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Curiosidades

“Sabendo da repercussão, a gente teria escrito um capítulo inteiro sobre a psicanálise”, diz Pasternak

Em 2020, a microbiologista e divulgadora científica Natalia Pasternak se tornou figurinha carimbada no noticiário brasileiro. Em meio a pandemia, ela era convidada para explicar conceitos chave para o momento: o que é o método científico; quais as etapas de fabricação de uma nova vacina; o que são os estudos “padrão-ouro” na ciência.

Pasternak é ativista pelo ceticismo, pensamento crítico e políticas públicas baseadas em ciência. A pesquisadora se dedica a desbancar pseudociências em diversas frentes. O principal exemplo é o Instituto Questão de Ciência, associação fundada por ela em 2018 com o intuito de trazer a ciência ao diálogo nacional.

Em 2023, seu nome voltou ao debate público após a publicação do livro Que Bobagem! Pseudociências e outros absurdos que não merecem ser levados a sério. O conteúdo não foi uma surpresa para quem já conhecia o trabalho de Pasternak, mas suas críticas a algumas práticas – em especial, a psicanálise – gerou debates acalorados.

A pesquisadora também é uma das fundadoras da Lilienfeld Alliance, uma ONG global voltada a promoção do pensamento crítico no ensino superior. Recentemente, a organização venceu o JREF Award de 2025, com um prêmio de US$ 250 mil. Ele é concedido pela James Randi Educational Foundation, que representa o legado do mágico e cético James Randi.

Em entrevista a Super, Natália Pasternak comenta a repercussão de seu livro, práticas pseudocientíficas no SUS e o prêmio recebido pela Lilienfeld Alliance.

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Super: Seu livro Que bobagem!, publicado em 2023, se tornou um best seller. É um feito raro para um uma publicação de ciência, ainda mais escrita por brasileiros. Como você avalia a recepção do livro pelo público?

Natalia Pasternak: Eu e o meu co-autor, o Carlos Orsi, avaliamos muito bem a recepção do livro. Ficamos muito felizes com o sucesso de vendas. Eu acho que isso mostra que existe um grande interesse da população brasileira por essas práticas e por entendê-las melhor. Era exatamente isso o que queríamos promover. O livro teve como objetivo principal colocar esses assuntos no debate público. E eu acho que o desfecho foi fantástico. O debate público realmente abraçou esses novos tópicos, que foram discutidos no Brasil inteiro. Tivemos muita repercussão de mídia, e o livro vendeu bastante, o que mostra que as pessoas têm interesse.

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S: O livro acendeu debates entre pessoas que defendem as práticas abordadas. Você sofreu algum tipo de retaliação após a publicação?

N. P: Olha, tanto eu como o Carlos Orsi, meu co-autor, não diríamos que sofremos retaliações. A gente recebeu críticas que foram, a maior parte delas, de cunho pessoal. E eu acho que esse talvez seja o ponto que a gente gostaria de destacar. A maior parte dos ataques foram pessoais, questionando nossa formação, nosso currículo, nossa capacidade ou autoridade para falar sobre esses assuntos, ou ate mesmo especulando sobre supostas agendas secretas e interesses ocultos. Pouquíssimo foi falado sobre o mérito, sobre os diversos assuntos realmente discutidos no livro, o que mostra uma visão muito rasa do debate, porque foi um debate muito mais sobre pessoas do que sobre ideias. O livro foi lançado com o objetivo de discutir ideias, mas infelizmente muitas das críticas recebidas foram sobre pessoas, sobre os autores do livro e não sobre as ideias que o livro gostaria de discutir.

 S: Na sua opinião, por que algumas pessoas têm dificuldade em reconhecer essas práticas como pseudociências?

N. P: Talvez porque elas nunca tenham recebido explicações, como a gente realmente fez o esforço de explicar no “Que Bobagem”, para mostrar a origem histórica dessas práticas, por que elas se tornaram populares e por que elas parecem que funcionam. Da mesma forma, o livro também explica como que nós sabemos que essas práticas não funcionam, por que nós sabemos que não funcionam, como foram testadas, quais são as evidências, como essas evidências foram obtidas e qual é o problema de as continuar usando. Elas podem fazer mal? São inócuas? É só divertido? Ou realmente estas praticas podem ser prejudiciais e colocar pessoas em perigo? Então, o livro serviu para isso, para realmente explicar o que são exatamente essas práticas e por que elas são consideradas pela ciência como práticas pseudocientíficas. É importante ressaltar que “pseudocientífico” não é um termo pejorativo, e sim algo que parece ciência, mas não é. Que as pessoas acham que é ciência, porque tem uma aura de ciência, tem uma cara de ciência, mas, como a gente explica no “Que Bobagem”, não são consideradas científicas, porque não passaram pelo crivo do método científico. 

