Ana Paula Zapelini adaptou um cafeteira para detectar contaminantes no pescado
Desde pequena, Ana Paula Zapelini gostava de lidar com perguntas que ainda não tinham resposta. Nas feiras de ciência da escola em Florianópolis (SC), onde nasceu e cresceu, montava experimentos com a ansiedade de quem torce para que tudo funcione na hora da apresentação.
Mas o momento mais marcante vinha depois, quando precisava explicar aos outros algo que ela própria ainda estava tentando entender. “Havia algo fascinante naquele processo”, lembra, em entrevista à Super. “A ideia de que perguntas simples podiam se transformar em investigação.”
Na época, ela ainda não pensava em se tornar cientista. Quando chegou a hora de escolher uma graduação, buscava apenas uma área em que aquele tipo de curiosidade continuasse fazendo sentido.
Foi assim que encontrou a Ciência de Alimentos. A área estuda desde a composição química dos alimentos até sua produção, qualidade e segurança.
O primeiro contato com o laboratório aconteceu logo no início da graduação na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), quando começou a atuar como voluntária em um grupo de pesquisa.
“Lembro com clareza do meu primeiro dia em um laboratório de verdade”, conta Ana. “Não era um espaço sofisticado, mas, para mim, era como entrar em um território novo, cheio de possibilidades. Naquele início, sem que eu percebesse, aprendi algo fundamental: a ciência se constrói com paciência, erros e repetição.”
Outro elemento decisivo nesse período foi o encontro com o professor da UFSC Pedro Luiz Manique Barreto. Ele se tornaria seu orientador ao longo de praticamente toda a formação acadêmica. Durante cerca de dez anos, da graduação ao pós-doutorado, acompanhou de perto a trajetória da pesquisadora. “Ele estimulava algo essencial para quem faz ciência: aprender a fazer perguntas”, diz.
Solução improvável
Em 2019, um grande derramamento de petróleo atingiu o litoral brasileiro. O desastre ambiental rapidamente levantou a preocupação de uma possível contaminação de peixes e frutos do mar consumidos pela população.
O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) precisava investigar o problema mas, naquele momento, o Brasil não tinha métodos oficiais para detectar compostos orgânicos derivados diretamente do petróleo e seus produtos refinados, os chamados petrogênicos, nos alimentos.
Os procedimentos descritos em artigos científicos existiam, mas eram caros, demorados e exigiam equipamentos sofisticados. Em uma situação de emergência ambiental, isso representava um enorme obstáculo.
Foi nesse cenário que Ana Paula começou a desenvolver, ao lado de seu coorientador Rodrigo Hoff, uma solução improvável: adaptar uma máquina de café expresso para uso no laboratório.
Isso porque cafeteiras desse tipo funcionam usando alta pressão e temperatura para forçar água através do pó de café. Em laboratório, existe um princípio semelhante, usado para extrair substâncias químicas de uma amostra.
No experimento, pequenos pedaços de pescado eram colocados dentro de cápsulas de café. A máquina então realizava o processo de extração, permitindo retirar da amostra compostos potencialmente tóxicos presentes no petróleo. Depois, esses contaminantes eram analisados em equipamentos de laboratório.
Os primeiros testes mostraram que o método poderia funcionar. Com o tempo, ele foi refinado e validado de acordo com padrões adotados no Brasil e na União Europeia.
O resultado foi a criação do primeiro protocolo oficial do país para monitorar contaminantes petrogênicos em pescado. A partir daí, a equipe ainda desenvolveu uma técnica mais avançada e automatizada, que hoje é utilizada em laboratórios do próprio Mapa.
Para ela, trabalhar nesse projeto deixou claro o alcance social da pesquisa científica: “quando estudamos contaminantes em alimentos, não estamos lidando apenas com moléculas ou métodos analíticos. Estamos trabalhando com algo que chega diretamente à mesa da população. Desde um pescador em uma comunidade do Nordeste que depende do mar para sustentar sua família, até milhares de consumidores em todo o país que precisam ter segurança ao consumir pescado.”
A pesquisa acabou se transformando também em uma tese premiada. Ana recebeu o Grande Prêmio CAPES de Tese na área de Ciência de Alimentos, tornando-se a primeira pesquisadora desse campo a conquistar o reconhecimento máximo da premiação.
O trabalho também recebeu outros reconhecimentos importantes, como o programa 25 Mulheres na Ciência, da 3M, o destaque como pesquisadora na Brazil Conference at Harvard & MIT e o MIT Innovators Under 35.
Segundo ela, os prêmios são consequência de um esforço coletivo. “A ciência raramente é construída de forma individual”, afirma. “Cada prêmio também reflete o esforço de orientadores, colegas de laboratório e instituições que fizeram parte dessa trajetória.”
Nem tudo, porém, foi simples ao longo da carreira. “Nem sempre os experimentos funcionam como planejado. Muitos projetos levam anos até gerar resultados e, em vários momentos, também é preciso lidar com limitações de recursos.”
Ser mulher na ciência também faz parte desses desafios. “Em muitos espaços ainda somos minoria e muitas vezes precisamos provar continuamente nossa competência.”
No meio do doutorado, houve um período em que ela chegou a questionar se deveria continuar. “A pesquisa pode ser um caminho exigente e cheio de incertezas”, diz. “Isso muitas vezes nos faz questionar se estamos no caminho certo.”
O que a fez seguir adiante foi o apoio de pessoas próximas. “Tive a sorte de contar com mentores, amigos e familiares que acreditaram no meu trabalho quando eu mesma tinha dúvidas.”
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