“Assombrou minha existência por décadas”: os relatos de quem sofre de paralisia do sono
Texto Victor Bianchin | Design e colagens Carlos Eduardo Hara
“Era março de 1992, Carnaval. Eu tinha 13 anos e estava na casa da minha madrinha, dormindo numa esteira no chão da sala, junto com meu irmão mais novo e meu primo. Estava em meio a um sonho onde era levado para um palácio de cristal no fundo do mar. No sonho, foi-me dito que era o palácio de Yemanjá, a orixá rainha dos mares. Quando eu estava prestes a chegar aos portões do palácio, despertei.”
“Mas não consegui abrir os olhos, nem sequer mexer um músculo do meu corpo. Tive a impressão de estar sufocando, de estar ficando sem ar. Todo o meu corpo parecia estar sob um misto de tremor e dormência, mas a sensação mais angustiante, ao lado da dificuldade para respirar, era a pressão no peito. Era como se alguém estivesse pisando com força sobre o meu tórax, me impedindo de me mexer, de respirar direito. Ao mesmo tempo, sentia um torpor me puxando, me empurrando para um sono profundo que, na minha cabeça de menino assustado, estava me levando para a morte. Logo percebi que, quanto mais eu tentava movimentar alguma parte do meu corpo, mais o misto de tremor e dormência se intensificava, mais a pressão no peito se acentuava.”
“Não posso precisar por quanto tempo esse episódio durou. Alguns minutos, com certeza. Quando finalmente recuperei os movimentos do corpo, me levantei de supetão, buscando ar e tentando me livrar do sono profundo que ainda me puxava. Eu contei tudo ao meu irmão e ao meu primo, mas eles só riram. Mais tarde, os adultos também não deram muita importância.”
O relato acima é do antropólogo Eduardo (nome fictício), 46 anos, e foi o primeiro caso que ele viveu de paralisia do sono. Naquela noite, provavelmente não foi o único a despertar dentro de um pesadelo: 7,6% da população mundial sofre desse mal (1). Os primeiros casos costumam aparecer entre a infância e o começo da vida adulta. A frequência de episódios pode aumentar conforme a idade avança.
Em 2018, uma revisão sistemática (estudo que analisa uma série de outros estudos) observou que a prevalência de paralisia do sono nos grupos avaliados variava radicalmente – algumas pesquisas indicavam apenas 2%, outras chegavam a 60% (2). Isso acontece porque não existe um método padrão-ouro para medir paralisia do sono: cada estudo usa critérios, definições e perguntas diferentes.
Outro problema é que a terminologia também não é precisa: paralisia do sono é um sintoma comum de narcolepsia, que é uma desordem neurológica que causa, entre outros sintomas, excesso de sonolência durante o dia. Quando o distúrbio acontece, mas o paciente não é narcoléptico, alguns cientistas preferem usar o termo paralisia do sono isolada. E ainda existe o termo paralisia do sono isolada temerosa quando os episódios causam sensação exacerbada de medo na pessoa.
Para Eduardo, o que se seguiu depois do primeiro caso foram anos de perturbação pela mazela, em parte pelo desconhecimento dos adultos ao seu redor, mas também por associar os acontecimentos a uma possível punição divina por sentir atração por pessoas do mesmo sexo. “Ali, se iniciava um ciclo que assombraria a minha existência por décadas”, diz ele.
Os gatilhos
Não existe um único grande responsável pela paralisia do sono: a condição é resultado de uma série de fatores, que podem ou não estar agindo em conjunto. Um deles é a genética: os cientistas já sabem que a incidência é maior entre pessoas que têm familiares com o problema. Um estudo recente (3) com gêmeos e irmãos adultos no Reino Unido estimou que fatores genéticos correspondem a 53% do risco de episódios de paralisia do sono.
No entanto, há diversas outras possíveis causas (4): a já citada narcolepsia, hipertensão, apneia do sono, privação do sono, consumo de álcool e/ou drogas, estresse, cansaço, trauma e outros. Diversos estudos apontam que, quanto pior a qualidade do sono da pessoa, maiores as chances de um episódio de paralisia do sono.
A ansiedade com algum grande evento também pode desencadear o distúrbio. Foi o que aconteceu com Anderson (nome fictício), de 22 anos, estudante de economia. Quando tinha 14, ele se viu ansioso demais para uma prova da escola e acabou vivenciando seu primeiro episódio. A partir daí, em “momentos de muito estresse”, a paralisia do sono voltou a aparecer.
