Universidades americanas costumavam tirar fotos de seus estudantes pelados
Na década de 1910, uma prática estranha começou em algumas universidades dos EUA: tirar fotos de seus calouros completamente nus. No começo do ano, os alunos eram chamados ao ginásio de esportes, despiam-se e tinham todas as suas partes do corpo medidas, dos tornozelos à circunferência da cabeça. Além dessas informações, os alunos também eram questionados sobre hábitos, doenças pregressas e histórico de saúde familiar.
As faculdades adeptas eram as mais prestigiadas, como Harvard, Yale e Boston. Cada uma tinha seu jeito de tirar as fotos, mas o enquadramento completo, mostrando todo o corpo, era o mais comum, principalmente após a primeira década. Em algumas poucas instituições, as mulheres eram autorizadas a cobrir o rosto com um lenço, impossibilitando sua identificação imediata.
Mas isso não era tudo: com o tempo, passaram a ser colocadas nas costas dos estudantes hastes metálicas que se projetavam para fora como uma crista. Os apetrechos, em teoria, permitiam observar melhor a curvatura das costas e detectar problemas como escoliose.
“Fui levado a uma sala sem janelas em um andar superior, onde homens vestidos com impecáveis roupas brancas me instruíram a tirar toda a minha roupa”, contou em 1995 o jornalista Ron Rosenbaum numa importante reportagem do The New York Times sobre o assunto. “E então — e esta é a parte que ainda me custa a acreditar — eles fixaram pinos de metal na minha coluna. Não houve perfuração da pele, apenas da dignidade, já que os pinos de metal de dez centímetros foram fixados com adesivo nas minhas vértebras em intervalos regulares, do pescoço para baixo. Fui posicionado contra uma parede; um holofote iluminou meu perfil repleto de pinos e uma câmera registrou a cena”, contou ele.
Como as faculdades, em geral, eram single-sex, restritas apenas a homens ou apenas a mulheres, a prática não era considerada tão estranha, pelo menos no começo. E foi tão disseminada que muitas figuras públicas foram submetidas a ela, como os presidentes estadunidenses Franklin Roosevelt, John F. Kennedy e George Bush (pai), assim como celebridades como a atriz Meryl Streep e as escritoras Sylvia Plath e Nora Ephron.
Mas, afinal, por quê?
Os motivos
Antes de as fotos começarem a ser tiradas, os alunos já eram submetidos a medições, pesagem e questionários desde 1880 — as imagens foram apenas mais uma etapa dessa jornada. E tudo tinha um principal motivo: checagem de postura. Nessa época, final do século 19 e começo do 20, a boa postura era considerada um sinalizador de virtude, um traço que permitia aferir a qualidade social de um indivíduo. Mas esse conceito, em que uma característica física ganha valor moral, tem um nome bem conhecido hoje em dia: eugenia.
Da década de 1890 até a Segunda Guerra Mundial, a eugenia era ensinada como ciência nas faculdades dos EUA. Existia até um órgão público, o Escritório de Registros Eugênicos (Eugenics Record Office) que coletava dados dos cidadãos, inclusive batendo de porta em porta, e estabelecia os traços considerados desejáveis e os classificados como “degenerados”.
“Por meio de avaliações moralmente carregadas dessas características, os pesquisadores eugênicos estabeleceram uma linha divisória clara — ou limite — que bifurcou a nação entre as linhagens familiares que deveriam e as que não deveriam ter permissão para se reproduzir ou entrar no país”, afirma a pesquisadora Susan McKinnon em artigo sobre o tema.
A maioria dos alunos, tanto do primeiro ano quanto dos anos avançados, obtinha uma nota B ou C em relação à sua postura, com base nas fotos nuas. Isso implicava em duas coisas: primeiro, a recomendação de exercícios corretivos. Segundo, a tiragem de mais fotos para avaliar a evolução da postura, de modo que um mesmo estudante passava pelo ritual várias vezes ao longo da sua vida acadêmica.
A situação era piorada pelo machismo da época. “Henry Pickering Bowditch, que coletou dados biométricos no início do século 20 para o estado de Massachusetts, relatou que as mulheres eram fotografadas e medidas 50 vezes mais frequentemente do que os homens, cujas posturas eram consideradas muito superiores”, conta a pesquisadora Kris Belden-Adams em artigo sobre o tema. “Muitas vezes, o uso de espartilho era culpado pela má postura, embora fosse esperado das mulheres”.
