Analine Machado leva ao Vale do Silício solução que acelera a análise do fitoplâncton
Quando se fala nos “pulmões do mundo”, muita gente pensa logo nas grandes florestas tropicais, como a Amazônia. Mas uma parte enorme do oxigênio que respiramos vem, na verdade, dos oceanos – mais especificamente, de organismos microscópicos que vivem na superfície da água.
São os fitoplânctons: microrganismos (em grande parte microalgas) que flutuam no mar e realizam fotossíntese, assim como as plantas. Nesse processo, eles capturam dióxido de carbono da atmosfera e liberam oxigênio. Além disso, formam a base da cadeia alimentar marinha, sustentando desde pequenos animais até grandes espécies, como peixes e baleias.
Mesmo sendo tão importantes, esses organismos costumam passar despercebidos. Parte disso tem a ver com o tamanho: cada célula mede apenas alguns micrômetros – muito menor que a espessura de um fio de cabelo – e só pode ser observada com microscópio.
Foi justamente olhando para eles que Analine Machado encontrou o tema que acabaria guiando sua carreira.
Quanto do fundo do oceano já vimos? Muito menos do que você imagina
A pesquisadora cresceu em Araucária, na região metropolitana de Curitiba, e diz que sempre teve uma curiosidade natural pelo oceano. “Eu sempre amei o mar. Nem consigo explicar exatamente por que, mas sempre fui muito curiosa em relação a como as coisas funcionam”, conta à Super.
Em 2017, ela entrou no curso de Oceanografia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), no campus de Pontal do Sul. A graduação mistura diferentes áreas da ciência, desde a física das ondas e correntes marinhas até a química da água e a biologia dos organismos que vivem no oceano.
Foi em 2019, quando passou a trabalhar em um laboratório de microbiologia da universidade, que teve o primeiro contato mais próximo com o fitoplâncton. Ali ela começou a atuar na taxonomia, área responsável por identificar e classificar espécies. O trabalho exige paciência: analisar amostras de água no microscópio e reconhecer, uma a uma, as microalgas presentes.
Essa identificação não serve apenas para catalogar, de forma protocolar, as espécies. Há uma função prática: o fitoplâncton também funciona como um bioindicador ambiental – ou seja, um sinal vivo das condições da água. Cada espécie tem preferências específicas de temperatura, luz, nutrientes e oxigênio.
Por isso, ao observar quais microalgas estão presentes (e em que quantidade), é possível inferir as condições daquele ambiente. Se aparecem espécies que só sobrevivem em águas poluídas, por exemplo, isso indica degradação. Já a presença de outras, mais sensíveis, pode sinalizar um ecossistema equilibrado.
O problema é que esse processo costuma ser lento. Como os organismos são minúsculos e existem milhares de espécies diferentes, a análise exige especialistas e pode levar dias. Foi dessa dificuldade que surgiu a ideia de um projeto que irá levar Analine até o Vale do Silício, na Califórnia (EUA).
Enquanto trabalhava em um laboratório no Espírito Santo, ela começou a imaginar uma forma de automatizar parte desse trabalho usando inteligência artificial. A proposta era transformar imagens captadas no microscópio em dados capazes de identificar as espécies presentes.
Ela chegou a começar alguns testes sozinha, mas logo percebeu que precisava de ajuda na parte de programação. Foi então que uma colega apresentou o engenheiro de software Caique Barbosa.
Analine já tinha a ideia estruturada; Caique entrou para desenvolver a parte técnica. “Eu mandei a ideia, o projeto e tudo o que eu já tinha pensado”, conta. “Ele super comprou a ideia.”
Assim nasceu o PhytoSense, um aplicativo que usa inteligência artificial e visão computacional para identificar fitoplâncton em imagens microscópicas. O sistema analisa padrões de forma das microalgas e sugere classificações automaticamente, acelerando um processo que depende quase exclusivamente de especialistas.
“Hoje, essas análises são demoradas e muito manuais”, diz Analine. “O objetivo do aplicativo é ajudar os taxonomistas e tornar essa identificação muito mais rápida.”
A ferramenta também pode ajudar no monitoramento ambiental. Algumas espécies de microalgas produzem toxinas e causam fenômenos conhecidos como florações nocivas, como a chamada maré vermelha.
“Se aparecem algas tóxicas, os peixes se alimentam delas e acabam intoxicados”, explica. “Isso pode afetar toda a cadeia alimentar e até pessoas que consomem esses animais.” Detectar essas florações com antecedência ajuda a reduzir impactos ambientais e sanitários.
O projeto já estava em desenvolvimento quando surgiu a oportunidade de participar do Red Bull Basement, uma competição internacional que premia ideias tecnológicas com potencial de impacto social. Caique ficou sabendo da iniciativa em uma palestra na universidade e sugeriu que os dois se inscrevessem.
Entre mais de 15 mil projetos inscritos no Brasil, o PhytoSense acabou sendo escolhido como o vencedor da final nacional. Agora, a dupla vai representar o país na etapa mundial da competição, no Vale do Silício.
“Eu nunca imaginei participar de algo tão grande assim”, diz. “Dá um pouco de medo, mas também muita vontade de mostrar o projeto para todo mundo.”
Enquanto o aplicativo continua sendo desenvolvido, Analine mantém os pés – ou melhor, os olhos – no oceano. Hoje, ela trabalha em uma consultoria ambiental que acompanha obras de engenharia costeira.
Parte da rotina acontece a bordo de navios que realizam dragagens para ampliar faixas de areia em praias. Durante essas operações, ela monitora a presença de baleias, golfinhos e tartarugas marinhas na região. Se algum desses animais aparece perto da embarcação, as atividades precisam parar até que estejam em segurança.
Mesmo nesse ambiente, a presença feminina ainda é rara. Em muitas ocasiões, Analine é a única mulher a bordo do navio onde trabalha. “Você precisa provar seu conhecimento o tempo todo”, diz. “É um desafio constante.”
Apesar disso, ela acredita que desistir nunca pode ser uma opção. Para meninas que sonham em seguir carreira na ciência, o conselho é: persistência e coragem. “Se você tem um objetivo, vai lá e faz.”
Nos momentos de descanso, Analine continua perto do mar. Gosta de caminhar na praia, nadar, ler e assistir séries. Mas depois de tantos anos estudando o oceano, até esses momentos de lazer acabam virando observação científica.
“Às vezes eu fico olhando o vento, a maré, as correntes”, conta. “A oceanografia muda a forma como a gente olha o mar.” A curiosidade que começou na infância continua guiando seu caminho. E, para ela, ainda há muito a descobrir. “Enquanto existirem dúvidas sobre o oceano”, diz, “eu vou estar ali tentando entender.”
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