O que 100 astronautas foram fazer em Mogi das Cruzes
Parece o começo de uma piada: “100 astronautas entram num bar”. Neste caso, o bar era um hotel em Mogi das Cruzes (SP), cidade a uma hora e meia de carro de São Paulo.
Não se tratava de um rolê espontâneo, claro. No início de novembro, O resort de luxo Club Med Lake Paradise recebeu o 36° Encontro Internacional de Astronautas, congresso anual idealizado pela Associação de Exploradores Espaciais (ASE, na sigla em inglês).
É a primeira vez que o evento acontece na América Latina. Estiveram presentes gente da NASA, ESA (Agência Espacial Europeia), JAXA (Agência Espacial Japonesa), além das agências espaciais turca, canadense, chinesa e a caçula Agência Espacial dos Emirados Árabes Unidos, criada em 2014. No total, 20 países participaram do congresso.
Ao longo da estadia, alguns astronautas conheceram – e se encantaram – pelo acelerador de partículas campinense Sirius, foram à Bertioga ver o litoral e visitaram escolas. Também cumpriram agenda, claro, em São Paulo.
Durante uma semana, entre os dias 3 a 7 de novembro, os astronautas divulgaram atualizações sobre as atividades humanas no espaço e apresentaram os planos futuros das agências espaciais que representam. Além disso, foram responsáveis por paineis para a apresentação de outros projetos que estão sendo desenvolvidos a partir das experiências espaciais.
A Super foi a Mogi e acompanhou o evento no dia 6, quando as agências divulgaram os relatórios de missões espaciais, tanto as que aconteceram este ano quanto previsões para os anos seguintes.
A agência japonesa JAXA abriu a rodada de informes com uma apresentação de Takuya Onishi, que destacou a ampliação das pesquisas envolvendo materiais em microgravidade e a condução de experimentos com sólidos, gases e medições em altas temperaturas. Onishi também detalhou o progresso da espaçonave HTV-X, evolução do veículo de carga utilizado para abastecer a ISS.
A nova versão promete entregar cargas maiores – até 5,8 toneladas – e operar com custos reduzidos, além de incorporar melhorias em armazenamento e participação em testes de novas tecnologias. A atualização ocorre em um momento em que a agência mantém dois astronautas ativos e prevê novas operações entre março e agosto de 2026.
A NASA reforçou o foco no voo com humanos e na preparação para a próxima fase da presença norte-americana no espaço. Entre os avanços recentes, a agência destacou a instalação de uma placa solar dobrável na ISS, além da realização da quinta caminhada espacial conduzida por duas mulheres.
Mesmo enfrentando limitações de financiamento, a agência anunciou três novos astronautas e relatou exercícios de treinamento que envolvem helicópteros, testes de resistência, coordenação e tomada de decisões em cenários complexos – preparo fundamental para missões lunares.
A prioridade permanece sendo a missão Artemis II, que marcará o retorno de humanos ao entorno da Lua pela primeira vez desde o programa Apollo (já falaremos mais disso).
A Nasa começa a esboçar também como será o futuro após a desativação da ISS, que para de funcionar em 2030, com o encerramento das operações planejado para o início de 2031. Após décadas de serviço, o fim das operações abre caminho para novas estações espaciais comerciais.
Em sua primeira participação nesse tipo de evento, a Agência Espacial Turca (TUA) apresentou um ambicioso conjunto de metas que simbolizam o rápido crescimento do programa espacial do país.
O programa foi lançado em 2018 e mais de 36 mil candidatos se inscreveram para a seleção de astronautas. A Turquia mira a criação de satélites nacionais, o fortalecimento da indústria tecnológica interna e um futuro programa de pesquisas lunares, incluindo missões mistas e, posteriormente, lançamentos realizados com foguetes próprios.
O planejamento envolve ainda o desenvolvimento de um base de lançamentos nacional e a consolidação de sistemas espaciais que garantam autonomia tecnológica: uma estratégia descrita como essencial para que “o futuro esteja no céu”.
Representando a ESA, o astronauta Andreas Mogensen detalhou um conjunto robusto de iniciativas científicas e operacionais do órgão europeu. Entre elas, o programa ACES, que utiliza relógios atômicos para testar a relatividade com precisão inédita, e o ASIM, focado na observação de jatos atmosféricos que emergem de tempestades.
Mogensen também destacou avanços na impressão 3D em microgravidade, um passo importante rumo à autonomia de manutenção em órbita, reduzindo a dependência de suprimentos enviados da Terra. Com a aposentadoria da ISS, a ESA reforça sua preparação para a era pós-estação, com investimentos em exploração lunar e marciana, expansão de parcerias com o setor comercial e participação estratégica no módulo de serviço da missão Artemis II.
O Programa Artemis, liderado pela NASA e apoiado por uma grande coalizão global, avança como o principal eixo da estratégia contemporânea de retorno à Lua – enquanto outras nações e instituições reforçam seu papel em pesquisas científicas, tecnologia espacial e mitigação do lixo orbital.