Na reportagem do Times, o professor de Yale George Hersey (já falecido) falou abertamente sobre o tema: “Desde o início, o propósito dessas ‘fotografias de postura’ era eugênico. (…) A verdadeira solução era promover uma melhor reprodução — juntar aqueles homens de Exeter e Harvard com suas correspondentes moças de Wellesley, Vassar e Radcliffe”, contou.
Quando a Segunda Guerra Mundial eclodiu, o apreço de Hitler pela eugenia fez com que essa pseudociência caísse de moda nos EUA. Mas as fotos nuas dos estudantes ainda persistiriam por décadas.
Um psicólogo com ideias tortas
Na década de 1940, as universidades começaram a fornecer as fotos nuas para um psicólogo chamado William Herbert Sheldon, que, por décadas, usou as imagens para pesquisa sem o consentimento dos estudantes ou seus pais.
Eugenista de carteirinha, Sheldon era meio que uma celebridade na época. Ele havia publicado diversos textos e estudos defendendo hierarquias raciais e afirmando que certos grupos não brancos seriam biologicamente inferiores, além de sustentar que, por meio de uma medição sistemática das características físicas de uma pessoa, seria possível determinar sua inteligência e seu temperamento.
Sheldon estabeleceu três perfis físicos, que chamou de “somatotipos”: os endomorfos (obesos), os mesomorfos (musculosos) e os ectomorfos (magros e esguios). Para cada um, determinou um tipo de personalidade.
Os endomorfos seriam mais relaxados e afetuosos, os mesomorfos mais agressivos e os ectomorfos, mais introvertidos e sensíveis. Essa conexão entre características físicas e personalidade ficou conhecida como “psicologia constitucional” e virou moda nos EUA. As revistas publicavam guias e testes para que os leitores descobrissem qual era seu tipo.
Tudo isso ajudou Sheldon a ter acesso às fotos das universidades. Por cerca de 20 anos, ele coletou dezenas de milhares de imagens de estudantes nus, as quais usou para refinar sua pesquisa sobre somatotipos. Esse estudo culminou em um livro: Atlas of Men (1954), com centenas de fotos de homens jovens despidos.
O fim
Sheldon também queria fazer um Atlas of Women, com mulheres, e foi aí que sua derrocada começou. Em 1950, ele foi a Seattle, onde começou a tirar fotos das estudantes na Universidade de Washington. Uma das garotas reclamou com os pais, que tomaram medidas legais. No dia seguinte, um grupo de advogados invadiu o escritório de Sheldon, confiscou todas as fotos de mulheres nuas e as queimou.
Isso iniciou um debate: a pesquisa de Sheldon era legítima ou só pornografia disfarçada de ciência?
Nos anos 1960 e 1970, a prática das fotos de postura começou a ser gradualmente abandonada pelas universidades. Boa parte dos acervos foi destruída, mas o arquivo pessoal de Sheldon, com dezenas de milhares de fotos, permaneceu com ele até sua morte, em 1977. O psicólogo passou seus últimos anos em decadência, tentando completar a pesquisa para seu Atlas of Women (ele queria juntar 20 mil imagens), porém agora ignorado por toda a comunidade acadêmica.
Seu assistente, Roland D. Elderkin, tentou repassar as fotos para as respectivas universidades, mas elas não quiseram o material de volta. “Eu estava tentando convencer uma pessoa em Brown a aceitá-los, e ele disse: ‘Aquela sujeira? Nós já queimamos as fotos que tínhamos’”, declarou ele a Ron Rosenbaum.
Quem aceitou receber o acervo foi o Instituto Smithsonian, um complexo de museus e centros de pesquisa, que deixou as fotos acessíveis a pesquisadores que fizessem solicitação formal. Após a polêmica levantada pelo artigo do New York Times em 1995, todas as fotos foram destruídas.
Hoje, sabemos que a pesquisa de Sheldon não tinha pé nem cabeça: além de não levar em conta fatores ambientais e culturais e as mudanças causadas pelo envelhecimento, havia erros nas medidas, inconsistências nos resultados apurados e muita subjetividade na avaliação feita nos indivíduos testados.
Hoje, os somatotipos ainda são usados na área de fitness e saúde, mas são aferidos com testes reais, e não com base em apenas observar fotos. Além disso, sabemos que a presença de determinado somatotipo não tem nada a ver com a personalidade da pessoa.
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