, o País foi o que teve o maior crescimento no mundo em relação ao ano anterior (37%). Vários fatores ajudaram, como câmbio favorável, campanhas publicitárias e a COP30. 

Ainda assim, somos peixe pequeno perto das potências do setor. Só Istambul, na Turquia, recebe o dobro de pessoas que o Brasil inteiro, por exemplo. Então não dá para falar em turismo excessivo por aqui – ou dá? 

João Tasso, coordenador do programa de mestrado em planejamento territorial e turismo da Universidade de Brasília (UnB), defende que já existe overtourism no País, porque os pressupostos dessa definição devem ser qualitativos, não quantitativos. Segundo Tasso, seja qual for o número de turistas, o que importa é a capacidade do destino de dar conta dos distúrbios causados pelo fluxo de visitantes e de reconhecer que pode haver manifestações populares contrárias ao modelo de turismo imposto. 

Assim, muitos destinos no Brasil, mesmo que de forma embrionária, já estão nessa condição. Cidades litorâneas em diversos estados sabem há anos do que se trata. Engarrafamentos, falta de energia e de água, praias poluídas. Destinos concorridos no interior, como Gramado (RS) e Tiradentes (MG), também sofrem. 

Para Mariana Aldrigui, da USP, isso é reflexo da “péssima gestão pública do turismo” no País. Não que seja um problema diário: as cidades brasileiras não têm volumes constantes (às vezes até quatro vezes maiores que a população local) lotando suas ruas o ano todo, como acontece em famosos destinos internacionais. 

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Em todo caso, cada vez mais municípios nacionais vêm adotando medidas de contenção, especialmente taxas diárias de visitação.

Mapa-múndi escuro com o título Acabou a bagunça, mostrando países e cidades que implementaram medidas para conter o turismo excessivo. Há quatro caixas de texto amarelas com exemplos de medidas em Veneza, Amsterdã, Kyoto e Florença. Uma legenda detalha as restrições por cores: regulamentações para Airbnb, taxas para cruzeiros, limitação de cruzeiros, suspensão de construção de hotéis, limitação de turistas por dia, taxa diária de visitação, toque de recolher, suspensão de campanhas publicitárias, construção de barreiras e uso de aplicativos e IA para reduzir aglomerações. Um círculo amplia a Europa, destacando cidades como Paris, Roma e Amsterdã. Outras cidades e países marcados incluem Nova York, Machu Picchu, Tóquio e Sydney.
<span class=”hidden”>–</span>Rafaela Reis/Superinteressante

O que funciona

Há soluções que trazem certo alívio, mas correm o risco de passar a mensagem errada. Veneza instalou catracas em algumas áreas para controlar o fluxo, reforçando ainda mais a ideia de que ela deixou de ser uma cidade e virou um parque temático para turistas.

Em outros casos, as medidas deixam lacunas frágeis. Amsterdã suspendeu a construção de novos hotéis, mas depois descobriu que os que já existiam estavam aumentando a quantidade de leitos (o que também acabou proibido).

Fora as cidades que têm muitas regulamentações do tipo, mas seguem lotadas. Barcelona, assim como a capital holandesa, vem acumulando restrições, taxas e regulações desde a década passada, porém os números continuam mais altos que as torres da Sagrada Família: 16 milhões de turistas em 2025. Nova York apertou o cerco ao aluguel de temporada, mas ainda assim pode bater seu recorde este ano, chegando a 66 milhões de visitantes (nacionais e internacionais).

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Nem sempre reduzir a quantidade de desembarques é a solução almejada. O objetivo pode ser fazer com que o visitante gaste mais ou evitar que o mercado imobiliário transforme bairros inteiros em Airbnb. Veneza resolveu dobrar a taxa de entrada, que antes era de 5 euros. Cobrar 10 euros de alguém decidido a visitá-la talvez não desencoraje muita gente, mas pode ajudar a lidar com o excesso: na cidade italiana, a taxa é destinada à preservação do patrimônio. 

Às vezes, os efeitos são inesperados. Em Nova York, muitos aluguéis de temporada migraram para cidades vizinhas no estado de Nova Jersey. Mas Tasso enumera diversos casos de sucesso. 

A poluição do ar caiu 80% em Veneza após a restrição de cruzeiros. As ilhas gregas de Santorini e Mykonos registraram menos multidões ao limitarem os desembarques simultâneos de navios – os garçons e lojistas, antes enlouquecidos, agradecem. A preservação das ruínas de Machu Picchu melhorou, os impactos ambientais no Monte Fuji diminuíram e a Baía Maya, antes degradada, agora tem inofensivos filhotes de tubarão nadando no rasinho. 

O pulo está em como dar destino às taxas extras. Cobrar tarifas diárias relativamente altas contribui para a educação e a saúde da população (Butão), a proteção da biodiversidade (Costa Rica), a valorização da cultura de povos ancestrais (Nova Zelândia), o auxílio a comunidades locais (Botsuana) ou a preservação da vida marinha (Palau).

Mas são medidas ainda pontuais. As críticas ao turismo excessivo crescem conforme os problemas ficam mais evidentes, seja na disparada dos preços dos imóveis ou no apagamento da cultura local. Como viver em um bairro cujo metro quadrado é calculado de acordo com as férias dos gringos e onde todos os comércios familiares viraram Starbucks e lojas de conveniência genéricas?

