Marty Supreme: a história real por trás do filme de Timothée Chalamet
Marty Supreme estreou nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (22), após ganhar sessões antecipadas ao redor do País. O longa acumula oito indicações ao Oscar de 2026, entre elas Melhor Filme, Direção e Roteiro Original.
Timothée Chalamet, que está concorrendo a Melhor Ator, interpreta Marty Mauser, um jogador de tênis de mesa de Nova York que alterna entre torneios e partidas por dinheiro, usando apostas e pequenos esquemas para financiar viagens e disputar competições maiores.
O filme é, em parte, inspirado em uma história real: a de Marty Reisman, um nova-iorquino que foi um dos grandes nomes do tênis de mesa mundial e conquistou 22 títulos entre 1946 e 2002. O roteiro também parte da autobiografia do atleta, The Money Player, que ajudou a moldar o tom e o universo do longa.
A ligação do diretor Josh Safdie com essa história começou justamente pelo livro. Ele conheceu Reisman depois que sua esposa, Sara, lhe deu um exemplar da autobiografia. Safdie leu e, junto com o roteirista Ronald Bronstein, passou a escrever uma história sobre “um sonhador provinciano do Lower East Side que conseguiu se projetar no cenário mundial do pós-guerra por pura força de vontade”, nas palavras de Bronstein à revista Time.
Ele também descreveu o livro como uma porta de entrada para “uma subcultura esquecida e extremamente vibrante de desajustados, obsessivos, malandros e sonhadores de Nova York”. A seguir, confira o que é real e o que foi inventado em Marty Supreme.
Atenção: o texto a partir daqui contém spoilers do filme.
O verdadeiro Marty Supreme
O atleta nasceu em 1º de fevereiro de 1930 e começou a jogar tênis de mesa aos 9 anos, depois do que descreveu como um “colapso nervoso”. Ele dizia que o esporte era uma “forma de aliviar a ansiedade”. Foi campeão júnior da cidade aos 13 anos. Pouco depois, se mudou para um hotel em que seu pai trabalhava – diferentemente do filme, que o mostra morando com a mãe.
“Quando havia casamentos no hotel, ele vestia seu melhor terno, entrava, sentava-se para jantar e depois ia jogar pingue-pongue a noite toda”, contou Leo Leigh, diretor do documentário Fact or Fiction: The Life and Times of a Ping-Pong Hustler, ao site Smithsonian Magazine.
Retratado no filme, foi no salão Lawrence’s Broadway Table Tennis Club, no lado oeste de Manhattan, que Reisman aprimorou suas habilidades. Em seu livro de memórias, ele narra: “quando cheguei ao Lawrence’s pela primeira vez, havia muitos jogadores que podiam me vencer. Pela minha experiência em quadras de rua, eu achava que era especial. Aprendi que não era. Por um tempo, fiquei impressionado com essas pessoas, mas logo consegui vencer todas elas”.
Desde cedo, chamava atenção pelo jeito de se comportar nas partidas. Ficou conhecido como “a Agulha”, por ser magro e rápido, e também como o “Bad Boy do Tênis de Mesa”. Relatos mostram que ele falava o tempo todo, provocando adversários sobre saques, nervos e namoradas, além de cutucar espectadores e árbitros.
Essa atitude fazia parte do modo como ganhava dinheiro no jogo. Ele atraía desafiantes, perdendo algumas partidas de propósito antes de dobrar apostas e vencer com facilidade.
Aos 15 anos, por exemplo, em uma competição nacional na cidade de Detroit, Reisman tentou apostar 500 dólares na própria vitória e entregou cinco notas a quem achou que fosse um agiota. Era, na verdade, o presidente da associação nacional de tênis de mesa. A confusão terminou com ele sendo levado sob custódia pela polícia.
Também tinha como hábito medir a altura da rede antes das partidas para garantir a precisão – usando notas de $100.
No fim dos anos 1940, Reisman e o também jogador Doug Cartland fizeram turnês com a equipe de basquetebol Harlem Globetrotters por três anos, como atração do intervalo, batendo bolas com frigideiras e até com solas de tênis enquanto tocava “Mary Had a Little Lamb”. Essa relação com os Globetrotters aparece no filme (em uma cena hilária, diga-se).
O momento mais decisivo da trajetória esportiva de Reisman – e que o filme transforma em motor da história – aconteceu em 1952. Na ficção, Mauser perde para o japonês Koto Endo (Koto Kawaguchi) em um campeonato mundial e passa a perseguir uma revanche. O longa situa o torneio em Londres, mas o evento real daquele ano foi disputado em Mumbai, na Índia, e também marcou uma derrota para o japonês Hiroji Satoh, que chegaria ao título.
Satoh apareceu com uma novidade tecnológica, a chamada “raquete sanduíche”, com camadas de espuma e borracha. O equipamento mudou o esporte ao deixar a bola mais rápida, com mais efeito e um quique menos previsível. Até então, com raquetes mais rígidas, o jogo era mais cadenciado, e muitos atletas conseguiam “ler” as jogadas pelo som do impacto e pelo ritmo das trocas.
Reisman ficou indignado e se recusou a adotar a novidade. Em entrevista ao New York Times em 1998, disse: “antes, havia um diálogo entre dois jogadores, no qual uma criança de 6 anos conseguia entender a conversa entre ataque e defesa. Hoje, um ponto é ganho ou perdido com um movimento imperceptível do pulso.”
