Na Rússia, a maioria das pessoas acusadas de bruxaria eram… homens
A ideia da bruxa como uma mulher velha, isolada e rodeada de gatos fazia parte do imaginário popular na Europa do século 16. À medida que avançamos para leste, no entanto, o cenário muda: eram os homens que recebiam olhares tortos da população. Na Rússia, três a cada quatro pessoas acusadas por bruxaria eram do sexo masculino.
Primeiramente, vale um contexto histórico. Ao contrário do que muitos pensam, a caça às bruxas não ocorreu na Idade Média. A perseguição a pessoas acusadas de bruxaria atingiu o auge entre os anos 1530 e 1630, marcando o início da Idade Moderna. Estima-se que 110 mil pessoas tenham sido julgadas por esse crime imaginário, e entre 40 mil e 60 mil tenham sido condenadas.
Nas visões católicas e protestantes da Europa, uma bruxa era alguém que havia feito um pacto com o diabo, participava de orgias na floresta e comia crianças (Para entender como esse mito começou, recomendamos este texto da Super). Na Rússia, por outro lado, predominava o cristianismo ortodoxo, em que os homens eram acusados de enfeitiçar outras pessoas sem necessariamente terem feito um pacto com o tinhoso.
A crença em bruxos, curandeiros e magos aparece em documentos russos dos séculos 12 ao 18, cujas ações gradativamente foram sendo enquadradas como crime. As descrições apontam para uma magia menos satânica e mais usada no dia a dia – por exemplo, para curar feridas ou prejudicar o negócio do concorrente. Dizia-se que eles também usavam “poções” com ervas, pedaços de animais e até terra de cemitério.
Nos supostos feitiços, os bruxos russos mencionavam seres sobrenaturais, que iam de Jesus e Maria até figuras míticas do folclore local. O diabo só era mencionado em alguns casos – diferente das crenças europeias, em que o pacto satânico é essencial para definir a bruxa. Por esse motivo, muitos historiadores tratam a perseguição às bruxas na Rússia como um fenômeno distinto da Europa.
Segundo Valerie A. Kivelson, historiadora e autora de três livros sobre bruxaria russa, os “feitiços” registrados eram muitas vezes poéticos e baseados em analogias. Embora grande parte das acusações de bruxaria fossem falsas, feitas de forma maliciosa, algumas pessoas de fato praticavam rituais acreditando se tratar de algo sobrenatural. Faz sentido: numa época em que havia pouco conhecimento de medicina, as únicas opções de um doente seriam rezar ou procurar um curandeiro mágico.
Outro tipo comum eram os “feitiços de amor”, que tinham a intenção de subordinar as vontades do enfeitiçado ao bruxo, provocar desejo ou restaurar a paz entre o casal. Na minoria dos casos em que mulheres eram acusadas de bruxaria, seus feitiços de amor pretendiam acalmar a raiva do marido.
Mas, afinal, por que os homens eram o foco das acusações na Rússia?
Para Kivelson, há uma diferença lógica entre as perseguições europeias e russas. A caça às bruxas na Europa se baseou no livro Malleus Maleficarum, que afirma que as mulheres são mais fracas, e por isso mais suscetíveis a fazerem um pacto com o diabo.
Na Rússia, a magia era vista como uma forma de subversão social de um sistema hierárquico forte, em que o czar estava no topo. A maior ameaça a esse sistema (ou seja, os “bruxos”) eram os homens.
As ideias sobre bruxaria na Rússia eram menos sensacionalistas do que na Europa ou em Salém, na América do Norte. Mas todas têm algo em comum: eram vistas como um perigo às estruturas sociais, religiosas e políticas estabelecidas na época.
História da bruxaria
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