Fungo mortal que dizima rãs encontra barreira na conexão entre florestas e rios
é professor titular do Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (Unesp). O texto a seguir foi originalmente publicado no site The Conversation, que reúne artigos escritos por pesquisadores. Vale a visita.
Quando um fungo começou a exterminar rãs e sapos pelo mundo, os cientistas correram atrás de uma resposta à seguinte pergunta: o que torna alguns anfíbios mais resistentes que outros? A resposta não estava apenas nos genes. Uma parte importante da defesa mora na pele, mais especificamente nas bactérias benéficas que vivem ali.
Um novo estudo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences mostra que essas comunidades bacterianas não surgem por acaso. Elas dependem da conexão entre a floresta e a água. Quando essa conexão é rompida, a pele do anfíbio perde sua capacidade de recrutar micróbios que inibem o fungo Batrachochytrium dendrobatidis (Bd), que é um patógeno responsável pelo declínio de centenas de espécies no mundo.
O fenômeno tem nome: habitat split (que, em Português, poderia ser traduzido como desconexão de habitats). É a separação espacial entre o ambiente onde o animal se abriga e se alimenta (a mata) e o local onde ele se reproduz (riachos, poças ou lagoas). Muitas rãs precisam migrar de um para o outro. Se a distância aumenta demais, a travessia se torna um obstáculo mortal pelo esforço físico e também porque o animal perde o contato regular com o fungo Bd presente na água.
Memória imunológica
Esse contato frequente e em baixa carga com o Bd funciona como um “treinamento imunológico”. Estudos anteriores já haviam proposto o “princípio do microbioma adaptativo”: exposições repetidas e não letais a um patógeno selecionam, ao longo do tempo, comunidades de bactérias mais eficientes em bloqueá-lo. É uma espécie de memória imunológica, só que mediada por micróbios, não por anticorpos.
Nossa equipe de pesquisadores amostrou 586 rãs de quatro espécies na Mata Atlântica do estado de São Paulo. Os animais vieram de paisagens com diferentes graus de conexão entre florestas e corpos d’água.
O estudo usou um banco de dados chamado AmphiBac, que reúne mais de 7.800 isolados bacterianos testados em laboratório. Cada um deles foi desafiado contra o fungo. Assim, nós conseguimos estimar, a partir do sequenciamento genético da pele das rãs, qual fração da comunidade bacteriana era realmente capaz de inibir o Batrachochytrium dendrobatidis.
O resultado indicou que quanto maior o habitat split, menor a proporção dessas bactérias protetoras. O efeito foi detectado em quase todas as espécies estudadas, mesmo depois de controlar outros fatores, como cobertura florestal, densidade de bordas da mata e data da coleta.
É preciso reconectar florestas e rios
Mas nem todas as rãs sofreram igualmente. Duas espécies migratórias –Ischnocnema henselii e Rhinella ornata – apresentaram cargas mais altas do fungo justamente nas áreas mais fragmentadas. Já a Boana faber, uma rã maior e mais ágil que consegue usar bromélias-tanque como micro-habitat úmido dentro da própria floresta, mostrou-se menos afetada. As bromélias funcionam como um “amortecedor”: fornecem água sem que o animal precise sair da mata.
A diferença entre espécies revela que proteger fragmentos de floresta isolados não é suficiente. É preciso reconectar a mata aos rios. Corredores ecológicos, restauração de matas ciliares e a manutenção de pequenos alagados no interior dos fragmentos podem fazer mais diferença do que simplesmente aumentar a área total de floresta.
Há ainda uma camada mais profunda nessa descoberta. O habitat split não afeta apenas a composição das bactérias da pele. Ele altera a própria dinâmica de montagem dessas comunidades. Modelos estatísticos avançados usados no estudo mostraram que, para as espécies migratórias, o fator mais importante explicando quais bactérias estavam presentes era o tempo. Conforme a estação reprodutiva avançava, a diversidade bacteriana caía mais rapidamente em paisagens fragmentadas, como se o relógio biológico estivesse acelerado pela falta de contato com o ambiente aquático.
Isso significa que a paisagem não apenas fornece ou não os micróbios certos. Ela também regula o ritmo com que o animal os adquire. Em ambientes conectados, a rã encontra água e fungo o ano inteiro, inclusive na estação seca. O “treinamento” é contínuo. Em paisagens desconectadas, o contato é interrompido por meses. Quando o animal finalmente chega ao local de reprodução, sua pele já não carrega mais o esquadrão bacteriano completo, que é eficaz na proteção contra a doença.
Saúde animal e saúde da paisagem caminham juntas
O estudo, assinado por Daniel Medina e Guilherme Becker (Penn State University) por mim e outros pesquisadores, não deixa espaço para dúvidas: a saúde de um animal selvagem não pode ser separada da saúde da paisagem. O que acontece com a rã é um sinal. O mesmo processo pode estar ocorrendo com aves migratórias, peixes que sobem rios e até grandes mamíferos que dependem de áreas complementares para viver.
Os anfíbios são sentinelas. Eles nos avisam antes que o colapso se torne irreversível. Nosso estudo mostra que conservar não é apenas criar parques. É recoser os fios que a fragmentação cortou: entre a mata e o rio, entre o úmido e o seco, entre uma estação e a seguinte.
Conservar, portanto, exige enxergar a conectividade invisível – aquela que liga um micróbio a um anfíbio, um riacho a uma floresta, uma estação do ano à seguinte. Quando essa teia se rompe, a primeira coisa que se perde não é a árvore, nem a rã. É a memória ecológica que permitia a ambos resistir ao colapso.
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