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Curiosidades

O que são as terras raras – e qual o papel do Brasil na corrida por elas

“Já está avisado ao mundo: o Brasil não vai fazer das terras raras aquilo que foi feito com o minério de ferro”, disse Lula em um discurso no começo de março que rodou o mundo. Não à toa: o País é um dos protagonistas da corrida por esse grupo de recursos minerais. Eles são essenciais para várias indústrias, mas seu refino é complexo e caro.

A China detém as maiores reservas desses minerais, com 48% do total, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos, e controla quase todo o mercado de purificação. O Brasil vem logo atrás, com cerca de um quinto das reservas mundiais. Ao mesmo tempo, nossa produção é quase nula; só uma empresa no País atua no ramo.

A exploração das terras raras vem sendo citada como uma oportunidade para o Brasil prosperar. Mas não se trata bem de uma fonte inesgotável de riquezas. E mais: só extrair a commodity (como fazemos com o minério de ferro) não basta. Vamos entender o motivo.

O que são terras raras?

O nome não poderia ser pior: não são terras, nem exatamente raras.

Trata-se de um grupo de 17 elementos químicos com nomes difíceis: praseodímio, neodímio, térbio, disprósio e lantânio são alguns dos mais importantes [veja todos no quadro abaixo]. Quinze deles pertencem à família dos lantanídeos, que ficam na primeira daquelas duas linhas separadas na parte inferior da tabela periódica. Os outros dois são o escândio e o ítrio, incluídos por terem propriedades parecidas e, geralmente, serem encontrados nas mesmas formações rochosas.

<span class=”hidden”>–</span>Cristielle Luise/Superinteressante

A imprecisão do apelido vem da sua origem: eles foram descobertos na Suécia no século 18, em um mineral chamado gadolinita. Como havia pouca concentração dos elementos, acreditava-se que eram escassos. Na época, “terras” era um termo genérico para qualquer óxido (combinação de metais com oxigênio).

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Muitos deles não são difíceis de encontrar: o cério, por exemplo, é o 25º elemento mais comum da crosta terrestre (dos 118 da tabela periódica), na frente até do cobre. Mesmo assim, o nome pegou; hoje, são chamados de “elementos de terras raras”, ou ETRs.

Por muito tempo, esse grupo passou despercebido – havia pouca utilidade na indústria. Na segunda metade do século 20, porém, começou-se a descobrir que eles têm propriedades químicas e físicas especiais, como magnetismo intenso e permanente, capacidade de absorver e emitir luz e resistência a altas temperaturas.

Os elementos de terras raras passaram a ter aplicações diversas: em catalisadores da indústria petroquímica (para acelerar reações), fibras óticas, computadores e smartphones e até na medicina (como contraste para exames de ressonância magnética, por exemplo).

A principal aplicação, porém, é para a fabricação de superímãs, geralmente feitos com neodímio (um ETR) misturado ao ferro e ao boro. O produto final são os ímãs mais fortes já fabricados, resistentes à desmagnetização.

É um produto muito valioso para a transição energética, pois é usado em turbinas eólicas e carros elétricos, entre outros produtos. Nos motores da BYD e cia., a corrente elétrica da bateria gera um campo magnético que, por sua vez, interage com o campo dos ímãs à base de ETRs. É essa interação que promove a rotação do rotor e faz as rodas se moverem.

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Os ETRs também vão na fabricação dos moto res de caças militares e de drones. Com o mundo tentando abandonar os combustíveis fósseis, e guerras se tornando cada vez mais comuns e tecnológicas, a demanda por esses elementos disparou.

Imagem, em close up, de pedras de bastnasita.
Pedras de bastnasita mineradas na Califórnia. Esses minerais são ricos em elementos de terras raras. No Brasil, a rocha mais comum para esse fim é a monazitaMP Materials/Reprodução

O caminho das pedras

Existe outro motivo para o adjetivo “raras”: apesar de relativamente abundantes, esses elementos sempre vêm misturados (uns com os outros e também com impurezas) e em baixas concentrações. A separação deles é o grande desafio da sua exploração.

