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Curiosidades

A descoberta científica que pode explicar a acupuntura. Ou não.

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Em 2015, dois médicos do hospital Mount Sinai Beth Israel, em Nova York, faziam uma endoscopia em um paciente com câncer quando se depararam com uma estrutura anatômica que nunca tinham visto antes. 

Os médicos usavam uma técnica inovadora chamada endomicroscopia confocal a laser. Ela permite visualizar os tecidos em nível celular em tempo real, sem precisar coletar amostras e levar para análise num microscópio convencional.

A dupla tentava ver se as células cancerosas tinham se espalhado ao redor dos ductos biliares, perto do fígado. No meio do caminho, encontraram uma série de cavidades minúsculas e interconectadas (como uma malha) na submucosa do paciente – onde imaginariam ver apenas um tecido conjuntivo denso.

Intrigados, eles recorreram ao patologista Neil Theise, professor da Universidade de Nova York, para explicar essa estrutura porosa. Quando Theise analisou amostras do mesmo tecido em um microscópio convencional, porém, as cavidades em padrão de “grade” tinham sumido. Por quê?

Os estudos do grupo culminaram num artigo de 2018 que descreveu detalhes inéditos de uma estrutura do corpo humano: o interstício. Trata-se de uma rede formada pela proteína colágeno disposta em grade em vários tecidos conjuntivos do nosso corpo – como a fáscia, responsável por sustentar, revestir e proteger os órgãos ao redor, ou em submucosas. Dentro desses compartimentos de colágeno, há uma espécie de gel formado por ácido hialurônico e água. 

Em 2021, os mesmos pesquisadores descobriram que o interstício funciona como uma grande rede interligada pelo corpo humano, e que fluidos são transportados através dele, levando consigo células, moléculas e outros elementos. Dessa forma, essa estrutura conecta partes antes consideradas isoladas pela medicina. 

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Isso pode ter consequências práticas instigantes. Por exemplo: a constatação de que o interstício funciona como um tipo de “sistema circulatório”, como foi proposto, pode explicar por que alguns cânceres se espalham tão rapidamente.

Mas o interstício viralizou nos últimos anos por outros motivos.

Para muitos entusiastas da acupuntura, uma forma de medicina alternativa bastante popular, essa estrutura poderia confirmar a sabedoria ancestral dos chineses e explicar como as agulhas podem trazer benefícios à saúde. Um artigo de maio deste ano na New York Times Magazine reacendeu esse debate, chamando o interstício de “a descoberta que pode ligar as medicinas oriental e ocidental”. Será mesmo?

<span class=”hidden”>–</span>Wellcome Collection/Wikimedia Commons/Getty Images/Montagem sobre reprodução

A descoberta

O termo “espaço intersticial” não é novo. Ele é usado há décadas pela medicina para descrever o espaço entre células, geralmente preenchido por um fluido, e há muito tempo se sabe que ele pode ter impactos na saúde, como no processo de edema (inchaço).

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O que a equipe de Nova York propôs foi ampliar esse conceito: o reconhecimento de que há espaços intersticiais maiores em vários tecidos conjuntivos do corpo, formando uma estrutura independente e complexa. O interstício, segundo o estudo, é formado por uma treliça irregular de colágeno e elastina, onde as cavidades são repletas de líquido, com o fluido se locomovendo entre as fibras [veja a ilustração abaixo].

Eles foram capazes de ver essa estrutura ao vivo, durante a endoscopia, mas ela sumia nas amostras coletadas – a visão era de algo denso, sem os bolsões de líquido. A equipe, então, criou uma hipótese. O processamento dos tecidos, que envolve cortá-los bem fininho e utilizar formol antes de colocá-los sob as lentes do microscópio, drena o fluido, fazendo com que as paredes de colágeno colem umas nas outras e dando a impressão de um tecido contínuo e sem cavidades.

Dito e feito: quando a equipe congelava as amostras logo após a biópsia, a estrutura permanecia visível, repleta de água.

Ilustração científica detalhada do interstício, mostrando a mucosa na parte superior, feixes de colágeno entrelaçados e o espaço intersticial preenchido por fluido. O título Novos caminhos e o texto explicam que o interstício é uma treliça de colágeno com líquido circulante, antes considerado apenas tecido conjuntivo denso.
<span class=”hidden”>–</span>Wellcome Collection/Wikimedia Commons/Getty Images/Montagem sobre reprodução

Os autores identificaram o interstício em diversos locais do corpo – abaixo da pele, ao redor do trato digestório e dos pulmões, no sistema urinário e em vários tecidos conjuntivos que envolvem órgãos e dão sustentação ao corpo. Na maioria desses casos, os livros de anatomia representavam esses locais como tecidos compactos e sólidos, formados apenas de colágeno.