S: Se pudesse voltar no tempo, você mudaria algo no livro?

N. P: É sempre mais fácil olhar no retrovisor. Quando a gente escreveu o livro, a gente procurou incluir nos 12 capítulos práticas que são populares no Brasil, que fazem sentido para o público brasileiro e que nós, como autores e brasileiros, achávamos que precisavam ser mais bem detalhadas e explicadas. Se a gente soubesse, naquela época, que uma dessas práticas, que estava incluída em um dos capítulos – a psicanálise, que é apenas um dos tópicos do capítulo de psicoterapias -, daria tanta repercussão, eu acho que a gente teria dedicado mais tempo e espaço para explorá-la com mais detalhes, com um pouco mais de informação para dar ao leitor. Eu acho que a gente acabou, talvez, fazendo um erro de cálculo ao abordar a psicanálise como uma das práticas dentro do capítulo de psicoterapias… Se fosse hoje, tendo esse feedback, a gente falaria, “não, essa prática merece um capítulo inteiro só para ela”, assim como a gente fez um capítulo inteiro, por exemplo, para a homeopatia, no qual a gente teve espaço para escrever com mais detalhe e disponibilizando mais informação.

S: Quais práticas e procedimentos não deveriam ser financiados pelo SUS?

N. P: Aqueles que não têm lastro em evidência científica e, portanto, carecem de comprovação de eficácia e de custo-benefício para fazer parte de um sistema público de saúde que é, afinal, financiado com dinheiro de impostos. Então, tudo que vai para o SUS, seja medicamento, tratamento, estratégia, deve ter comprovação científica de que funciona e de que oferece resultados financeiramente justificáveis para compor um sistema público de saúde sustentável, que beneficie o maior número de pessoas.

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S: Na sua opinião, essas práticas permanecem no sistema público por serem populares ou porque os tomadores de decisão não as reconhecem como pseudocientíficas?

N. P: Me parece que os tomadores de decisão não usam a evidência científica com o peso que deveriam para incluir ou não incluir essas práticas no SUS. A popularidade, então, acaba entrando com um critério, mas muito mais a percepção da popularidade ou mesmo o lobby dos profissionais que oferecem essas práticas. Acho que um bom exemplo disso é a geoterapia, que é uma das 29 PICs (Práticas Integrativas e Complementares) que estão no SUS, e que historicamente está conectada ao lobby das cidades termais de Minas Gerais, que oferecem os banhos de lama, os banhos medicinais. Então, ter essa prática reconhecida no SUS acaba sendo uma vantagem até para o turismo dessas cidades, de modo que, muitas vezes, não é a prática que é popular em si – imagino que grande parte das pessoas do Brasil não sabem que existe geoterapia como uma prática no SUS –, mas os profissionais que oferecem essas práticas que fazem lobby e acabam conseguindo, então, incluí-las no SUS. Isso traz benefícios para eles.

 S: Diferentes medicamentos podem funcionar ou não dependendo do indivíduo, e mesmo assim são financiados pelo sistema público de saúde. Ao mesmo tempo, sabemos que o efeito placebo é real e pode trazer resultados benéficos para algumas pessoas. Isso não justificaria sua permanência no SUS?

N. P: A realização de testes clínicos randomizados e controlados com grupo placebo, que é o padrão ouro exigido pela Anvisa e por outras agências regulatórias mundo afora, é a única maneira de garantir que um medicamento ou tratamento funciona de modo consistente para o maior número de pessoas. Então, quando você testa o medicamento e ele se mostra consistentemente e estatisticamente eficaz, mais do que um grupo controle, ou mais do que um placebo, então esse é um medicamento que vai beneficiar o maior número de pessoas possível. Ou seja, mesmo que haja diferenças individuais, sabemos que ele será eficaz para a grande maioria das pessoas, porque foi testado de uma maneira consistente e com uma estatística que é significativa.