Formigas pretas em fila indiana conectam três fotos de viagem: Monte Fuji com cerejeiras, Veneza com canal e gôndolas, e Santorini com moinhos de vento brancos.
<span class=”hidden”>–</span>Wikimedia Commons e Getty/Montagem sobre reprodução

A questão política

Enquanto associações de moradores se revoltam, políticos batem cabeça porque, muitas vezes, não existe consenso sobre quando se deve combater o turismo ou estimulá-lo. Em diversos lugares, afinal, ele é essencial para a economia. Bali, na Indonésia, decidiu banir a construção de novos hotéis, mas depois voltou atrás. Copenhague aprovou a cobrança de taxa turística, mas o governo federal dinamarquês vetou. 

O governo brasileiro celebrou o recorde de turistas estrangeiros em 2025, assim como uma série de países e cidades, porque é assim que se mede o sucesso no setor. Enquanto a Organização Mundial do Turismo seguir privilegiando essa métrica, os problemas continuarão, conforme explicou Rachel Dodds, professora de gestão em turismo na Universidade Metropolitana de Toronto (Canadá), em entrevista ao New York Times. 

Tasso e Aldrigui concordam. Para Tasso, o desenvolvimento do turismo precisa passar por uma distribuição equitativa de recursos, geração de mais empregos de maior valor agregado e respeito aos limites dos ecossistemas e das comunidades locais em absorver o fluxo de visitantes. “O propósito do turismo deve estar atrelado, antes de qualquer coisa, ao desenvolvimento humano e sustentável”, diz. 

Aldrigui alerta que apenas almejar mais e mais turistas e competir por recordes sem compreender o efeito desse volume de gente, de deslocamentos, de consumo, de lixo, não é uma gestão responsável. Há vários exemplos de boas práticas mundo afora – e não apenas nos países mais ricos e mais atingidos pelo turismo excessivo.

“Quênia, Tanzânia e Ruanda focam a promoção internacional em um tipo de turista de longa permanência e maior volume de gastos”, exemplifica Aldrigui. Isso permite uma maior estruturação dos destinos para que eles possam receber mais turistas sem prejuízo às paisagens e à fauna nativa. A métrica sustentável do turismo, para ela, deve ser o sucesso socioeconômico da população local.

O turismo é um fenômeno complexo, que envolve dimensões econômicas, sociais, culturais e ambientais. Por isso, especialistas defendem uma visão que supere a abordagem tradicional que o trata somente como motor de crescimento econômico. No Brasil, as políticas públicas, em geral, sempre priorizaram aumentar o número de visitantes, elevar as receitas e ampliar a oferta de empregos. Só que esse modelo ignora problemas estruturais e impactos negativos nas comunidades regionais, de acordo com Tasso.

O país com mais pirâmides do mundo não é o Egito


Expandir o setor sem fiscalizar as condições de trabalho pode estimular empregos precários e situações análogas à escravidão. Incentivar o aumento dos gastos dos visitantes não garante distribuição equilibrada da renda. O crescimento do fluxo em regiões sem infraestrutura adequada ou sem políticas eficientes de preservação ambiental evidencia os problemas em destinos já saturados, que enfrentam impactos culturais, econômicos e ambientais cada vez mais visíveis.

 Isso não se limita às cidades litorâneas que ficam intransitáveis em janeiro. Vale para a Ilha do Combu, oásis amazônico ameaçado pelo turismo predatório no Pará, ou para os projetos de condomínios de luxo que querem transformar os Lençóis Maranhenses, um patrimônio da humanidade, em jardim de rico.

Muito disso acontece pelo nosso natural comportamento de manada: alguns poucos lugares recebem hiper- exposição, são concorridíssimos e estão na lista de desejo de “todo mundo”. Pensando nisso, a cidade de Bruges não investe mais em publicidade, a fim de conter as excursões a seus cenários de contos de fadas no interior da Bélgica. 

Mas é difícil, para não dizer injusto, proibir alguém de ir a Paris, se a pessoa quer e pode. Por isso, os especialistas defendem também uma maior divulgação de lugares alternativos, que recebem pouco incentivo. Em 2013, Civita di Bagnoregio, uma vila praticamente abandonada e falida, a 120 quilômetros de Roma, decidiu cobrar ingresso para quem quisesse conhecer a cidade-fantasma, vendida como “um castelo no céu”. Ela saiu do total abandono para uma média de 3 mil visitantes por dia.

Para Tasso, o Brasil está em um momento em que deve olhar com mais atenção o setor. A diversidade natural e cultural do País indica potencial para receber mais do que 9 milhões de estrangeiros por ano, mas, se não houver investimentos nas áreas mais sensíveis, em harmonia com a preservação dos recursos naturais e o fortalecimento das comunidades locais, os problemas vão chegar em pacotes cada vez maiores – seja de avião, de navio ou de carro.

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Sou Augusto de Paula Júlio, idealizador do Tenis Portal, Tech Next Portal e do Curiosidades Online, tenista nas horas vagas, escritor amador e empreendedor digital. Mais informações em: https://www.augustojulio.com.