Os ETRs são encontrados em dois tipos de minerais. O primeiro são rochas sólidas ou areias, como a monazita (comum no Brasil) e a bastnasita (comum na China). Mas removê-los dessa matéria bruta é difícil, já que há muitos elementos misturados ali.

É comum, por exemplo, achar elementos radioativos, como tório e urânio, junto com as terras raras. Isso deixa a empreitada ainda mais complicada – é preciso adotar uma série de protocolos de segurança especiais, e, no Brasil, a exploração de materiais radioativos é, com pouca flexibilização, um monopólio da União.

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Por causa disso, o foco mais recente da explora ção de terras raras tem si do num segundo tipo de minério: as argilas iônicas. Elas têm uma concentração baixa dos elementos: para cada 1 tonelada minerada, consegue-se extrair cerca de 1 kg dos ETRs. Em compensação, os metais estão adsorvidos (reunidos na superfície das argilas). Para removê-los, basta um processo relativamente simples de lixiviação (espécie de “lavagem” usando um líquido), bem mais barato do que o utilizado no caso das rochas.

Depois, é preciso remover algumas impurezas [veja mais detalhes no quadro abaixo]. O resultado é uma solução líquida concentrada de vários elementos de terras raras juntos.

Aí vem a parte mais difícil: isolar o disprósio, o neodímio e os demais metais raros. Os ETRs são muito parecidos entre si e compartilham das mesmas características; dificilmente algo reagirá só com um e não com o outro.

Uma separação clássica das terras raras envolve dezenas de etapas, uso de diversos solventes, em caldeirões imensos, e gera muitos rejeitos ao longo do caminho, alguns tóxicos. A exploração de ETRs é poluente (e há também os danos da própria mineração: degradação da vegetação, erosão do solo, perda de biodiversidade local etc.).

Feita a separação, têm-se os pozinhos de cada um dos elementos, no formato de óxidos. São esses os ingredientes tão cobiçados pelas indústrias.

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Tabela, em fundo preto, com o passo a passo para transformar minerais conhecidos como terras raras em imã.
<span class=”hidden”>–</span>Cristielle Luise/Superinteressante

Apenas a China possui a infraestrutura já pronta para realizar a separação dos ETRs em escala industrial. O país concentra mais de 90% do refino desses metais. Mesmo que muitos países ricos, como EUA, Austrália e Canadá, explorem as terras raras, é mais fácil e barato enviá-las para a Ásia para separá-las e, depois, comprar os óxidos.

É verdade que há o fator sorte: a China tem as maiores reservas do mundo. Mas não é isso que faz dela a líder no segmento. Pequim construiu essa cadeia de produção ao longo de mais de cinco décadas, investindo pesado não só em mineração mas também em pesquisa científica para otimizar processos. Hoje, o país também se tornou craque em fabricar os produtos à base de terras raras, em especial os superímãs, os quais são vendidos para o mundo todo. É o que, em economês, se chama de “cadeia verticalizada”: da matéria prima até o item final.

Isso tudo gera um cenário geopolítico instável: o Partido Comunista controla quase todo um mercado cada vez mais relevante. E, se as guerras comerciais com o Ocidente remontam a pelo menos o governo Obama, a coisa só piorou com a escalada tarifária e nacionalista de Trump nos últimos meses. Em 2025, a China retaliou, limitando as exportações das terras raras purificadas e dos ímãs permanentes. Resultado: o preço subiu no mercado internacional.

Isso fez o mundo todo, em especial os EUA, procurar por alternativas no longo prazo. O Tio Sam detém apenas 2% das reservas, que se concentram na região oeste, e até produz uma quantidade considerável de terras raras – 45 mil toneladas, quase 20% da produção chinesa –, mas que não supre a demanda interna. Nos últimos meses, o governo Trump já expressou interesse nas reservas de países como Ucrânia, África do Sul e Groenlândia. Mas nenhum desses tem a chance de brilhar mais que o Brasil.