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Em 2021, outro estudo feito pela mesma equipe analisou a pele de pessoas tatuadas e descobriu que resquícios microscópicos da tinta haviam alcançado a fáscia, o tecido logo abaixo. A surpresa é que, como não há uma conexão clara entre esses dois lugares, não deveria haver um caminho para a tinta. O mesmo aconteceu com partículas de prata aplicadas nas amostras de pele – ela chegava aos tecidos conjuntivos que envolvem nervos e vasos sanguíneos

A conclusão foi de que essas partículas viajaram pelo interstício, fluindo pelo acúmulo de líquido entre os compartimentos de colágeno. Segundo os autores, essa estrutura funciona como uma grande rede interconectada (em vez de várias estruturas intersticiais independentes em cada órgão, como pensavam antes), capaz de transportar moléculas e fluidos pelo corpo. Por isso, foi apelidada pela mídia de “terceiro sistema circulatório”.

O nosso corpo tem dois sistemas circulatórios principais. O cardiovascular, composto pelo coração, veias e artérias, leva o sangue contendo oxigênio e nutrientes para todo o corpo. Já o linfático drena o excesso de líquido dos tecidos e o transporta de volta para os vasos sanguíneos.

Dado que fluidos também podem se locomover pelo interstício, alguns o consideram também um sistema circulatório. Isso não é consenso, porém, porque é um ponto que precisa ser mais estudado: não se sabe de fato qual a intensidade e o impacto dessa aparente circulação.

Uma hipótese interessante é que o interstício ajude a explicar como alguns cânceres se espalham. Há casos em que melanomas e tumores gastrointestinais chegam aos linfonodos, componentes do sistema linfático, de forma rápida e usando caminhos não muito bem compreendidos. É possível que a rede de colágeno repleta de líquido funcione como uma “via expressa” para as células tumorais, facilitando a metástase para o sistema linfático.

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Dito isso, muitos estudos ainda precisam ser feitos sobre essa estrutura para verificar quão relevante ela realmente é. 

Quando o artigo de 2018 foi publicado, o assunto bombou na mídia, que chamou o interstício de um “órgão” novo e que estaria revolucionando a anatomia humana. Mas isso foi mais uma jogada de marketing: ele não é um órgão (esse termo nem sequer é usado nos artigos). E, apesar de as evidências subsequentes demonstrarem a circulação de partículas através dele, o vaivém parece ser bem mais tímido e limitado do que o transporte de líquidos que ocorre nos sistemas cardiovascular e linfático.

Parte da grande repercussão é culpa dos círculos de entusiastas da medicina alternativa. Segundo algumas interpretações, o interstício poderia ser a peça que faltava para explicar a acupuntura.

Colagem com ilustrações anatômicas em laranja e amarelo, sobrepostas por formas geométricas pretas e roxas, e uma máquina de tatuagem no canto inferior direito.
<span class=”hidden”>–</span>Wellcome Collection/Wikimedia Commons/Getty Images/Montagem sobre reprodução

Bala na agulha

Com raízes na China antiga, a acupuntura introduz agulhas em pontos específicos do corpo para tratar doenças. No Brasil, é reconhecida como uma das 55 especialidades médicas pelo CFM e oferecida pelo SUS.

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A ideia se baseia no conceito de qi (ou chi), uma espécie de energia invisível que corre pelo corpo em canais chamados meridianos. As agulhas redirecionariam ou desbloqueariam o fluxo dessa força vital, resultando em benefícios.

Há alegações de que a prática pode ser eficaz para vários problemas, como artrite, asma, alergias, enxaquecas, depressão, disfunção sexual etc. Mas ela é mais utilizada contra a dor, especialmente do tipo crônica e sem causa definida – uma condição complexa de ser tratada.

A existência do qi e dos meridianos nunca foi comprovada. Defensores da acupuntura desenvolveram diversas hipóteses para explicar seu funcionamento de forma científica, como a liberação de opioides endógenos (produzidos pelo próprio corpo) e a interação com ramificações nervosas, mas nenhum mecanismo de ação específico foi atestado definitivamente.

Não à toa, defensores da modalidade abraçaram com entusiasmo a proposição do interstício. Parecia uma explicação perfeita: uma rede de circulação de líquidos antes ignorada por cientistas ocidentais, mas que era conhecida pela medicina tradicional chinesa sob o nome “meridianos”. A interação desse “terceiro sistema circulatório” com as agulhas poderia explicar o funcionamento da acupuntura.

