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Curiosidades

O governo agora é obrigado a escrever bem. Por lei.

Em novembro do ano passado, o governo federal aprovou a Política Nacional de Linguagem Simples. Ela obriga os órgãos públicos a escreverem de maneira clara e concisa em formulários, contratos, portais de internet, apps e outros textos que o cidadão precisa entender para, por exemplo, marcar um exame no SUS, matricular uma criança na escola ou pagar a conta de luz.

A norma recomenda evitar termos estrangeiros que não sejam de uso corrente, começar os textos com a informação mais importante, sem enrolação, e usar a voz ativa sempre que possível (por exemplo: “Collor confiscou as poupanças” em vez de “as poupanças foram confiscadas por Collor”).

Outras orientações são escolher palavras comuns, de uso cotidiano, evitar jargão e juridiquês e redigir frases curtas, em ordem direta: prefira “as margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heróico” em vez do original “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas / De um povo heróico o brado retumbante”. 

Uma máquina pública que se expressa com clareza é um pré-requisito para uma democracia saudável. 29% da população brasileira acima de 15 anos é analfabeta funcional: (1) até sabe ler e escrever, mas não consegue, de fato, interpretar um texto. 

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Mundo afora, há esforços parecidos. Em junho de 2023, a Organização Internacional de Normalização (ISO) – aquela que emite a certificação ISO 9001 – publicou a primeira norma internacional de Linguagem Simples. A Colômbia aprovou sua legislação sobre o tema em 2014. Nos EUA, em que uma norma desse tipo vigora desde 2010, uma ONG chamada Centro para Linguagem Simples organiza um concurso anual de redação em repartições públicas.

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O assunto é mais antigo do que parece. No Reino Unido, os primeiros memorandos sobre o tema datam dos anos 1940. O Manual da Redação da Folha de S. Paulo dá essas mesmas instruções de clareza desde 1984. Um livrinho de 43 páginas chamado Elements of Style (“Os Elementos do Estilo”), escrito em 1918 por um professor de Letras da Universidade Cornell chamado William Strunk, já diz que “prosa rica e ornamentada é difícil de digerir, prejudicial e, às vezes, enjoativa”.  

Em 1975, a Marinha americana encomendou um teste de legibilidade ao psicólogo J. Peter Kincaid para garantir que os manuais de instruções do cotidiano – que incluem coisas delicadas, como mísseis (rs) – fossem, de fato, compreensíveis. O teste de Flesh-Kincaid (F–K) pontua os textos com uma fórmula que usa o número de palavras por frase e o número de sílabas por palavra. Palavras e frases curtas, por si só, não são garantia de que um texto será compreensível. Mas, apesar das limitações, o teste é útil até hoje. 

Por volta de 2.400 antes de Cristo, um vizir egípcio – o cargo mais alto da administração pública, abaixo só do faraó – escreveu instruções ao filho que assumiria seu cargo. No texto, conhecido como As Máximas de Ptaotepe, ele já avisa o rapaz que ele não deve perder a humildade só porque teve acesso à educação formal: “não seja orgulhoso porque és instruído”, e “converse com o ignorante como com o sábio”. 

Infelizmente, tudo que esses conselhos têm de velhos, eles têm de ignorados. Só nos EUA, falhas de comunicação custam US$ 1,2 trilhão por ano às empresas (2). Em um levantamento com 251 gestores, eles estimaram que suas equipes perdem, em média, 7,47 horas por semana – um expediente inteiro – por causa de falhas de comunicação.

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Um outro estudo, feito no Reino Unido, concluiu que o trabalhador médio torra cinco horas por semana esclarecendo o conteúdo de e-mails e mensagens (3). Uma enquete com 547 empresários revelou que 54% se incomodam com a quantidade de jargão em suas leituras cotidianas. 

 

O que torna esses dados preocupantes é que ninguém, no setor público ou no privado, escreve com o objetivo deliberado de não se fazer entender. Se quase todo mundo está tentando ser claro, por que existem textos ruins por toda a parte? Por que ainda existem CEOs escrevendo “planejamento de capacidade adiciona objetividade ao processo de tomada de decisão” em vez de “tenha consciência de quanto trabalho cada funcionário seu aguenta fazer por dia antes de distribuir as tarefas”?

A resposta tem duas camadas. A primeira é psicológica: o ser humano tem alguns vieses cognitivos – ou seja, bugs de percepção e raciocínio –, que nos tornam muito propensos a escrever mal. A segunda é social: como o vizir egípcio já sabia, falar “bonito” e rebuscado é uma forma comum da elite se diferenciar do povo, mesmo quando isso ocorre de forma inconsciente.

