Cientistas “revivem” cérebro congelado de camundongos pela primeira vez
Os fãs do universo Disney já devem ter ouvido a lenda: quando Walt Disney morreu, em 1966, seu corpo teria sido congelado e armazenado em uma câmara criogênica escondida logo embaixo da atração dos Piratas do Caribe, na Disneylândia, esperando o dia em que cientistas fossem capazes de trazer a cabeça por trás do Mickey Mouse, o camundongo mais famoso da história, de volta à vida.
É balela, claro – o empresário na verdade foi cremado pouco após seu falecimento –, mas o mito é uma boa janela para história: foi bem naquela época, na metade dos anos 1960, que o assunto da criônica, o congelamento de seres humanos na esperança de uma futura ressurreição, começou a ganhar cada vez mais a atenção do público.
Foi também em 1966 que a primeira pessoa foi congelada – e, desde então, mais de 350 outros corpos falecidos foram suspensos no mesmo pós-vida frio (em temperaturas de aproximadamente -196°C). Esse caminho para a imortalidade, porém, ainda não vingou: o próprio processo de congelamento danifica as células, e cientistas ainda não descobriram como reviver um corpo humano congelado.
Um dos maiores desafios nessa busca é descobrir como recuperar o funcionamento do cérebro. Fazendo testes no tecido nervoso de humanos e outros mamíferos, pesquisadores já haviam demonstrado que essas células poderiam não apenas sobreviver ao congelamento, como também manter algumas funções depois de descongeladas. Ainda assim, nunca foi possível recuperar completamente o funcionamento de um cérebro inteiro.
Agora, cientistas alemães da Universidade de Erlangen-Nuremberg acabam de dar um passo significativo nessa direção, experimentando com o cérebro de camundongos. Em estudo publicado no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences, a equipe descreve como foi capaz de preservar funções essenciais para o funcionamento do cérebro dos roedores após o congelamento, incluindo aquelas relacionadas ao aprendizado a à memória.
Isso tudo foi possível graças ao método que os cientistas usaram para preservar os tecidos nervosos, chamado vitrificação, que congela as células em um estado parecido com vidro. Antes, o maior obstáculo ao transformar o cérebro todo em picolé era o dano causado pela formação de cristais de gelo, que desorganizam e perturbam de diversas maneiras a arquitetura delicada dos tecidos cerebrais.
A solução, então, foi impedir a formação desses cristais substituindo grande parte da água dos tecidos por solventes polares. Isso permitiu com que o líquido congelasse bem mais rápido, ao ponto das moléculas ficarem presas em um estado desorganizado, formando um tipo de vidro.
Os testes foram feitos, a princípio, apenas com fatias dos cérebros, com uma espessura de 350 micrômetros (equivalente a pouco mais de três fios de cabelo). Eles começaram pelas fatias que continham o hipocampo – justamente a área responsável pela memória e pelo aprendizado –, aplicando as soluções e usando nitrogênio líquido para congelar tudo a temperaturas de -196°C. Depois de um tempo no freezer (alguns testes duraram 10 minutos; outros, sete dias), as amostras foram descongeladas em uma solução quente e analisadas.
O que são xenotransplantes?
Após o congelamento e descongelamento, não apenas as membranas dos neurônios e das sinapses continuaram intactas, como também persistiram alguns sinais de atividade. A mitocôndrias continuaram funcionando, os neurônios ainda eram capazes de responder a estímulos elétricos e, dentro das vias neuronais do hipocampo, ocorria um processo chamado fortalecimento sináptico, que fortalece os neurônios e permite a criação e o armazenamento de memórias no cérebro.
Os resultados motivaram os pesquisadores a testar o método em cérebros inteiros. Depois de oito dias vitrificados, as amostras mantiveram as vias neuronais praticamente intactas, incluindo aquelas do hipocampo responsáveis pelo fortalecimento sináptico. As taxas de sucesso nesse caso, porém, não foram tão altas, o que pode criar novos desafios em pesquisas futuras com órgãos humanos maiores.
Pela natureza do estudo, ainda não foi possível descobrir se os cérebros dos camundongos de fato continuariam com suas memórias depois de congelados. O próximo passo, de acordo com os pesquisadores, é testar a vitrificação em tecidos cerebrais humanos, assim como em outros órgãos, como o coração. No caso dos roedores, esse processo já foi capaz de preservar criogenicamente os rins, o fígado e, também, o coração.
É uma linha de estudos com o potencial de ajudar em uma série de questões médicas bem práticas. Avanços nas técnicas de congelamento de partes do corpo humano poderiam, por exemplo, auxiliar bancos de doação de órgãos ou proteger o cérebro contra certas doenças ou ferimentos.
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