Como é um episódio
O sono humano tem quatro fases, que se repetem em ciclos. Uma delas é a REM (sigla de rapid eye movement, “movimento rápido dos olhos”), que acontece várias vezes ao longo da noite, com duração cada vez maior. É nela que os sonhos são mais comuns e vívidos e em que há uma atividade de ondas cerebrais parecida com aquela de quando você está acordado.
Durante o sono REM, neurotransmissores inibem o tônus muscular – a tensão inconsciente dos músculos que atua, por exemplo, para sustentar nossa postura quando estamos acordados. O tônus ainda fica ligado em outras fases do sono (por isso algumas pessoas se mexem bastante na cama). Já na hora do sonho, é melhor que essa chavinha esteja desligada.
“É algo necessário para que não comecemos a encenar nossos sonhos e possamos nos lesionar durante o sono”, explica Vinícius Dokkedal Silva, doutor em medicina e biologia do sono pela Universidade Federal de São Paulo e pesquisador do Instituto do Sono (SP). O problema é quando o tônus muscular demora a ser restabelecido. Esse é o atraso que ocorre na paralisia do sono.
Dessa forma, a pessoa desperta do sono, mas não consegue se mexer, o que pode gerar medo e apreensão. É muito comum que os afetados sintam um peso em seu peito ou em suas costas, dependendo da posição em que dormem.
É exatamente o que relata a designer gráfica e docente Juliana Lobo, que convive com o problema desde os 10 anos de idade. “A sensação é como se eu acordasse parcialmente: percebo tudo ao meu redor, enxergo o ambiente e, se houver pessoas, consigo até vê-las e ouvir o que estão dizendo”, conta ela. “Mesmo assim, de alguma forma, eu sei que ainda estou dormindo e que preciso despertar de verdade. O problema é que não consigo. É como se uma força me puxasse de volta todas as vezes que tento acordar, como se houvesse uma presença no ambiente me impedindo.”
Um estranho no escuro
O estado de imobilidade é apenas um dos sintomas da paralisia do sono. Em 75% dos casos, os afligidos também relatam alucinações, com a forte sensação de estar sendo observados por alguma figura sombria no quarto.
“Me sinto paralisado, conseguindo mover só os olhos e vendo tudo ao redor. Também ouço coisas. Por duas vezes, já ouvi barulhos sobrenaturais, mas com a consciência de que se tratava de uma paralisia”, relata Anderson.
Quando foi entrevistada pela Super, Juliana Lobo havia acabado de viver seu episódio mais marcante de paralisia do sono. “Sempre existe a sensação de uma presença no ambiente, como algo espiritual. Dessa última vez, porém, foi diferente. Eu não apenas senti a presença: eu estava deitada e era como se alguém realmente me abraçasse. Cheguei a ver os braços, a pele e as mãos. Ouvi uma voz, mas não consegui compreender o que era dito. Tudo ficou ainda mais real e perturbador. Foi uma das vezes em que tive mais dificuldade para reunir forças e acordar. Foi uma experiência que mexeu profundamente comigo.”
“Há a possibilidade de algumas pessoas verem o que chamamos de alucinação hipnagógica – figuras, vultos, elementos tipicamente presentes em sonhos, mas que, por alguns segundos ou minutos, podem ser percebidos logo após a pessoa acordar”, diz Silva. “Com a presença dessas alucinações e a impossibilidade momentânea de se moverem, muitas pessoas entram em pânico.”
Assim como Eduardo, nos primeiros anos, Juliana associava a paralisia do sono a alguma questão espiritual. “Só fui compreender o que aquilo realmente era quando li uma reportagem sobre o tema e vi vários depoimentos de pessoas que passavam por experiências muito parecidas com as minhas”, diz a designer. “Foi nesse momento que descobri que aquilo tinha um nome e que muitas outras pessoas também viviam exatamente o que eu vivia.”
Terror no alvorecer
Os episódios de paralisia do sono podem ser tão aterrorizantes que, ao longo dos séculos, diversas culturas só conseguiam encontrar uma explicação para eles no sobrenatural (5). O responsável costumava ser descrito como um demônio ou similar, especializado em esgueirar-se para dentro dos quartos à noite e procurar pessoas adormecidas para atormentar.