No filme, a obsessão por revanche vira uma corrida por dinheiro. Mauser quer viajar ao Japão para disputar o campeonato mundial, mas precisa levantar recursos.
É aí que entra um dos elementos ficcionais: um magnata de canetas-tinteiro, Milton Rockwell (Kevin O’Leary), oferece levá-lo em seu jato particular se ele aceitar jogar uma partida de exibição no Japão para promover o produto. Mauser resiste e passa o filme buscando alternativas para chegar por conta própria.
Ao mesmo tempo, o protagonista se envolve com Kay Stone (Gwyneth Paltrow), esposa do magnata e uma estrela de cinema.
Bronstein descreveu a lógica desse caso com um espelhamento de ambições: “Em Kay, Marty vê uma versão de si mesmo no futuro: alguém que cruzou o limiar da riqueza, da fama e da legitimidade em sua área de atuação. Em Marty, Kay vê uma oportunidade de recuperar algo que perdeu – uma versão mais jovem de si mesma, antes de trocar o risco e a ambição pela segurança”.
No fim, o filme mostra Mauser tentando usar Kay como meio para chegar ao Japão, roubando uma joia para penhorar, apenas para descobrir que se trata de bijuteria. Ele acaba aceitando a partida de exibição, mas não consegue jogar o campeonato mundial por causa de uma multa pendente de um torneio anterior.
Nada indica que Kay Stone tenha existido na vida real. A própria base usada para o filme aponta que a personagem é ficcional, ainda que o circuito de clubes nova-iorquinos frequentado por Reisman reunisse gente de todo tipo, inclusive celebridades.
Personagens importantes como Rachel Mizler (Odessa A’zion) e Wally (Tyler, the Creator) também ajudam a “engordar” o drama, mas não têm correspondentes claros na vida real do jogador.
Já o começo do longa, em que o jovem Mauser aparece trabalhando como vendedor numa loja de sapatos do tio no Lower East Side, tem um pé na realidade: Reisman de fato trabalhou como vendedor de calçados, embora não nessa fase da vida nem para um parente.
Em 1957, ele conseguiu emprego como balconista na loja de departamentos B. Altman, em Nova York, mas foi demitido por chegar atrasado repetidamente. Bronstein interpreta esse tipo de ocupação como parte de uma sucessão de “bicos” e de uma recusa em criar estabilidade, “principalmente como uma forma de evitar raízes ou estabilidade”.
Outro ponto curioso é que o filme inclui o relato de Béla, um sobrevivente judeu húngaro de campo de concentração, interpretado por Géza Röhrig, sobre colmeias em Auschwitz. Safdie disse ao The Guardian que isso é baseado na história real de Alojzy Ehrlich, campeão de tênis de mesa e prisioneiro em Auschwitz. “Aprendi mais sobre o Holocausto nessa pequena história do que em alguns filmes que tratam exclusivamente do Holocausto”, afirmou.
“Golpista de longa data”
Reisman passou décadas circulando por um submundo de apostas, exibições e improviso. Um perfil publicado pela revista Time em 1974 o definiu como um “golpista de longa data”, envolvido com “grandes e pequenos furtos”.
“Para complementar sua renda, ele jogava partidas de exibição nos intervalos dos jogos de basquete dos Globetrotters e enganava amadores ricos, fazendo-os acreditar que poderiam vencê-lo se ele concedesse 19 pontos de graça e jogasse sentado em uma cadeira. Se o dinheiro fosse bom, Reisman chegava a jogar com uma tampa de lata de lixo”, descreveu a reportagem.
O atleta não escondia o pragmatismo dessa vida. Em The Money Player, escreveu: “Os jogadores de tênis de mesa precisam sobreviver com sua própria astúcia. Um jogador que dependesse de taxas de exibição poderia morrer de fome. Os melhores jogadores eram apostadores, contrabandistas ou ambos. Eu já havia ganhado mais de 175 troféus, mas não podia comê-los.”

Do fim dos anos 1950 até o fim dos 1970, administrou seu próprio salão no Upper West Side e também esteve ligado ao Riverside Table Tennis Club. Esses espaços atraíam um público variado e, em alguns momentos, celebridades como o ator Dustin Hoffman, os escritores Kurt Vonnegut e David Mamet e o enxadrista Bobby Fischer.
Reisman também levou seus truques para a TV. Ele apostava que conseguiria partir um cigarro ao meio com uma bola do outro lado da mesa, e fez a façanha no programa de Johnny Carson em 1975 e no de David Letterman em 2008.
Faleceu em 2012, aos 82 anos, por complicações pulmonares e cardíacas. Nove meses antes de morrer, reafirmou sua postura competitiva em um perfil do New York Times: “eu enfrentava as pessoas com espírito de gladiador. Nunca recuei de uma aposta.”
Ao longo da vida, também se tornou uma espécie de porta-voz de uma vertente mais tradicional do esporte, ligada às raquetes duras. Em 1997, venceu o torneio nacional inaugural de hardbat nos EUA aos 67 anos, tornando-se a pessoa mais velha a ganhar um campeonato nacional em um esporte de raquete.
Mesmo quando perdeu um desafio para Jimmy Butler, número um do país na época, o episódio reforçou a narrativa que ele gostava de alimentar: a de alguém que não aceitava desaparecer.
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