Página perdida de manuscrito milenar de Arquimedes é redescoberta na França
Uma página que se acreditava perdida de um dos manuscritos mais importantes da Antiguidade reapareceu de forma inesperada em um museu no interior da França. O achado reacende o interesse por um documento que, há mais de mil anos, preserva parte do legado de Arquimedes, um dos maiores matemáticos da história.
A folha foi identificada no Museu de Belas Artes de Blois pelo historiador Victor Gysembergh, pesquisador do Centro Nacional Francês de Pesquisa Científica (CNRS). Segundo a análise, trata-se da página 123 do chamado “Palimpsesto de Arquimedes” e contém trechos do tratado Sobre a Esfera e o Cilindro, uma das obras fundamentais do cientista grego.
Arquimedes viveu no século 3 a.C., na cidade de Siracusa, e fez contribuições importantes para a matemática, a física e a engenharia. Ele descobriu formas de calcular áreas e volumes de figuras como a esfera e o cilindro, criou ideias que ajudaram a dar origem ao cálculo e projetou máquinas para levantar água e até para uso em guerras.
Entre suas descobertas mais conhecidas está o princípio da flutuação dos corpos – associado à famosa exclamação “Eureka!” – que explica por que alguns objetos boiam e outros afundam, conforme a relação entre seu peso e a força da água.
Seus textos originais, no entanto, não chegaram diretamente a nós. Eles sobreviveram graças a cópias feitas séculos depois.
O Palimpsesto de Arquimedes é uma dessas cópias. Trata-se de um manuscrito produzido no século 10, provavelmente em Constantinopla, reunindo tratados do matemático e textos de outros autores.
Séculos mais tarde, no entanto, o documento sofreu uma transformação radical. Monges reutilizaram o pergaminho – feito de pele de animal e, portanto, caro –, apagando os textos originais e escrevendo por cima um livro de orações.
Esse tipo de reaproveitamento era comum na Idade Média e dá origem ao termo “palimpsesto”: um manuscrito cujo conteúdo original foi raspado e substituído. No caso do documento de Arquimedes, a operação acabou preservando, de forma indireta, textos que poderiam ter se perdido completamente.
Como o manuscrito chegou ao museu?
O manuscrito teve uma trajetória turbulenta ao longo dos séculos. Passou por Jerusalém e Constantinopla, foi redescoberto no início do século 20 pelo historiador dinamarquês Johan Ludvig Heiberg, que fotografou todas as páginas em 1906, e depois desapareceu novamente durante a Primeira Guerra Mundial.
Décadas mais tarde, reapareceu em uma coleção privada francesa e acabou leiloado em 1998 por cerca de US$ 2 milhões. Hoje, está sob custódia do Walters Art Museum, em Baltimore, nos Estados Unidos.
Durante muito tempo, o acesso ao conteúdo do palimpsesto dependia das fotos feitas por Heiberg. Isso mudou nos anos 2000, quando pesquisadores passaram a usar imagens multiespectrais – uma técnica que fotografa o manuscrito sob diferentes comprimentos de onda de luz, revelando textos invisíveis a olho nu.
O método permitiu recuperar partes importantes dos escritos de Arquimedes e até fragmentos desconhecidos de obras antigas.
Mesmo assim, nem tudo foi reencontrado. Ao longo da história recente do manuscrito, três páginas documentadas nas fotos de 1906 desapareceram e eram consideradas perdidas. A folha agora identificada em Blois é uma delas.
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A descoberta começou de forma casual. Em conversa com colegas, Gysembergh comentou que reis franceses costumavam guardar partes de suas bibliotecas na cidade de Blois. “Ei, vamos ver se há algum palimpsesto em Blois”, contou ele à AFP. A busca levou a um catálogo digital do museu local e, em seguida, à identificação da página.
A confirmação veio da comparação com as imagens de 1906. A caligrafia, os diagramas geométricos e até pequenos erros coincidiam perfeitamente. “Foi muito inesperado encontrar um manuscrito grego. E ainda mais inesperado encontrar um tratado científico do século 10”, disse o pesquisador.
A página tem características típicas do palimpsesto. Em um dos lados, orações escritas posteriormente cobrem parcialmente diagramas e trechos do texto original de Arquimedes, ainda parcialmente legíveis.
No outro, há uma ilustração colorida do profeta Daniel entre dois leões, provavelmente adicionada no século 20 para valorizar o manuscrito no mercado. Essa camada mais recente impede, por enquanto, a leitura do conteúdo que está por baixo.
Para tentar revelar esse texto oculto, os pesquisadores planejam usar técnicas mais avançadas do que as disponíveis duas décadas atrás. A ideia é tirar imagens da página com diferentes tipos de luz e, depois, usar raios X para detectar restos de tinta que já não podem ser vistos a olho nu.
A expectativa é que esses métodos permitam recuperar partes ainda desconhecidas da obra de Arquimedes.
Também há a esperança de localizar as outras duas páginas desaparecidas. “Até essa descoberta, não tínhamos motivos para ter esperança de que algum dia as encontraríamos”, disse Gysembergh. “Agora, se instituições ou colecionadores particulares possuírem esse tipo de manuscrito, devem considerar se ele poderia ser uma das outras páginas perdidas.”
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