Novo medicamento “revolucionário” dobra sobrevida de pacientes com câncer de pâncreas
Um novo medicamento se mostrou capaz de fazer algo que parecia impossível: combater o câncer de pâncreas, o mais letal e o mais difícil de tratar entre todos os tipos de câncer.
Embora não seja uma cura definitiva, o remédio consegue retardar a progressão da doença e dobrar a sobrevida dos pacientes com casos graves de 7 meses para 13 meses, segundo um novo estudo. O tratamento, considerado “revolucionário” por cientistas, tem potencial de se tornar o padrão nos próximos anos.
O anúncio da eficácia da droga experimental foi feito durante um encontro da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco), com milhares de médicos presentes. A notícia foi aplaudida de pé pela plateia – alguns oncologistas chegaram a chorar.
O medicamento em questão é o daraxonrasib, da farmacêutica americana Revolution Medicines. Ele atua bloqueando uma proteína que induz as células a se multiplicarem descontroladamente, gerando tumores agressivos e de difícil tratamento.
O novo estudo, publicado no periódico The New England Journal of Medicine, contou com a participação de 500 pacientes com adenocarcinoma ductal pancreático, o tipo de câncer de pâncreas mais comum, responsável por mais de 90% dos casos. Todos os voluntários tinham câncer com metástase, um estágio avançado da doença, quando o tumor começa a se espalhar pelo corpo; todos também já haviam passado por quimioterapia, o atual padrão para esses casos.
Metade dos pacientes continuou a ser tratada com quimioterapia. A outra metade recebeu o daraxonrasib na forma de comprimidos orais diários. Essa foi a fase 3 do ensaio clínico, a última e mais importante; antes, o medicamento já tinha se mostrado seguro e promissor em outras duas etapas de estudo.
Os resultados mostraram que quem recebeu apenas a quimioterapia teve uma sobrevida média de 6,7 meses. Já os pacientes tratados com o daraxonrasib apresentaram uma sobrevida de 13,2 meses – quase o dobro. Também houve melhora na qualidade de vida e redução da dor.
Ou seja: a pílula está longe de ser uma cura, mas, após décadas de pesquisas, essa é a primeira estratégia que combate o tumor mais letal e agressivo de todos.
Atualmente, só 3% dos pacientes com câncer de pâncreas metastático vivem mais de 5 anos após o diagnóstico. Quimioterapia e outras intervenções podem ajudar, mas com resultados limitados. Após a divulgação do estudo, espera-se que o daraxonrasib seja incluído no combate à doença.
Doença “intratável”
O câncer de pâncreas é considerado o mais letal de todos por dois motivos principais. O primeiro é que ele costuma ser silencioso: quando os primeiros sintomas aparecem e o diagnóstico é feito, ele pode já estar avançado.
O segundo motivo é que mais de 90% dos casos desse câncer envolvem uma mutação no gene KRAS, que codifica uma proteína de mesmo nome. Numa situação normal, as KRAS funcionam como um “interruptor celular”: ligadas, elas induzem as células a se dividirem. Na maior parte do tempo, porém, elas estão desligadas.
Uma mutação nesse gene, no entanto, pode fazer com que esse interruptor fique acionado permanentemente, resultando na multiplicação desenfreada de células e formando tumores.
Por décadas, cientistas tentaram criar fármacos que neutralizassem a ação da KRAS, sem sucesso. Por causa da estrutura única dessa proteína, nenhuma molécula conseguia se “encaixar” nela. Por isso, esse tipo de câncer de pâncreas ficou conhecido como “intratável”.
O daraxonrasib traz uma estratégia nova: ele não tenta se ligar diretamente à KRAS, como nas tentativas anteriores frustradas. Em vez disso, ele se liga primeiro a uma molécula chamada cyclophilin A, que está envolvida no processo de formação de proteínas. É a combinação do medicamento com essa molécula, por sua vez, que consegue neutralizar a ação da KRAS.
Futuro
O estudo também mostrou que o medicamento tem efeitos colaterais, como erupções cutâneas, diarreia e vômitos. No entanto, eles são menores e menos frequentes do que os registrados na quimioterapia. No estudo, apenas 1% dos pacientes do grupo do daraxonrasib abandonaram o tratamento por causa dos colaterais, contra 11% no grupo controle.
A droga experimental ainda não foi aprovada por nenhuma agência regulatória no mundo e nem está disponível para uso fora de ensaios clínicos, mas espera-se que a FDA (a Anvisa americana) analise os dados da farmacêutica nos próximos meses. Outros estudos ainda devem mostrar como a pílula age em diferentes pacientes e estágios do câncer de pâncreas.
O mais interessante é que o daraxonrasib pode abrir portas para uma nova era de medicamentos contra tumores. Vários cânceres, incluindo o de pulmão e o colorretal, podem ser causados por mutação no gene KRAS ou em genes parecidos. O novo estudo indica um caminho para avanços científicos também nessas áreas.
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