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Mapa, em fundo preto, com a lista de países com a maior quantidade dos metais conhecidos como terras raras.
<span class=”hidden”>–</span>Cristielle Luise/Superinteressante

Leite derramado

Acredite se quiser: nós já fomos o maior produtor de terras raras do mundo. Na década de 1940, o químico Pawel Krumholz, de origem polonesa, desenvolveu métodos para separar as terras raras que eram mineradas por aqui. Ele fundou a empresa Orquima, em São Paulo, especializada em purificar os metais a partir da monazita.

Na época, o mercado internacional ainda era pequeno, mas a pequena companhia do bairro de Santo Amaro se destacou, produzindo e exportando centenas de quilos de óxidos de terras raras, já separados.

Na década de 1950, porém, o interesse do governo brasileiro em elementos radioativos aumentou – e a monazita, vale lembrar, contém tório e urânio. Por causa do componente nuclear, a Orquima foi nacionalizada, mas poucos avanços foram feitos pela nova direção em relação às terras raras.

Ao mesmo tempo, a produção de ETRs começava a deslanchar na Califórnia e a engatinhar na China – sendo que o país asiático tinha a vantagem de ser o primeiro a explorar as argilas iônicas, um processo mais simples e barato. O governo brasileiro decidiu que não valia a pena tentar competir e encerrou a indústria. Toda a infraestrutura e o conhecimento da Orquima e de seus cientistas se perdeu.

Ironicamente, o declínio brasileiro ocorreu justamente quando a demanda pelos metais começou a aumentar: a partir da década de 1960, os ETRs passaram a ser utilizados nas televisões a cores, uma sensação da época.

Imagem, em close up, do óxido de neodímio e praseodímio.
Este pó é um óxido de neodímio e praseodímio, dois elementos de terras raras. É a partir dele que são produzidos os metais puros.MP Materials/Reprodução

Desde então, a mineração de terras raras no Brasil tem sido pífia. E houve pouco investimento em pesquisa, mesmo com cientistas em universidades com conhecimento aprofundado do tema. Isso só mudou na década de 2010, com o aumento da demanda por ímãs e outros itens tecnológicos.

Hoje, só há uma mineradora de terras raras no Brasil: a Serra Verde, que conta com capital dos EUA e do Reino Unido e explora argilas iônicas em Goiás. Ela começou sua produção em 2024.

“Olhando adiante, a Serra Verde pretende expandir sua produção para até 6,6 mil toneladas por ano de óxidos totais de terras raras até o final de 2027”, diz Ricardo Grossi, COO do grupo Serra Verde. Para comparação, a China produz, anualmente, 270 mil toneladas.

Há muita expectativa que a produção brasileira aumente nos próximos anos. Várias mineradoras estão em fase de preparação.

A grande aposta está na região de Poços de Caldas, no sul de Minas Gerais. Por lá, duas companhias listadas na bolsa de Sydney, a Viridis e a Meteoric, pretendem explorar os depósitos de argila nos próximos anos. O local é um vulcão extinto, e os projetos-pilotos já mostraram que a concentração dos ETRs por lá é especialmente alta.

Também há projetos em andamento em Goiás, na Bahia e no Amazonas, de mineradoras canadenses e (de novo) australianas. Eis os primeiros passos. Mas atenção: eles não são suficientes.

Tabela, em fundo preto, com a lista de aplicações dos minerais conhecidos como terras raras.
<span class=”hidden”>–</span>Cristielle Luise/Superinteressante

A oportunidade

Pesquisadores ouvidos pela reportagem, bem como outros especialistas, alertam que o Brasil pode cair numa armadilha clássica, que já capturou o País muitas vezes ao longo da História: tornar-se um mero exportador de matéria-prima sem valor agregado, para depois ter que importar os produtos feitos a partir desse mesmo material.

Eis a explicação para a comparação feita por Lula. O Brasil exporta mais de 400 milhões de toneladas de minério de ferro por ano, a maior parte para a China. Somos o segundo nesse mercado, atrás apenas da Austrália, e a Vale é uma das maiores empresas do ramo no mundo. Lá fora, essa commodity se torna aço, bens de consumo, itens de construção e outros produtos de maior valor agregado, que muitas vezes são importados para cá.