O efeito placebo existe? Sim, existe, mas ao contrário de um remédio, estratégia ou tratamento que funciona de maneira consistente para o maior número de pessoas, o placebo é instável, é inconsistente e não trata o problema. Placebo mascara os sintomas. Você não vai poder usar um placebo para tratar um câncer. No máximo, a pessoa vai sentir menos dor, dependendo do quanto ela é suscetível ao placebo. Esse efeito placebo pode, inclusive, ser muito prejudicial, porque ele pode mascarar sintomas que serviriam para um diagnóstico – muitas vezes, um diagnóstico precoce de uma doença grave, que se for tratada rapidamente, pode ter um desfecho positivo. Mas se você demorar muito para perceber, porque existe um efeito placebo que está mascarando sintoma, o desfecho pode ser negativo. Então, o placebo é inconsistente, instável e não é confiável, pois pode ser prejudicial.

S: Por que é tão difícil construir políticas públicas com base na ciência?

N. P: Porque é preciso promover, como o Instituto Questão de Ciência faz, um entendimento de como são geradas as evidências científicas que vão garantir que essas políticas públicas beneficiem o maior número de pessoas, principalmente na saúde. Então, é um trabalho de informação que tem que ser constante, didático e informativo tanto para o grupo de pessoas que tomam decisões nesses campos quanto para a população em geral, para que as pessoas se sintam amparadas de que as evidências científicas estão sendo levadas em conta para garantir a saúde pública e a saúde dos indivíduos.

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S: Você pode explicar o que é e como surgiu a Lilienfeld Alliance?

N. P: A Lilienfeld Alliance nasceu da iniciativa de um grupo de professores universitários dos Estados Unidos que sentiram a necessidade de contar com uma estrutura mais organizada para apoiar o ensino de pensamento crítico e racional no ensino superior. Isso porque existem várias pesquisas que mostram que mesmo alunos nos chamados Science Majors – ou seja, cursos de ciência como biologia, química e física –, que quando saem da faculdade, muitas vezes não têm bem desenvolvidas estratégias de pensamento crítico. São alunos que saem da universidade acreditando em práticas sem evidência, práticas pseudocientíficas, muitas vezes porque não estudam estes conteúdos de forma específica, com uma abordagem crítica.

S: Qual é a importância do prêmio concedido pela James Randi Educational Foundation?

N. P: O prêmio concedido pela James Randi Educational Foundation é extremamente importante porque não é um grant qualquer, em que os interessados concorrem e os vencedores devem prestar contas e cumprir metas. Nós não concorremos para ganhar esse prêmio. Nós fomos escolhidos por mérito. Então, o que a James Rand Educational Foundation faz é escolher uma pessoa ou instituição que se destacou no trabalho de promoção de pensamento crítico e racional em educação e oferece o prêmio para que o escolhido continue seu trabalho. Então, essa é a importância do prêmio. É um reconhecimento do trabalho da Lilienfeld Alliance na educação, no ensino superior, e é realmente um prêmio no sentido de “presente”, como o nome diz. É algo que nós recebemos pela importância do nosso trabalho.

 S: De que forma o valor de US$ 250 mil do prêmio será utilizado?

N. P: Trata-se de um valor substancial que será extremamente útil para que a gente continue com o trabalho da Aliança, que atua para conectar professores universitários nos Estados Unidos e no resto do mundo que estejam oferecendo cursos e programas de pensamento crítico. Também utilizaremos o valor para oferecer uma conferência anual em que a gente possa trazer todas essas pessoas para promover uma troca de ideias e colaborações científicas. E investir em mais pesquisa nessa área, para que a gente tenha mais dados e mais evidências sobre a importância do pensamento crítico no ensino superior. O objetivo é descobrir o que está faltando, onde a gente está errando, se falta material de apoio, se faltam livros de referência etc., para que a gente possa reforçar esse ensino. Então, esse prêmio foi muito bem-vindo e será muito bem utilizado.

S: Gostaria de deixar alguma última mensagem?

N. P: Pegando o gancho novamente do prêmio da JREF, gostaria de ressaltar a importância do ensino de pensamento crítico, não somente no ensino superior, mas desde o ensino fundamental e médio. No mundo de hoje, com o excesso de informação e desinformação que circulam em todos os ambientes digitais, é essencial dar ferramentas para que os jovens desenvolvam filtros para estas informações, que permitam tomar decisões melhores, informadas e seguras.

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augustopjulio

Sou Augusto de Paula Júlio, idealizador do Tenis Portal, Tech Next Portal e do Curiosidades Online, tenista nas horas vagas, escritor amador e empreendedor digital. Mais informações em: https://www.augustojulio.com.