Essa é, no mínimo, uma conclusão apressada. Os estudos feitos sobre o interstício são de análise e observação da estrutura, e não envolveram acupuntura de modo algum. 

Ainda não se sabe exatamente como os líquidos se espalham pelo interstício, se agulhas (ou qualquer outra coisa) conseguem interferir nesse processo, nem se essa estrutura se alinha aos meridianos propostos pela tradição (o que é improvável, já que o interstício parece ser uma rede difusa nos tecidos conjuntivos, enquanto os meridianos são retratados como caminhos específicos, mais semelhantes a veias e artérias).

Mesmo assim, isso não impediu que o “terceiro sistema circulatório” virasse uma celebridade entre os entusiastas. Ainda que não tenham escrito isso nos artigos, os próprios pesquisadores propagam essa ideia em entrevistas à mídia, inclusive o líder da equipe Neil Theise (que é adepto de longa data da acupuntura).

Em suma: inferir que o interstício “explica” a acupuntura é um salto e tanto, já que nenhum estudo do tipo foi feito. Entretanto, o problema é ainda anterior, pois não sabemos com certeza o quanto a acupuntura de fato funciona.

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Só uma picadinha

O melhor jeito de verificar a eficácia de uma intervenção de saúde são os chamados ensaios clínicos controlados. Nesse tipo de pesquisa, voluntários são divididos em dois grupos: um recebe o tratamento; o outro, um placebo. O ideal é que o estudo seja randomizado (participantes divididos aleatoriamente) e duplo-cego – ou seja, nem os pacientes nem os cientistas sabem quem recebeu o quê, a fim de evitar vieses. 

Essa informação só é revelada aos pesquisadores após os testes. Esse tipo de estudo consegue separar o que é de fato eficácia do que é somente efeito placebo. Afinal, sabe-se que apenas a ideia de receber algum tipo de tratamento pode levar a uma melhora real. 

Diversos artigos já mostraram que pacientes que passam por acupuntura relataram menos dor, mas quanto disso é cortesia das agulhas e quanto é placebo?

Há uma grande dificuldade em fazer um estudo do tipo para a técnica. Até dá para usar placebos. Agulhas retráteis, por exemplo, fazem pressão no corpo e simulam a picadinha – mas não penetram o suficiente para atingir os supostos meridianos (sem que o paciente perceba). 

Também daria para aplicar agulhas de verdade, mas colocadas em pontos aleatórios. Isso permite que o estudo seja “cego” pelo menos para os pacientes, ainda que não para os profissionais. Reduz o efeito placebo, mas não o elimina.

Milhares de estudos envolvendo acupuntura foram feitos nas últimas décadas. Contudo, os resultados não se alinham. Há relatos contraditórios, que dependem de vários fatores (número de pacientes, desenho do estudo, risco de vieses, rigor da revisão por pares etc.). 

Nesses casos, o melhor instrumento são as chamadas revisões sistemáticas. São artigos que reúnem, avaliam e interpretam os resultados de vários outros estudos, resultando na mais alta evidência científica possível.

As revisões mais robustas sobre o tema não mostram benefícios claros para condições como depressão, epilepsia, síndrome do ovário policístico e insônia. Mas todos concluem que há um alto grau de incerteza, e que estudos melhores e mais rigorosos precisam ser feitos.

As melhores evidências científicas apontam para uma redução modesta de dores, como enxaqueca e dor lombar. Mas mesmo assim é uma conclusão pouco assertiva – não há muitos estudos de alta qualidade.

Um artigo de 2022 que fez uma “revisão das revisões sistemáticas”, incluindo mais de 80 estudos do tipo, descreve que foram raras as “conclusões com certeza moderada ou alta de que a acupuntura é superior a outras terapias”.

“O campo da acupuntura avançaria melhor se recursos fossem direcionados para mais ensaios clínicos randomizados de alta qualidade”, dizem os autores.

No resumo mais otimista, a acupuntura é uma área que precisa de mais pesquisa. E isso é ainda mais verdade para o interstício. Apesar da repercussão midiática, ele foi assunto de poucos artigos nos últimos anos. Juntar esses dois temas é, por ora, forçar a barra. Mas esse “sistema circulatório” de fato pode revelar novos segredos sobre o corpo humano nos próximos anos. A ver.

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augustopjulio

Sou Augusto de Paula Júlio, idealizador do Tenis Portal, Tech Next Portal e do Curiosidades Online, tenista nas horas vagas, escritor amador e empreendedor digital. Mais informações em: https://www.augustojulio.com.