A história da cachaça, a bebida que motivou a primeira revolta brasileira
Texto Felipe van Deursen | Design e colagens Cristielle Luise
Em 2001, o Brasil oficializou a cachaça como um produto com indicação geográfica controlada. Foi um passo importante para firmar a bebida no mercado internacional e reconhecê-la como símbolo cultural e histórico do País.
Está na lei: “cachaça” é a “denominação típica e exclusiva da aguardente de cana produzida no Brasil […] obtida pela destilação do mosto fermentado do caldo de cana-de-açúcar”, com graduação alcoólica entre 38% e 48%. Em 2024, produzimos 292,5 milhões de litros da bebida, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (1).
De acordo com entidades como a Expocachaça e o Instituto Brasileiro da Cachaça, nossa caninha é o terceiro destilado mais consumido do mundo, atrás apenas do coreano soju e da vodca. Faltam, porém, dados consolidados, e esses levantamentos ignoram o chinês baijiu, considerado o destilado mais popular do planeta.
É um consumo essencialmente interno. Da mesma forma que as vendas de baijiu se concentram na China, as exportações de cachaça ficam entre 0,5% e 1%. Para os gringos, ela ainda é uma bebida um tanto exótica.
É claro que drinks como a caipirinha e o rabo de galo ajudam na fama da cachaça lá fora. Mas o caminho é longo. A começar pelo fato de que o grosso do que é exportado são aguardentes industrializadas de menor qualidade.
Para Felipe Jannuzzi, editor-chefe do site Mapa da Cachaça, mesmo no Brasil faltam informações e acesso às melhores cachaças. “Não temos um mercado evoluído internamente, dessa forma é difícil esperar uma mudança lá fora.”
Por aqui, há mais de mil produtores formalizados, mas o cenário é de muitos produtos, porém poucas marcas conhecidas. “Criar uma marca é caro e demanda muito tempo”, diz Jannuzzi. Com a produção e o consumo tão fragmentados e voltados para dentro, a cachaça vive uma realidade bem diferente daquela do Brasil Colônia. Há 350 anos, a bebida estava no centro da economia de uma das maiores potências imperiais do mundo.
Origem incerta
Há quem afirme que a cachaça surgiu por volta de 1540, quando já havia engenhos de açúcar no Brasil. Não se sabe ao certo. O historiador João Azevedo Fernandes conta (2) que a primeira referência concreta data do século 17. Em 1611, um inventário em São Paulo menciona a existência de um alambique, equipamento essencial na destilação de bebidas alcoólicas.
À época, o açúcar já era o principal produto da colônia. A cachaça se aliou a outro derivado da cana, a rapadura (açúcar escuro e petrificado), além de carne-seca e farinha, e compôs a base da alimentação dos trabalhadores – e também do tráfico de mão de obra escravizada.
Os africanos não eram apenas capturados em caçadas. Normalmente, eram negociações que envolviam tecidos, instrumentos agrícolas, metais, pólvora e bebidas alcoólicas. Esse sistema contava com pontos fixos em terra e barcos que navegavam em águas costeiras, fortes e portos. Os comerciantes africanos podiam ser intermediários ou integrar monopólios estatais ou organizações de nobres ou reis.
No fim do século 16, a mão de obra escravizada africana se tornou indispensável nas lavouras brasileiras. Do Rio, saíam carregamentos de farinha de mandioca e de aguardente para os portos africanos, a fim de serem trocados por mais cativos. Os colonos fluminenses furavam o bloqueio que impedia o comércio direto entre as possessões imperiais, driblavam o fiscalismo e, assim, impunham grandes prejuízos à Coroa.
Se a cachaça foi vital nas relações exteriores, também foi importante na interiorização da colônia. Nas camadas populares, ela era vista como alimento, dado seu valor calórico. Nas vendas próximas das igrejas de vilas e arraiais e caminhos que iam sendo abertos pelo interior, sempre havia aguardente em cabaças, ao lado de rapadura e fumo.
Moeda de troca
Portugal via o mercado atlântico como essencial para sua enfraquecida economia em meados do século 17. De 1580 a 1640, o reino esteve sob domínio espanhol na chamada União Ibérica. Foi um período em que Lisboa perdeu autoridade e viu alguns de seus territórios invadidos por potências rivais (como o Nordeste brasileiro, pelos holandeses).
Quando Portugal recuperou a autonomia, precisou reforçar sua posição no comércio ultramarino. Para isso, criou, entre outras medidas tomadas, a Companhia Geral do Comércio do Brasil, em 1649.
Essa empresa passou a ter monopólio sobre os grandes gêneros de exportação portugueses, como vinho, bacalhau, farinha e azeite. Também assegurou o monopólio sobre o comércio brasileiro, e naquele mesmo ano proibiu a venda de cachaça no Brasil. A bebida estava dando dor de cabeça à metrópole – como as piores ressacas, era algo difícil de controlar.
A produção brasileira era limitada, mas já fazia frente às bebidas importadas na América lusitana. Na segunda metade do século 17, virou um empecilho para o mercado de vinho. É que a cachaça tinha uma série de vantagens: era mais barata, tinha teor alcoólico maior e se adaptava melhor ao clima tropical e às viagens oceânicas (por ter mais álcool, estragava com mais dificuldade).