Começando pela parte psicológica da coisa. Em geral, as pessoas são péssimas em se imaginar no lugar dos outros. Por exemplo: em um experimento de 1999 (4), os pesquisadores perguntam a usuários de celular quanto tempo eles acham que uma alguém sem experiência prévia demoraria para aprender a usar o aparelho. Lembre-se, estamos na era dos tijolões Nokia, e ainda existia muita gente que nunca tinha usado um. O palpite médio foi de 18,5 minutos. Na prática, os iniciantes precisaram de 31,5 min. 

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A consequência disso é que não conseguimos imaginar como é, para outra pessoa, não saber alguma coisa que nós já sabemos. Os economistas chamam esse fenômeno de “maldição do conhecimento”. Já os psicólogos, às vezes, usam o termo “ilusão de transparência”. Tanto faz o nome. A questão é: quando um encanador fala em “niple duplo” ou “bucha de redução excêntrica”, realmente não ocorre a ele o quanto esses termos são específicos de seu ofício. Todo ser humano vive na ilusão de que suas frases são mais claras do que elas realmente são. (5) “O maior problema na comunicação é a ilusão de que ela aconteceu”, escreveu o Nobel de Literatura George Bernard Shaw.

Nem só de boas intenções, porém, nascem os textos ruins. Às vezes, eles são herméticos por escolha. Especialmente quando a política entra na discussão. Vide os versos serpenteantes do Hino Nacional, já citado acima. A letra é obra de Osório Duque-Estrada, um poeta parnasiano e bacharel de Direito da USP. Ele pertencia à elite que fundou a República – e era exatamente o tipo de brasileiro que, no começo do século 20, escrevia rebuscado de propósito. 

O elitismo de Osório fica óbvio em um texto que o autor do hino publicou em 1907, no jornal carioca Correio da Manhã (6). A coluna é um chilique contra um certo Medeiros e Albuquerque, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras (ABL). Medeiros queria uma reforma ortográfica para deixar o português escrito mais parecido com o que era falado na prática. Ele propunha, por exemplo, tirar o “ph” de pharmácia e o “th” de theatro, já que essas eram heranças gregas e latinas sem função prática, que atrapalhavam a alfabetização.

Osório se opôs: escreveu que “a corrente erudita há de reagir sempre contra o elemento popular e inconsciente e perturbador da pureza e das boas normas da linguagem”, e chamou Medeiros de “o mais infartado parasita da República”.

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O fantasma parnasiano voltou a assombrar o Brasil em pleno 2026 por conta de uma redação da Fuvest que repercutiu nas redes sociais no final de março. O candidato Luis Bessa – que concorria justamente a uma vaga em Direito na USP – abriu o texto com um bololô de palavras arcaicas incompreensíveis para qualquer cidadão nascido depois de 1900: “Perpassa em altivez, pela procela, a grandiloquência condoreira, em cuja máxima aforismática revela a tétrica languidez do sofrer recôndito…” Levou zero. 

O fato de que um jovem foi capaz de produzir essa atrocidade demonstra como o estilo de Osório e companhia permanece vivo – e sinônimo de sofisticação – no imaginário brasileiro. Muitos personagens contribuíram para o problema, do professor de português Jânio Quadros (que borrifou inseticida em uma cadeira dizendo “desinfeto porque nádegas indevidas se sentaram nela”) a Michel Temer, que abriu sua carta infame a Dilma Rousseff com um Verba volant, scripta manent (em latim, “as palavras voam, os escritos permanecem”). 

Diante de uma histórico desses, é uma boa não depositar muitas esperanças na Lei Nacional de Linguagem Simples. Ela é um texto, não um milagre. Reescrever todos os sites do governo brasileiro (o que seria só o primeiro passo de uma reforma estilística em Brasília) exigiria uma equipe de profissionais grande, caríssima e com paciência essencialmente infinita para dialogar com todos os burocratas. Porém, o simples fato de que essa norma existe é um passo na direção certa: com algumas décadas de paciência e políticas públicas que abordem o problema na prática, talvez seja possível espantar de vez o fantasma parnasiano. E tornar o Brasil mais democrático não só na prática, mas também no discurso. 

Bruno Vaiano é jornalista especializado em divulgação científica. Venceu 4 vezes o Prêmio IMPA de Jornalismo. Foi editor-chefe da Superinteressante.

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Fontes: (1) Indicador de Alfabetismo Funcional; (2) Grammarly e The Harris Pool (2024); (3) Atlassian (2026); (4) artigo “Underestimating the Duration of Future Events: Memory Incorrectly Used or Memory Bias”; (5) livro “Guia de Escrita”, de Steven Pinker.

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augustopjulio

Sou Augusto de Paula Júlio, idealizador do Tenis Portal, Tech Next Portal e do Curiosidades Online, tenista nas horas vagas, escritor amador e empreendedor digital. Mais informações em: https://www.augustojulio.com.