Os mesopotâmicos, por exemplo, costumavam atribuir ao demônio Alû uma ampla variedade de mazelas humanas, incluindo o que hoje se interpreta como paralisia do sono. No folclore escandinavo, um demônio chamado Mare sentava-se no peito das pessoas à noite, trazendo pesadelos. Entre os turcos, quem vinha era o Jinn, que estrangulava as pessoas durante o sono. Para os tailandeses, o espírito Phi Am vinha e se sentava no peito dos adormecidos, causando asfixia.
Em 1982, um famoso estudo do folclorista estadunidense David Hufford associou a paralisia do sono ao mito da “Old Hag”, presente em toda a cultura norte-americana: uma espécie de bruxa que deixa seu corpo físico à noite e senta no peito das pessoas.
“Desde então”, relata o historiador Alan Lenzi em seu livro Suffering in Babylon (“Sofrimento na Babilônia”, sem tradução para o português), “outros pesquisadores investigaram muitas culturas ao redor do mundo ao longo da História e encontraram algum ser não óbvio, como um fantasma, um demônio, uma bruxa ou, recentemente, um extraterrestre, associado a uma experiência que é comparável às características clínicas descritas”.
A representação mais famosa dessas crenças pré-científicas é a pintura O Pesadelo, de 1781, do artista suíço Henri Fusel (veja abaixo). Ela retrata uma jovem desmaiada em sua cama, enquanto um íncubo (espírito maligno) se agacha sobre seu estômago e encara o espectador, quebrando a quarta parede, como se desafiasse o público a interromper seu ritual de tortura.

Como lidar
De acordo com o doutor Vinícius Dokkedal Silva, a paralisia do sono não é tratada como doença, portanto não existe uma forma exata de como lidar com ela. “É um fenômeno que pode ocorrer com qualquer pessoa, ao menos uma ou duas vezes ao longo da vida”, explica ele.
Ainda assim, para casos mais graves, existe a possibilidade de intervenção medicamentosa. “O tratamento deve ser realizado com cautela e apenas em casos mais graves, ou seja, aqueles com maior recorrência de episódios, algo mais comum entre pacientes com narcolepsia”, diz Silva. “Opções possíveis incluem antidepressivos, como a venlafaxina, e estimulantes. Entre indivíduos que não possuem narcolepsia, os componentes que desencadeiam o episódio de paralisia do sono merecem atenção prioritária, sejam eles o estresse e cansaço excessivos ou o consumo de drogas.”
As pessoas ouvidas pela Super têm formas diversas de lidar com o problema. “Para sair, eu tento acordar várias vezes”, diz Fernanda. “A cada tentativa, eu me esforço para levantar, mas sou vencida. Tento de novo, falho novamente, até que, em algum momento, faço uma força tão grande que consigo sair. Por isso, é tão cansativo. Fico extremamente exausta. Quando acordo de verdade, a sensação é como se eu tivesse corrido uma maratona.”

“Nunca fiz tratamento”, conta Eduardo. “Durante a faculdade, cheguei a procurar ajuda médica. Mas o neurologista que me atendeu não deu a devida atenção e, de posse dos resultados do meu encefalograma, sem me consultar, me indicou para uma cirurgia de lobotomia [que Eduardo ignorou]. Depois desse episódio, me informei por conta própria à medida que ia avançando na minha formação como cientista, embora não na área da saúde. Ainda tenho guardado o primeiro artigo especializado que li sobre o assunto.” O estudante Anderson também nunca procurou ajuda médica e diz que apenas espera a paralisia passar naturalmente.
O futuro pode ser promissor para quem sofre desse mal. Um estudo de 2024 na Tchéquia (6) sugere que estruturas do cérebro como cerebelo e ponte (regiões que participam da regulação do sono REM e suas transições) podem apresentar diferenças morfológicas (ou seja, de formato) em pessoas que costumam ter paralisia com frequência. Se for verdade, isso indica que o problema pode ter um mecanismo físico envolvido, abrindo novas possibilidades para a investigação médica – um caminho para que milhões de pessoas não sintam mais medo ao colocar a cabeça no travesseiro.
Fontes (1) artigo “Sleep paralysis”; (2) artigo “A systematic review of variables associated with sleep paralysis”; (3) artigo “A twin and molecular genetics study of sleep paralysis and associated factors”; (4) artigo “Recent insights into sleep paralysis: Mechanisms and management”; (5) artigo “Sleep paralysis and folklore”; (6) artigo “Morphological characteristics of cerebellum, pons and thalamus in reccurent isolated sleep paralysis – A pilot study”.
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