A história do cinema mais antigo do Brasil em funcionamento
É o Cinema Olympia, inaugurado em 1912 em Belém (PA). Apesar dos momentos em que o fechamento parecia inevitável, ele segue como o cinema mais antigo do Brasil ainda em funcionamento. Com exceção de pausas para reformas e o período da Covid-19, o Olympia manteve uma programação cultural quase ininterrupta ao longo de mais de 110 anos.
O Olympia surgiu durante a Belle Époque, período de prosperidade econômica na Amazônia devido ao ciclo da borracha. A capital paraense recebeu muita influência da cultura e arquitetura francesas, o que levou à abertura de instituições culturais como o Teatro da Paz (1878), hospedagens glamurosas como o Grande Hotel (1913). O polo turístico se concentrava na Praça de República, onde funciona o Teatro da Paz até hoje.
É também nessa região que está o Olympia. Ele foi fundado em 24 de abril de 1912 por Carlos Teixeira e Antônio Martins, empresários donos do Grande Hotel. A ideia era lucrar com os novos espaços culturais que se formavam em Belém, voltados a estrangeiros e a elite paraense.
“Existia o hábito de ir ao cinema, depois comer na cafeteria do Grande Hotel, e atravessar para o Teatro da Paz para a sessão das 20h. Era o triângulo cultural da época”, diz Nazaré Moraes, gerente do Cinema Olympia desde 2007. O hotel fechou em 1966, mas o cinema e o teatro continuam de pé.
Os primeiros anos
Entre 1912 e 1930, o cinema exibia apenas filmes mudos (o primeiro filme falado é de 1927). Nessa época, a exibição era acompanhada de uma orquestra, um dueto ou trio de músicos. A única sala do cinema inaugurou com isolamento acústico, 400 poltronas e 10 ventiladores elétricos (os aparelhos de ar condicionado só viriam anos depois).
Os filmes eram média-metragens, e não costumavam passar de uma hora de duração. Os rolos de filmes eram transportados de navio da Europa diretamente para o Olympia, em viagens que duravam semanas. Por Belém estar geograficamente mais próxima do continente europeu, os filmes passavam primeiro pela capital paraense antes de seguir para o resto do Brasil.
O cinema era não só um lugar de entretenimento, mas também de aprendizado e conhecimento sobre o resto do mundo. Uma história clássica é a do ator Syn de Conde, o primeiro brasileiro a trabalhar em Hollywood. Seu pai, um empresário paraense, havia enviado o filho para estudar na Europa – mas Syn escapou para Los Angeles e caiu na graça dos filmes. O pai só descobriu o paradeiro do filho quando assistiu ao filme Chama do Deserto no cine Olympia, em 1921, e se deparou com uma cena de Syn puxando um camelo.
De mão em mão
Os primeiros anos do cinema foram um sucesso de público, mas a prosperidade financeira durou pouco. O período do ciclo da borracha termina, justamente, nos anos 1910 – graças ao contrabando de sementes de seringueiras às colônias britânicas, que passaram a produzir borracha na Ásia de forma mais barata.
A desaceleração da economia na Amazônia fez com que os empresários Teixeira e Martins vendessem o Cinema Olympia ao banqueiro Adalberto Marques em 1930. A venda coincide com o ano de exibição do primeiro filme falado no Olympia: a comédia musical “A Alvorada do Amor” (The Love Parade, em inglês).

Em 1946 o Olympia é vendido ao exibidor Luiz Severiano Ribeiro, dono de uma rede de cinemas que viria a se tornar o Kinoplex. A sala de Belém ficou nas mãos do grupo por 60 anos.
Durante esse período, o Olympia teve diferentes fachadas que acompanhavam o estilo arquitetônico de cada época. A primeira grande mudança aconteceu em 1940, quando os arcos da fachada foram retirados e foi introduzida uma marquise. Nos anos 1960, ele passa por outra reforma que adiciona saídas de emergência, substitui as cadeiras e introduz os aparelhos de ar condicionado (necessários no calor amazônico).
O (quase) fim do Olympia
2006 foi o ano mais conturbado da história do cinema Olympia. O Grupo Severiano Ribeiro pretendia vender o prédio para empresas de outros ramos. Segundo a gerente Nazaré Moraes, havia três interessadas: a Igreja Universal, as Lojas Americanas, e o Banco Bradesco.
Um outro cinema que pertencia ao Grupo Severiano Ribeiro, chamado Cinema Palácio, chegou a ser vendido para a Igreja Universal. A igreja ocupa o imóvel até hoje, que fica na mesma avenida do cinema Olympia.
Quando surgiram os rumores de que o cinema mais antigo de Belém (e do Brasil) também seria vendido, artistas, estudantes e políticos se mobilizaram para evitar o fim do Olympia. No dia 16 de fevereiro de 2006 ocorreria a última sessão do cinema, mas o prefeito da época, Duciomar Costa, aproveitou a ocasião para anunciar um projeto de lei que transforma o cinema Olympia em patrimônio cultural do Estado do Pará.
A partir daí, o Olympia passou a ser responsabilidade do Estado. Surgiram projetos de democratização da cultura, que levam o cinema a escolas públicas e a comunidades ribeirinhas, que moram nas ilhas próximas a Belém.
Hoje, o edifício do cinema Olympia é tombado como patrimônio e não corre mais o risco de ser vendido ou transformado em uma instituição que não seja do ramo audiovisual.

Ressurgimento
O cinema fechou em 2020, como praticamente todas as instituições culturais do mundo. Depois da pandemia, a gerência percebeu que havia um problema estrutural no telhado, o que impedia a reabertura da sala ao público. Após o reparo emergencial no telhado, a Prefeitura de Belém iniciou um projeto de restauração completa do cinema Olympia.
As obras começaram em 2023 e seguem até hoje. A previsão é que o edifício seja entregue em março de 2026. A partir daí, se iniciam os planos de reabertura ao público. Segundo Moreira, devemos esperar o cinema Olympia funcionando novamente no meio de 2026.



O restauro é feito em parceria com o Instituto Pedra – uma instituição especializada em prédios históricos, que têm projetos de restauração do Edifício Copan, Instituto Moreira Salles, entre outros.
Uma das surpresas da reforma foi ter encontrado o arco original da fachada do Olympia por baixo de outras estruturas. A gerente do cinema mostrou fotos do arco aos engenheiros do Instituto Pedra, que incorporaram a estrutura ao novo projeto.
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