O setor açucareiro também encrencou com a cachaça. Os destiladores desviavam parte da produção de cana, o que gerava concorrência interna e encarecia o fabrico de açúcar. A demanda por lenha, essencial no funcionamento dos engenhos, também aumentou e a tornou mais cara. Por fim, os proprietários culpavam a cachaça pelo aumento de acidentes de trabalho e de rebeliões dos escravizados.
A primeira revolta brasileira
Na capitania do Rio de Janeiro, onde a fabricação e o comércio de cachaça eram relevantes, a proibição gerou tumulto. Nos anos 1620, o Rio tinha 40 engenhos de açúcar, de um total de 230 na colônia (2). Na década de 1650, o governador da capitania, Luís de Almeida, solicitou ao Conselho Ultramarino que revogasse o veto.
Para Almeida, uma coisa era proibir na Bahia, onde o açúcar valia mais e o frete para o reino era mais barato. Isso porque no Rio a cachaça ganhou mais terreno, também, por causa da qualidade da matéria-prima. O caldo da cana fluminense era aguado, o que piorava o açúcar, mas não fazia diferença para a cachaça. Então, os produtores do Rio viam mais vantagem em fazer aguardente do que os de outras capitanias. Seu açúcar podia não ser lá grandes coisas, mas a bebida tinha mercado garantido em Angola e no Golfo da Guiné.
O poderoso ex-governador Salvador de Sá e Benevides, associado da Companhia Geral, fazia oposição aos donos de alambiques. Ele insistiu no embargo, argumentando que o consumo de pinga fomentava a rebeldia dos negros.
Em 1659, uma provisão impôs que todos os alambiques do Rio deveriam ser destruídos, numa medida que afetava, além dos produtores de cachaça, ferreiros, caldeireiros e oleiros. Qualquer um envolvido na fabricação de alambiques estava sujeito a multa e até deportação para Angola.

Naquele ano, Sá e Benevides voltou ao governo do Rio, cuja economia vivia uma situação delicada. Faltavam recursos, e a mortalidade de escravizados estava alta, o que afetou a produção de açúcar. Além disso, a capitania precisava de mais fundos para construir um forte na Baía de Guanabara e uma frota de navios – entre eles, o Padre Eterno, um enorme galeão (um tipo de embarcação).
Sá e Benevides decidiu criar novos impostos, mas a Câmara fluminense fez uma contraproposta. Aceitava o aumento da tributação, desde que a cachaça fosse legalizada e o comércio exterior, permitido. O governador alegou dúvidas e manteve os entraves.
Membro de um poderoso clã que incluía Mem de Sá e Estácio de Sá, Salvador não brincava com as próprias ambições. O Padre Eterno tinha 2 mil toneladas, 53 metros de comprimento e 144 peças de artilharia. Era o maior navio do mundo, e sua construção marcou a toponímia carioca até hoje: o terreno onde funcionava o estaleiro passou a se chamar Galeão, e a ilha onde fica o bairro e o Aeroporto do Galeão virou a Ilha do Governador.
Sá e Benevides não respeitava decisões da Câmara, criou impostos e minguou os cofres públicos. A insatisfação culminou, em dezembro de 1660, na primeira revolta popular brasileira, a Revolta da Cachaça.
Em vez de enfrentar os rebeldes, Sá e Benevides, um militar experiente, aguardou em São Paulo a chegada de reforços. Em abril de 1661, reconquistou a cidade do Rio, confiscou armas, prendeu inimigos e ordenou que o líder do movimento, Jerônimo Barbalho Bezerra, fosse decapitado.
O que era para ser uma mera reivindicação de colonos descambou para o primeiro levante da América portuguesa. Porém, a Revolta da Cachaça não foi contra o rei, mas contra a política fiscal do governador. Sá e Benevides pode ter esmagado o movimento, mas acabou substituído no cargo. A grande vitoriosa, no fim, foi a cachaça, que voltou à legalidade ainda em 1661.
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Motor alcoólico do império
A Coroa retomou a proibição em 1679. No entanto, por mais que tentasse, Portugal não conseguia controlar o tráfico. Durante o veto a cachaça enriqueceu comerciantes dos dois lados do Atlântico.
Em 1689, uma coalizão de ex-governadores, funcionários da Coroa, produtores de cachaça e proprietários de navios negreiros reabriu o mercado da África Central. Em 1695, o comércio voltou a ser regularizado. Com o pagamento de uma taxa ao sair do Brasil e de outra ao entrar em Angola, a Coroa deixou de perder tanto dinheiro e a cachaça assumiu papel central na economia mercantilista do Atlântico Sul.
Em 1699, por exemplo, entraram por vias oficiais 308 mil litros de aguardente em Luanda. Segundo o historiador Raphael Martins Ricardo, especializado no comércio ultramarino português, em Angola a aguardente brasileira correspondia a cerca de 93% de todas as bebidas alcoólicas importadas.
