Esses macacos estão comendo terra para aliviar problemas causados pela comida de turistas
Os macacos que vivem no Rochedo de Gibraltar, no sul da Península Ibérica, estão comendo terra – de propósito.
Segundo um estudo recente da Universidade de Cambridge publicado na revista Scientific Reports, os primatas estão tentando aliviar os efeitos de uma dieta repleta de alimentos ultraprocessados oferecidos é claro, por turistas.
Gibraltar abriga a única população de macacos fora do cativeiro na Europa, com cerca de 230 indivíduos distribuídos em oito grupos. Esses animais, conhecidos como macacos-de-Gibraltar, atraem muitos visitantes curiosos.
O problema é que, apesar de ser proibido alimentá-los, vários turistas oferecem, ou deixam escapar, alimentos como chocolate, salgadinhos e sorvete. E os macacos, óbvio, aproveitam.
Quase 19% de tudo o que esses animais comem hoje vem desse tipo de comida. Em áreas com maior fluxo turístico, como o topo do rochedo, a exposição é ainda maior. Ali, os macacos têm mais que o dobro de probabilidade de consumir alimentos não saudáveis.
Com o tempo, essa mudança na dieta começou a ter consequências. Agora, cientistas observaram um novo hábito se espalhando nos grupos: a geofagia, ou seja, a ingestão intencional de solo.
Durante mais de 600 horas de observação, entre 2022 e 2024, os pesquisadores registraram 46 episódios desse comportamento em pelo menos 44 macacos diferentes. Em média, foram cerca de 12 eventos por semana – uma frequência considerada alta, comparável à de espécies como chimpanzés e lêmures, que também comem terra, mas por outros motivos (como para repor minerais faltantes ou combater parasitas).
O dado mais revelador veio da comparação entre grupos. Os macacos que vivem em áreas com muitos turistas foram responsáveis por mais de 70% dos casos de geofagia. Já um grupo que não tem contato com humanos simplesmente não apresentou esse comportamento.
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“Os alimentos trazidos pelos turistas e consumidos pelos macacos de Gibraltar são extremamente ricos em calorias, açúcar, sal e laticínios”, afirmou o pesquisador Sylvain Lemoine, da Universidade de Cambridge, em comunicado. “Isso é completamente diferente dos alimentos normalmente consumidos pela espécie, como ervas, folhas, sementes e, ocasionalmente, insetos.”
Esse tipo de dieta pode bagunçar o funcionamento do sistema digestivo dos primatas. Entre os problemas estão alterações na microbiota intestinal (o conjunto de bactérias que vivem no intestino e ajudam na digestão), além de irritações, náuseas e diarreia.
É aí que entra a terra. Segundo os cientistas, o solo ingerido funciona como uma espécie de “remédio natural”.
Ele pode fornecer minerais e bactérias benéficas que faltam nos alimentos processados. Também pode formar uma camada protetora no trato digestivo, reduzindo a absorção de substâncias prejudiciais e aliviando sintomas gastrointestinais.
E não é qualquer terra que os macacos comem. A maioria prefere um tipo específico de solo argiloso avermelhado, conhecido como “terra rossa”, que respondeu por mais de 80% dos casos observados.
Outros indivíduos, por sua vez, mostraram preferência por resíduos de solo misturado com piche retirado de buracos no asfalto.

Essas escolhas não parecem aleatórias. Os cientistas testaram isso oferecendo diferentes tipos de solo aos animais, e as preferências se mantiveram.
Isso sugere que o comportamento não é apenas instintivo, mas aprendido socialmente. Quase 90% dos episódios de geofagia ocorreram na presença de outros macacos, que frequentemente observavam o comportamento.
Em cerca de 30% dos casos, vários indivíduos comiam terra juntos, no mesmo local. “O surgimento desse comportamento em macacos é tanto funcional quanto cultural, como o quebrar de nozes em chimpanzés, só que é impulsionado inteiramente pela proximidade com humanos”, disse Lemoine.
A ideia de que animais podem se automedicar não é nova. A geofagia já foi observada em diversas espécies e até em humanos, especialmente em contextos de deficiência nutricional.
Mas, no caso dos macacos de Gibraltar, o comportamento não parece estar ligado à necessidade de nutrientes, como ocorre em algumas populações humanas durante a gravidez.
Os pesquisadores não encontraram aumento no consumo de terra entre fêmeas grávidas ou em lactação. Isso reforça a hipótese de que o hábito surgiu como resposta direta à dieta alterada.
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