O objetivo é claro: estabelecer uma presença humana contínua na Lua como plataforma para missões futuras rumo a Marte. As fases já concluídas e planejadas mostram a complexidade e a ambição do projeto. Artemis I, um voo inaugural não tripulado, validou a robustez do foguete SLS e da cápsula Orion após duas semanas no espaço. A próxima etapa, Artemis II, marcará o primeiro voo tripulado ao redor da Lua em mais de cinco décadas, com participação internacional.

Na sequência, Artemis III promete o tão aguardado retorno humano à superfície lunar, usando o veículo Starship da SpaceX como módulo de pouso. As missões Artemis IV e V avançam ainda mais: levarão à órbita lunar a estação Gateway e, posteriormente, o módulo Blue Moon da Blue Origin, inaugurando uma fase de infraestrutura permanente no satélite natural.
Os parceiros do esforço lunar também apresentaram seus avanços. O Canadá reforçou sua contribuição com tecnologias de saúde em órbita, geração de energia solar e o satélite Wild Fire, dedicado ao monitoramento ambiental – além de trabalhar no futuro de peças essenciais para a Gateway.
O Japão, por sua vez, destacou o desenvolvimento de rovers lunares pressurizados e suas simulações, além de testes de trajes espaciais e a operação de dois pequenos veículos robóticos ativos na superfície lunar, como parte de sua estratégia de presença prolongada na região.
Entre as empresas privadas, a SpaceX reafirmou o papel da Starship como o foguete mais poderoso já construído para transporte de humanos, e que será peça fundamental da Artemis III. Já a Blue Origin apresentou o progresso do foguete New Glenn e do módulo lunar Blue Moon, ambos componentes-chave para Artemis V. A empresa Axiom Space também ganhou destaque, atuando no desenvolvimento dos trajes que serão usados na superfície lunar nas próximas missões.
Fora do eixo Artemis, outras nações mostraram avanços próprios. A China revelou pesquisas de larga escala que permitem voos mais frequentes, iniciativas ecológicas inovadoras – como o cultivo de plantas e experimentos com peixe-zebra em órbita – e novas tecnologias de proteção contra lixo espacial. A agência chinesa também demonstrou interesse crescente em missões futuras para Vênus e Marte, ampliando sua presença no cenário espacial global.
Os Emirados Árabes Unidos reforçaram sua rápida evolução no setor, com equipes de engenheiros desenvolvendo rovers lunares, satélites de observação e missões conjuntas com a NASA, como o programa HERA, dedicado ao estudo dos impactos psicológicos das viagens de longa duração. O país também prepara sua primeira missão autônoma – uma caminhada espacial – e investe em iniciativas para mapear e orbitar o lado oculto da Lua.
A ESA surpreendeu ao concentrar sua apresentação em um tema urgente: o lixo espacial. Representada por Thomas Reiter, a agência destacou a necessidade de regras internacionais para evitar colisões em órbita, já que mais de 15 mil satélites ativos e centenas de milhões de fragmentos circulam ao redor da Terra.
Entre as medidas em debate estão a desativação segura de satélites, a criação de programas para “quarentenar” equipamentos aposentados e a ampliação do monitoramento de detritos que variam de milímetros a metros de diâmetro. A ESA também reportou 41 manobras recentes da ISS para evitar impactos, alertando para os riscos das megaconstelações e para a possibilidade de reações em cadeia.
O dia terminou com a apresentação de projetos desenvolvidos por astronautas já aposentados. Nicole Stott, ex-astronauta da NASA, contou sua experiência de como a arte ajudou em seus momentos de ócio em órbita.
Aqui na Terra, ela decidiu transformar a arte espacial em projeto. Pensou em unir arte, espaço e a cura em um só lugar. Assim nasceu o Space for Art (Espaço pela Arte, em tradução livre), organização que leva um pouco da mágica espacial para crianças em tratamento de câncer pediátrico. As crianças foram responsáveis por pintar o tecido que se tornaria um traje espacial.
O traje decolou, foi fotografado em gravidade zero, usado na ISS e depois virou exposição, junto dos trajes que vieram depois. Outros dois projetos foram apresentados: um que unia música a gravações e fotos espaciais e outro que pretendia colocar uma casinha vermelha no solo lunar.
O dia em Mogi terminou com os astronautas debatendo em sala fechada para a imprensa. No entanto, foi suficiente para que a foto de todos reunidos virasse capa desta matéria.
No dia seguinte, último de evento, a trupe foi ao Memorial da América Latina, onde ocorreu o lançamento do livro colaborativo “Visões do Cosmos” e a cerimônia de encerramento com o concerto “Queremos Paz no Planeta”.
Os exploradores espaciais que conheci garantem: não é porque eles saem do planeta de vez em quando que todos nós devemos abandonar nossa Terra. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Afinal, se não cuidarmos do nosso planeta, para que mundo eles voltariam?
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