Além das vantagens em relação ao vinho, o ineditismo contava muito. “Para muitas populações africanas, em especial sudaneses e bantos, a bebida era uma completa novidade: antes do contato com os portugueses, destilados eram praticamente desconhecidos”, diz o historiador.
De acordo com Martins Ricardo, a bebida reforçou a centralidade econômica do Brasil no Império Português e virou um instrumento de integração comercial, arrecadação fiscal e transformação de hábitos culturais. “Por um lado, tornou-se uma bebida popular, sobretudo entre a população escravizada, integrando festas, rituais e o cotidiano. Por outro, foi alvo de críticas morais e religiosas”, diz. “Muitos viam o consumo como fator de degradação física, social e espiritual.”
A cachaça também mobilizou insurreições em Angola, mas talvez a melhor forma de ver o impacto cultural da bebida nas colônias seja a língua. Existem centenas e centenas de sinônimos para ela, muito além de “pinga”, “marvada” ou “branquinha”, e alguns deixam claro o nosso intercâmbio com o continente africano. Jeribita, nome pelo qual a bebida ficou conhecida no interior da África Central, teria origem brasileira. Já outros vieram da África, como angico, cumbe, malunga e marafo, termo comum nas religiões afro-brasileiras.

O custo humano disso foi devastador. Entre 1501 e 1867, 10,5 milhões de africanos chegaram às Américas (1,8 milhão morreram no caminho). Desses, 5,8 milhões foram transportados por portugueses e brasileiros (4). O sistema luso-brasileiro de plantation (monocultura de exportação, mão de obra escravizada e lucros sobretudo para a metrópole) acabou influenciando todos os regimes escravistas do continente: espanhóis, franceses e ingleses o adotaram em propriedades menores.
Até mesmo nas moedas de troca houve semelhança gritante. Se no Brasil a cachaça estava no centro das negociações do tráfico negreiro, no Caribe era o rum. Ambos são subprodutos de economias açucareiras. Enquanto a aguardente brasileira é feita a partir do caldo fresco (garapa), o destilado caribenho vem do caldo cozido da cana (melaço), o que traz diferenças no resultado final (o rum tende a ser mais adocicado que a cachaça).
Os navios negreiros ingleses atendiam à demanda africana por rum enquanto abasteciam as fazendas caribenhas de mão de obra escravizada. Os colonos americanos assimilaram isso e, no fim do século 17, mergulharam no negócio. Da mesma forma que traficantes do Rio se especializaram em levar cachaça para Angola, negreiros da Nova Inglaterra inundaram a África com 5 milhões de litros de rum entre 1680 e 1713, um volume que lhes rendeu cerca de 60 mil escravizados.
A conquista do Brasil
Além do processo de interiorização do Brasil, em que a cachaça também teve papel importante, surgiram regiões produtoras de referência. Até o século 19, a capital pingófila do país era Paraty. A cidade fluminense foi, inclusive, sinônimo da bebida por muito tempo – num caso parecido com o de “tequila” (nome de uma cidade no México) e “champanhe” (uma região da França).
A ligação mais forte a determinados lugares reforçou o papel simbólico da cachaça no desenvolvimento de uma identidade brasileira. Para o antropólogo Luís da Câmara Cascudo, no clássico Prelúdio da Cachaça (1968), um episódio determinante nesse sentido foi a Revolução Pernambucana (1817). Na ocasião, o padre João Ribeiro, líder e mártir da insurreição, recusou uma taça de vinho francês em um brinde. Fez questão da aguardente nacional.
Aos poucos, também, ela deixou de ser exclusividade das camadas populares. Marcou presença até nos cardápios da família real. Mas, no século 20, caiu em um ostracismo que a impregnou dos preconceitos que a acompanharam desde os tempos da colônia – aquele papo de birita de bebuns, vadios e degenerados.
Neste século, surgiu uma valorização, com produtores artesanais se profissionalizando e investindo em controle de qualidade, distribuição, marketing e turismo. Essa descoberta se estendeu a outros produtos nacionais, como queijo, café, chocolate e azeite. Aliado à valorização de ingredientes brasileiros na coquetelaria e na gastronomia, isso configuraria, em tese, o cenário de uma era de ouro para a cachaça.
(Em 2023, o rabo de galo entrou para a lista de drinks da Associação Internacional de Bartenders, da qual a caipirinha já fazia parte. Um sinal de valorização da cachaça brasileiro mundo afora.)
Até este ano, somente Chile, Colômbia, México e Estados Unidos (que antigamente a chamavam de “rum brasileiro”) reconheciam a cachaça como produto genuinamente brasileiro. Esse cenário vai mudar com a entrada em vigor do Acordo Mercosul-União Europeia. Com ele, todos os países da UE passarão a acatar a indicação geográfica da cachaça. Pode ser um passo para que a bebida volte a ter destaque internacional – sem os horrores da escravidão.
Fonte: (1) Anuário da Cachaça 2025, (2) livro Alcohol in Latin America, sem edição brasileira. (3) livro História do Brasil, do frei Vicente do Salvador, (4) projeto The Trans-Atlantic Slave Trade Database.
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