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Curiosidades

‘Detox de IA’: entenda por que pessoas estão se afastando da tecnologia

Um vídeo publicado no TikTok pela designer gráfica Gabriella Nunes acumula mais de 212 mil visualizações e 25 mil curtidas na rede social. O motivo? Seu desabafo sobre como o uso excessivo da inteligência artificial (IA) estava afetando sua capacidade de raciocinar.

O conteúdo aparece com a chamada “estou em processo de desmame do ChatGPT porque percebi que não sei mais pensar sozinha” e, ao longo do vídeo, ela destaca que precisou se afastar da IA por um determinado período.

“Para eu voltar a conseguir escrever, a formular um raciocínio minimamente crítico e lógico, como eu quero, precisei largar mão do ChatGPT, porque ele estava literalmente sendo o meu cérebro, ele estava pensando por mim”, afirmou Nunes.


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@gabrisfnunes chega de preguiça, você vai trabalhar sim, cérebro!!! #chatgpt #inteligenciaartificial #conhecimento #escrita #fy ♬ som original – Gabriella Nunes

Já em uma postagem no LinkedIn, o estrategista de IA Vin Vashishta revelou que seguiu um caminho semelhante. Ele afirma que passou um fim de semana se “desintoxicando” da tecnologia e pontua como ela pode afetar o pensamento original e crítico.

“Recomendo fazer o detox de IA. Volte para o conteúdo pré-IA ou até mesmo para o conteúdo pré-redes sociais por alguns dias. Você vai voltar com uma perspectiva completamente reconfigurada e padrões mais altos. Depois do meu detox de IA, vou usar IA menos em muitas áreas. Também estou trabalhando em maneiras de reduzir minha exposição à droga de IA”, afirmou.

Como o próprio Vashishta indicou, o movimento feito por ele e por Gabriella vem sendo chamado de “detox de IA”. Essa iniciativa se refere à tentativa de pessoas de diferentes idades e áreas de se afastarem, temporariamente, das ferramentas generativas.

Um momento de conscientização

Em entrevista concedida ao Canaltech, João Victor Archegas, coordenador de Direito e Tecnologia no Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio (ITS-Rio), define essa tendência de “desintoxicação” como positiva.

“O ‘detox’ nesse caso pode ser um momento de qualificação. Buscar entender o que a tecnologia realmente é e como ela funciona pode ajudar na busca por um melhor equilíbrio. Se eu sei com mais clareza o que a IA pode fazer bem e o que ela ainda não consegue alcançar, minha relação com a tecnologia muda drasticamente”, destaca o especialista.

Archegas acrescenta que essa mudança pode ser importante para que as pessoas enxerguem e usem essa tecnologia não como substituta de suas capacidades de raciocínio, mas como um instrumento de potencialização de habilidades.

“Isso poderia ser evitado se todos compreendessem melhor como usar a tecnologia como um amplificador (e não substituto) das competências humanas”, destaca João.

Combate à “terceirização do pensamento”

A redução dessa dependência das ferramentas de IA em atividades no trabalho, na vida acadêmica e em outras tarefas do dia a dia visa também mitigar os riscos de um “deslocamento cognitivo”. Ou seja, delegar à tecnologia a tarefa de produzir reflexões no nosso lugar.

“A inteligência artificial pode aumentar muito a eficiência, mas a produtividade não pode ser confundida com uma terceirização do pensamento. Na minha visão, existe um risco de confundirmos o ganho de eficiência com a delegação completa do raciocínio”, ressalta Danilo Torini, professor e gerente de Tecnologias de Ensino e Aprendizagem da ESPM.

O docente pontua que, diante desse cenário, o detox pode ser visto como uma forma saudável de equilibrar o uso da IA no cotidiano. Uma forma de chegar a isso seria usar a tecnologia em atividades como organização de informações e exploração de hipóteses em determinado contexto.

Já tarefas relacionadas à interpretação, síntese, formulação de perguntas e tomada de decisões ainda devem ficar sob responsabilidade humana. Ou seja, deixar a cargo das pessoas atividades que ajudam a manter ativa a capacidade de raciocínio e que estimulem o esforço intelectual.

