Evidência mais antiga de caça a baleias do mundo pode estar no Brasil
A caça às baleias, também chamada de baleação, sempre esteve associada às águas geladas do norte do globo. Japão, Islândia e Noruega são os países que mais capturam esses mamíferos atualmente – mesmo sendo uma prática ilegal na maior parte do mundo. Pesquisas geralmente associam as primeiras práticas de caça às baleias a regiões frias.
Por isso, foi uma surpresa quando um grupo de pesquisadores internacionais encontrou a evidência mais antiga de baleação não no hemisfério norte, mas sim na costa brasileira. No artigo publicado na última sexta-feira (9), eles descrevem arpões de 5 mil anos feitos de ossos de baleia, usados pelos habitantes do território para pescar. O estudo está disponível no periódico Nature Communications.
Pesquisadores já haviam encontrado ossos de baleia em sítios arqueológicos da América do Sul anteriormente. No entanto, acreditava-se que eles vinham de caças oportunísticas ou de carcaças depositadas na praia pela maré. “O consenso era que pessoas que viviam na costa brasileira estavam apenas coletando animais largados, porque ninguém havia encontrado grandes arpões antes”, diz André Carlo Colonese, arqueólogo da Universidade Autônoma de Barcelona e coautor do estudo, à Science.
Os arpões foram preservados em sambaquis: depósitos em formato de monte construído por antigos habitantes da região. Podendo chegar a 10 metros de altura, os sambaquis acumulam conchas e restos orgânicos, sendo um importante registro arqueológico de populações que viveram ali. Mais de 200 desses depósitos existiam na Baía de Babitonga, no litoral norte de Santa Catarina. Era lá que os arpões se escondiam.
Só que eles não foram retirados de lá recentemente. Entre os anos 1940 e 1950, quando o Brasil desenvolvia sua malha rodoviária, os sambaquis da Baía de Babitonga foram usados como fonte de cal para concreto. À medida que os montes eram desmontados, alguns artefatos surgiam. Na época, o arqueólogo amador Guilherme Tiburtius coletou ossos e itens que poderiam ser de interesse científico no local. Depois, doou mais de 9 mil desses objetos ao Museu Arqueológico do Sambaqui de Joinville (MASJ).
Os artefatos ficaram guardados no museu por décadas, sem que houvesse um trabalho profundo de identificação e caracterização dos itens. Situações assim, aliás, são comuns na arqueologia: muitas “descobertas” são feitas com base em peças que já estão nos museus, esperando uma pesquisa mais aprofundada.
Os arpões foram identificados pela arqueóloga molecular Krista McGrath, da Universidade Autônoma de Barcelona, em colaboração com a arqueóloga Tatiane Andaluzia, da Universidade Federal do Paraná. Segundo McGrath, os ossos de baleia estavam em caixas empoeiradas no museu. No momento em que a pesquisadora viu ossos retos, do tamanho de um antebraço e com pontas afiadas, ela soube que se tratava de arpões.
Os fragmentos de ossos lembravam ferramentas de baleação encontradas em sítios arqueológicos sul-americanos mais recentes. A diferença é que esses arpões eram usados bem antes, por volta de 2.900 a.C. Eles eram acoplados a bexigas de ar, o que impediria a baleia de mergulhar após ser atingida.
Extraindo as proteínas dos ossos dos arpões, os pesquisadores identificaram que a maioria deles pertencia à espécie baleia-franca-austral. Elas se movem lentamente e são conhecidas por acasalar e criar os filhotes próximo à costa no hemisfério sul. A presa perfeita para os antigos caçadores sul-americanos em barcos rudimentares.
Caçar uma baleia capaz de destruir um barco de pesca não era uma tarefa fácil. Mas o risco compensava. Caso conseguissem capturar o animal, os caçadores voltariam para casa com toneladas de comida e prestígio eterno. Os registros do museu mostram que, em alguns sambaquis, foram encontrados arpões enterrados ao lado de esqueletos que possivelmente de caçadores respeitados.
Como todo grande divisor de águas na ciência, ainda são necessárias mais pesquisas para confirmar a descoberta. Sem problemas: os museus estão cheios de material esperando para serem estudados.
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