“O Brasil tem geologia para entrar forte no mercado de ETRs, mas só vai capturar valor de verdade quando dominar o trecho mais difícil da cadeia: purificação, separação, metalurgia e manufatura avançada”, diz Ysrael Vera, chefe de Serviço de Metalurgia Extrativa do Centro de Tecnologia Mineral (Cetem), instituição de pesquisa vinculada ao governo federal.

Os projetos de exploração que citamos há pouco só dizem respeito à primeira e mais fácil etapa da saga das terras raras: retirá-las do chão e criar um concentrado com os elementos misturados.

Acontece que só vender vitamina de terras raras não é um negócio tão impactante assim, mesmo com o aumento da demanda recente. Isso porque, apesar de indispensáveis, as indústrias precisam de baixa quantidade desses metais para seus produtos finais. O mercado internacional de ETRs ainda movimenta relativamente pouco, menos de US$ 10 bilhões por ano.

O grande trunfo de explorar esses minérios está na oportunidade de incentivar a tecnologia, a ciência e a inovação em solo nacional. A China só se tornou a potência das terras raras porque, por décadas, manteve um planejamento de longo prazo para desenvolver uma indústria química de ponta.

“O grande problema é que estamos jogando tudo para as multinacionais. As empresas vêm, extraem e levam embora. Não fica nada de tecnologia para o país”, opina o químico Henrique Toma, da USP, que estuda o tema há décadas. “Ter terra rara e não separá-la não serve para nada. É a mesma coisa que ter petróleo e vender para fazer vela.”

Algumas mineradoras gringas que querem explorar as terras raras brasileiras já disseram que pretendem investir também na separação e na produção de ímãs por aqui. Mas, por enquanto, são apenas declarações genéricas.

Apesar de falas de Lula e outras medidas do governo – como assinar um acordo de cooperação com a Índia, ainda sem muitos detalhes concretos –, falta um planejamento claro e amplo, uma espécie de política de Estado para valorizar a segunda maior reserva de terras raras do mundo.

Mas há iniciativas que podem dar frutos a depender do investimento. A principal delas é o CIT Senai ITR, o primeiro laboratório para pesquisar e fabricar ímãs à base de neodímio da América do Sul. Localizado em Lagoa Santa (MG), o local iniciou suas atividades em 2024 e deverá estudar estratégias para que se crie uma cadeia produtiva nacional desses superímãs, incluindo todas as etapas do processamento de ETRs.

O objetivo não é produzir ímãs em escala industrial, mas sim estudar processos e modelos que possam ser escalonados. Depois, pretendem fazer a transferência de tecnologia para empresas interessadas em levar o negócio adiante.

Imagem de lascas de uma liga magnética formada por neodímio, ferro e boro.
Lascas de uma liga magnética formada por neodímio, ferro e boro, a combinação mais clássica para a fabricação dos superímãs.MP Materials/Reprodução

O CIT Senai ITR é o principal centro de um projeto maior, o MagBras, coordenado pelo governo federal. A iniciativa reúne 38 empresas, startups, centros de inovação, universidades, instituições de pesquisa e fundações de apoio. É, até agora, o maior investimento científico em terras raras do País: R$ 73 milhões.

Além de estudar etapas da produção de superímãs, o projeto também explora outros caminhos, como a reciclagem de produtos que contêm os ETRs.

A iniciativa é mais uma prova de que o Brasil pode, sim, brilhar nesse mercado – como, aliás, já fez. Não faltam cientistas competentes. “Falta uma política de sustentabilidade, de desenvolvimento, de formação de recursos humanos e de valorização da pesquisa”, diz o professor Toma, da USP. Uma história que o Brasil já viu mais de uma vez.

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augustopjulio

Sou Augusto de Paula Júlio, idealizador do Tenis Portal, Tech Next Portal e do Curiosidades Online, tenista nas horas vagas, escritor amador e empreendedor digital. Mais informações em: https://www.augustojulio.com.