Computador com IA
Detox de IA pode ajudar a manter ativa a capacidade de raciocínio (Imagem: Freepik/DC Studio)

Busca pela resposta perfeita e risco de dependência

Mas a busca por mecanismos que possam aumentar a produtividade no trabalho ou nos estudos não é o único fator que contribui para o uso excessivo da IA. Uma pressão social pela excelência pode ter como consequência o medo de errar, o que faz com que algumas pessoas prefiram a resposta “perfeita” da máquina em vez de suas próprias ideias.

“Os jovens e muitos adultos estão tendo a sensação de incapacidade de pensar sozinhos porque, às vezes, têm insegurança, baixa autoestima ou necessidade de aprovação alheia. Então, tendo uma IA que pensa por eles e dá o material pronto, muito mais elaborado, aquilo ali para eles é muito melhor do que pensar por conta própria, onde vão ter defeitos e pensamentos, às vezes, pouco elaborados”, destaca Anna Lucia Spear King, psicóloga e fundadora do Instituto Delete.

Como líder do laboratório que foca na pesquisa e em alertas relacionados ao uso consciente da tecnologia, Spear compara o “conforto” de ter por perto ferramentas generativas às atitudes de pais superprotetores que resolvem tudo para os filhos.

Enquanto fica a cargo dos responsáveis tarefas como falar com professores, fazer comida, limpar a casa e tomar decisões em qualquer contexto, o uso indiscriminado da inteligência artificial pode significar receber o pensamento pronto, sem oportunidade de errar, amadurecer e aprender.

“Então, isso limita o desenvolvimento das próprias capacidades de construir coisas, de pensar e de imaginar. Tudo isso é muito facilitado e já vem pronto, e tira da pessoa a possibilidade de se desenvolver nesse sentido”, reforça a psicóloga.

O caminho para combater essa dependência da IA passa principalmente por orientações focadas em educação digital. Um uso moderado dessas ferramentas, voltado à potencialização de seus benefícios e à redução dos prejuízos associados ao uso excessivo, é uma das alternativas possíveis.

ChatGPT
Psicóloga Anna Sperar afirma que uso excessivo da IA está associado à insegurança e medo de errar (Imagem: Pexels/Airam Dato-on)

Dicas para o “detox de IA”

Os especialistas ouvidos pelo Canaltech afirmam que, devido à ampla integração de recursos de inteligência artificial no ambiente digital, realizar um detox completo dessa tecnologia já é muito difícil. O que os estudiosos aconselham, na verdade, é estabelecer um uso mais consciente no cotidiano.

Algumas dicas dadas por Anna, Danilo e João são:

  • Exercitar a “musculatura cognitiva”: reservar momentos para ler textos longos com atenção plena, escrever rascunhos ou resolver problemas complexos sem qualquer mediação tecnológica;
  • Adotar o método das três etapas: organizar o trabalho em fases como formulação humana (definindo o problema e as perguntas iniciais), etapa intermediária de reunião de referências (aqui, usando IA) e fase final com avaliação crítica também feita pela pessoa;
  • Trocar substituição pela qualificação: buscar entender como a tecnologia funciona e quais são seus limites reais, a fim de mudar a relação com a IA de dependência para uma parceria complementar;
  • Fugir da armadilha do “copia e cola”: usar a IA para acrescentar ideias ou estruturar informações, mas nunca para produzir o trabalho final que será entregue ou publicado;
  • Manter espaços de silêncio tecnológico: criar momentos para refletir e pensar sobre situações sem a pressão por respostas imediatas ou perfeitas, o que ajuda a desenvolver pensamentos mais elaborados e a recuperar a “autoestima intelectual”.

Leia a matéria no Canaltech.

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augustopjulio

Sou Augusto de Paula Júlio, idealizador do Tenis Portal, Tech Next Portal e do Curiosidades Online, tenista nas horas vagas, escritor amador e empreendedor digital. Mais informações em: https://www.augustojulio.com.